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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Hollywood

Esqueçam a AIDS, a gripe suína, esqueçam o terrorismo, os transgênicos e a crise econômica. Esqueçam tudo o que a mídia vende como “problemas” modernos, e escutem o que tenho a dizer. O principal problema da atualidade é Hollywood. E, não, ao contrario do que salta aos olhos, eu não me refiro à venda e propagação do american way of life, nem à manipulação das massas. E o fato de eles ignorarem a fome que assola o mundo e investirem tanto dinheiro em cinema, eu também ignoro (ora, sejamos realistas!). O problema hollywoodiano é bem mais específico. São as comédias românticas. Embora pareça piada, eu estou falando sério. Aparentemente inofensivas e com um mercado em eterna expansão, mas criadas com o único intuito de subverter todos os paradigmas das relações de afeto entre os seres humanos, as comédias românticas estão criando uma geração frustrada, que lota os consultórios terapêuticos.

Pode parecer só mais uma teoria absurda de alguma tia solteirona com mania de perseguição, mas não é. É triste, mas real, e está diante dos nossos olhos há décadas. Esses filmes (que eu adoro, não posso negar), só para início de conversa, dividem a sociedade em estereótipos que, apesar de fixos, são abordados de forma tão ampla que se adaptam às nossas peculiaridades. É impossível não se enquadrar em alguma das personagens de uma comédia romântica. A mocinha romântica que finge não acreditar no amor, sofre de insegurança e não acredita que, algum dia, possa atrair a atenção do mocinho deslumbrante; a amiga gordinha e ingênua; o galãzinho destruidor de corações, dono do maior ego do mundo, mas absolutamente indefeso, que se apaixona, de repente, pela encantadora mocinha que não preenche em nada as características (ao menos físicas) que busca em alguma mulher. Enfim, mulheres neuróticas, desajeitadas, mal vestidas e mal amadas, e homens solitários e arrogantes, mas absolutamente sensíveis e vulneráveis. Por mais que você não seja exatamente como ele ou ela, porque nunca somos exatamente iguais a nada, é impossível não se identificar. O gênio que criou essa fórmula usou os ingredientes mais comuns, as características e sentimentos mais recorrentes entre nós, e as que mais nos incomodam também.

E o pior de tudo isso é que esses filmes nos fazem acreditar em finais felizes. Porque, ora, é impossível não vibrar de alegria com a cena em que Vivian (Julia Roberts – Uma Linda Mulher) volta à loja onde não fora atendida, cheia de sacolas, e pergunta “você ganha é por comissão?” à vendedora que não quis atendê-la. Ela era uma garota de programa que havia saído com um milionário e, de repente, hotel cinco estrelas, grifes, jóias e sexo com o mocinho em cima de um piano. Tudo isso com direito a limousine branca e flores no happy end. Como se precisasse...

Ou, ainda, usando como referência apenas a Anne Hathaway, uma das atuais e mais promissoras estrelas desse gênero, é até crueldade dar tanta esperança às garotas feias. Afinal, não existem muitas princesas perdidas por aí atualmente (O Diário da Princesa). Pode acontecer, é claro, mas é bem raro, eu diria. Poucas meninas herdarão castelos e precisarão assumir tronos – sem nos esquecermos do banho de loja e da transformação no visual. Ou, ainda, é preciso muita competência e força de vontade para dar a volta por cima pelo trabalho (O Diabo Veste Prada). A maioria das garotas feias será feia sempre. Infelizmente. E Hollywood insiste, como uma mãe que consola as filhas enchendo-as de esperanças para evitar traumas. Mostra enredos fantásticos, homens maravilhosos, finais encantadores... que não acontecem, gente! Desculpa contar assim, a seco...

As mulheres são naturalmente mais esperançosas e fáceis de iludir que os homens e, por isso, o principal público alvo dessas atrocidades. Mas eles também não são poupados. Para os que, às vezes, se perguntam pelo amor, Tom (Patrick Galen Dempsey – O Melhor Amigo da Noiva) já mostrou que ele pode estar onde menos se espera. Quem não quer se apaixonar pela melhor amiga? Principalmente se ela for linda, gentil, interessante e estiver sempre ali, próxima, presente. Tão mais prático e com chances tão grandes de sucesso. Connor Mead (Matthew McConaughey – Minhas Adoráveis Ex-Namoradas) já explicou que não há como esquecer o primeiro amor e, para quem não se lembrava, Nick Marshall (Mel Gibson – Do que as Mulheres Gostam) mostrou que nem com poderes mágicos um homem pode decifrar a mulher amada.

