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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Revolução de Bolso

Era um menino bem pacífico. Calmo, sempre muito sensato, aparentava uma maturidade até não condizente com a pouca idade. Não era bonito, longe disso, mas tinha seu charme. Muito culto e educado, compensava a pouca representatividade estética. Sustentava uma vida morna para manter essa boa imagem. Poucas coisas são tão difíceis de se criar e cultivar quanto um “bom menino”. Falava baixo, ouvia muito, sorria a todos. Nunca se exaltava em discussões, na verdade quase não discutia, concordava com tudo e todos. Um bom político não tem convicções muito radicais. Não pode ter!

Era sempre a última palavra nas discussões, mas não por pensar demais ou ter razão, apenas pela necessidade de ser o último a falar. Aguardava cordialmente, prestava atenção nos argumentos de um e de outro, e, quando chamado a participar, repetia todos eles, um a um, como quem profere um grande discurso escrito a muitas mãos, e finalizava concordando com a maioria. Sempre. Nunca perdeu uma votação. Esperava formar-se a maioria e a acompanhava. Golpe de mestre! E era mesmo um mestre. Formara, ao seu redor, uma legião de fãs e apoiadores “fiéis”.

Até que esses mesmos “eleitores”, a que ele chamava “colegas” e, em alguns casos, “amigos”, começaram a questionar toda essa pompa. Os tempos já estavam mudados, o mundo agora era outro. Como podia ser possível alguém “tão legal” ser tão formal? Toda aquela educação, todo aquele respeito... onde é que estava a juventude?

Não se importou a princípio. Considerava-se clássico. Vestia-se como um pai de família, fumava charuto, degustava vinhos e lia Machado de Assis. Tinha até uma namorada. Linda menina. Linda apenas não, como ele mesmo disse quando a conheceu: “bonita, inteligente e muito bem vestida”. A perfeita Dona Evarista. Com ela, era, finalmente, a figura mais bem sucedida que uma mãe poderia projetar para um rapaz. Amor não sentia, nem atração física (o que era estranho), mas era bom ter com quem conversar e passear. Além disso, todo homem de respeito tem uma mulher bonita. É de bom tom.

Mas as cobranças aumentavam dia a dia. De repente, já não era mais a figura querida e admirada por todos. Destoava da “galera”. O mundo precisa de gritos, a sociedade pede um tratamento d e choque. É isso a juventude, gente.Não há mais lugar para a gentileza.

Foi difícil, não se pode negar. Noites e noites em claro. Muita reflexão. Algo estava mesmo errado e precisava ser corrigido. Tanto tempo conquistando as confianças alheias para perder tudo agora? Jamais! Era preciso reagir.

Até que, numa quarta ou quinta-feira nublada qualquer, ele surtou. A bem da verdade, estava bastante lúcido, mas quem julgava conhecê-lo não conseguiu acreditar. Pôs para cima o cabelo (antes sempre pro lado), vestiu-se de preto e saiu cedo de casa. Cedo e a pé, precisava de tempo para pensar e planejar seu dia de “gente”.

Bebeu com os amigos logo pela manhã, beijou uns garotos (e gostou), experimentou maconha (e não gostou), brigou na rua, falou palavrão, quase parou na delegacia. Ajudou uns meninos a bater em outros. Ia participar de um roubo também, mas se atrasou. Assediou mocinhas, xingou idosos, gordos, anões. Fez piadinhas com os mancos. Andou de ônibus sem pagar. Na gíria da “galera”, “tocou o terror na cidade”! Estavam todos orgulhosos dele. Aquele menino que parecia “perfeito” mostrara-se um tremendo “bróder”. Era como a “maioria” agora. Quem diria, não?

O dia foi longo. Longo e divertido. Nada melhor que se sentir parte de um grupo. Melhor que isso, sentir-se líder de um grupo.

O sol estava quase nascendo quando chegou em casa ligeiramente bêbado. Ria alto e relembrava passagens divertidas daquelas últimas horas mágicas. Tomou banho, vestiu seu pijama listrado, rezou agradecendo ao papai do céu pela oportunidade de “soltar seus instintos e ser jovem”, abraçou seu ursinho e dormiu. Dormiu pesado, até roncou. Você não imagina o trabalho que dá uma revolução...

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