E essa separação de gênero, baseada no que há de mais comum dentro de cada sexo, é, por si só, a mais terrível síntese da sociedade. Por isso a amplitude dos estereótipos. Como toda “regra”, é claro, há exceções. E o que mais me incomoda nas comédias românticas é exatamente o fato de eu ser uma delas. Apesar de, admito, machista, um pouco estúpido e, muitas vezes, bastante conservador, sempre me identifico mais com as mulheres dos filmes. Não que a minha alma seja feminina (ou pode ser, não sei), nem que tenha a ver com o meu signo (Câncer) destinado ao romantismo, mas sou meio mulherzinha para o amor. E falo isso com pesar não por machismo, mas realismo! Mulheres sempre sofrem mais em relacionamentos. Porque o homem sofre quando o amor acaba, é fato, mas a mulher sofre desde que ele começa, parece sina.

A minha identificação é tamanha que, às vezes, eu não consigo escolher uma só. Em Sex and the City, por exemplo, sou retratado de forma fragmentada. Acho que é exatamente esse o objetivo de um filme com quatro protagonistas, partir o telespectador, dividi-lo, torná-lo pedaços incompletos, peças desencaixadas. A identificação, é claro, fica a cargo de cada um. Tenho os sonhos da Charlotte, de um amor eterno, uma casa no campo, muitos filhos e toda aquela estabilidade emocional ultrapassada. Entretanto, não consigo me livrar da preguiça afetiva da Miranda, daquele medo (tão grande) de sofrer que desvia a atenção e as energias para outro campo da vida, geralmente o profissional. E o sonho de Charlotte somado ao medo de Miranda não me dão outra alternativa além do desapego de Samantha. Desapego esse que ainda não alcancei, mas busco dia após dia. O amor torna duas pessoas dependentes, e eu quero ser livre, não quero condicionar minha felicidade às atitudes de alguém que não posso prever. Na verdade, eu quero tudo. E tornar-me dependente, infelizmente, ainda me assusta um pouco. Esperar o destino Charlotte buscando o desapego Samantha sem coragem de enfrentar o medo Miranda é o que me faz ter sensibilidade da Carrie. E seus problemas e crises também.

Abby Richter (Katherine Heigl – A Verdade Nua e Crua) é uma das mulheres que mais se aproxima de mim no cinema, eu acho. Ela é uma produtora premiada, jovem e bonita que parece ter se rendido ao fracasso afetivo. Vou ignorar o fato de que ela conhece um príncipe, mas se apaixona mesmo é pelo cafajeste. O que a faz especial para mim é a neura que a consome. Ela é controladora, precisa ditar as cartas e se sentir no comando. O que parece um defeito, mas não é (preciso me defender!). As pessoas têm um pouco de dificuldade em lidar com a solidão alheia e é a secretária de Abby quem faz o papel do amigo chato, que cobra esperança, insiste na crença em um futuro melhor e até marca encontros para Abby com caras da internet. Nada a que nenhum de nós não esteja acostumado. O diferencial de Abby é que ela prepara, para esses encontros, uma ficha do cara que vai conhecer. Uma boa forma de garantir assunto para a noite inteira e, como não poderia deixar de ser, evitar surpresas. O que eu já cansei da fazer (ainda que indiretamente). Ter o controle da situação inclui não ser surpreendido. E a melhor maneira é dominar toda e qualquer informação. Odeio o processo de conhecer alguém, prefiro conhecer pessoas já conhecidas, e, para isso, a solução é mesmo investigar, pedir referências. Sou ansioso, só vejo filmes sabendo o final. Leio as últimas páginas dos livros quando o enredo aperta, não sei esperar.

Outro fator que me prejudica um pouco é o gosto por novidades. Lucy Whitmore (Drew Barrymore – Como se Fosse a Primeira Vez) sofre de um transtorno psicológico que lhe anula a memória recente. Por isso, Henry Roth (Adam Sandler) precisa reconquistá-la todos os dias. O maior medo dos casais apaixonados não é mesmo a rotina? Aí vem Hollywood e mostra um homem apaixonado que é capaz de tudo pela mulher amada, até mesmo conhecê-la novamente todos os dias. Em tempos de relacionamentos descartáveis, em que as pessoas são números, opções, é desumano mostrar ao mundo alguém assim, tão... apaixonado. Se o fato de ela ter um problema não a fizer mais especial que qualquer um de nós, nem mais digna de amor, é sinal de podemos exigir (ou, pelo menos, esperar) toda essa dedicação de alguém. Ou não?

Seguindo a linha principezinhos encantados que não existem mais, Charlie (Jesse Bradford – Ironias do Amor) faz todas as vontades malucas de sua (ainda mais maluca) amada Jordan (Elisha Cuthbert) e até concorda em esperar até o momento certo, em que talvez ela tenha mais certeza e esteja com a cabeça menos confusa. Porque o amor é paciente. E altruísta! Em alguns momentos, ela chega mesmo a considerar os sentimentos dele, mas, ah!, quem ama aceita. Não aceita? Ou, no mundo real, as pessoas não se amam tanto?

Eu amei na vida real uma vez. Na verdade, eu acho que amei. Porque aprendi, com esses filmes, que o amor toca sinos, tira o sono e a fome, e aceita, espera, compreende... o que não aconteceu na minha história. E pode ser que, amanhã ou depois, esses sininhos toquem e eu descubra que tudo aquilo não foi nada, que o amor é algo muito maior e melhor, e, aí sim, seja a minha vez. É, a propósito, o que eu espero que aconteça, porque aprendi a esperar mais (na verdade, aprendi a esperar TUDO) do amor. E posso dizer que, apesar de mais palpável, minha história foi uma comédia romântica das mais clichês. Como a de Kat Stratford (Julia Stiles) e Patrick Verona (Heath Ledger) em 10 Coisas que eu Odeio Você, mas sem final feliz (ou sem o final tradicional, com mocinho e mocinha juntos e felizes para sempre). A bem da verdade, também como em A Verdade Nua e Crua, Miss Simpatia e Amor à Segunda Vista, em que o amor e o ódio convivem lado a lado. Do mais profundo ódio (com direito a todas aquelas implicâncias e briguinhas infantis que quem vê de fora sabe bem no que vão dar) a um louco e tórrido amor, que acaba e dá lugar de novo ao ódio, dessa vez já sem as risadinhas e com muito menos charme. Porque amor e ódio são quase gêmeos mesmo, mexem com a gente da mesma forma, e, com ou sem sinos, embrulham o estômago e roubam o sono de alguns.

Assisti, pela segunda vez hoje, Como Perder um Homem em Dez Dias, e me vi em mais uma heroína. Andie Anderson (Kate Hudson) é uma jornalista que conhece Ben Barry (Matthew McConaughey) e precisa se relacionar com ele para escrever um artigo. Nunca fiz isso, já vou logo me defender! Mas me vi tantas vezes nas conversas de Andie com suas amigas, quando ela admitia as maldades que fazia e se perguntava como ele ainda conseguia estar envolvido. Tantas vezes fiz coisas parecidas. Não por maldade, mas inocência, inexperiência ou simples falta de noção. E me sentia o mais privilegiado dos homens. Imperfeito e imbecil, mas amado por quem eu mais desejava no mundo. E era até bom pisar na bola, só para ser perdoado e sentir mais um pouquinho desse alívio. Até que, como em uma história que conheço muito bem, ela se descobriu usada, pois tudo havia começado com uma aposta entre Ben e os amigos. Tudo começou realmente errado, uma aposta para ele e um artigo para ela. Mas, ainda assim, algo aconteceu entre os dois, e isso não pode morrer assim. Pelo menos não deve morrer assim... O meu enredo começou errado também, não necessariamente uma aposta e um artigo, mas uma experiência e um refúgio. Alguém que queria namorar que encontrou alguém que precisava de cuidados, que precisava de ajuda para atravessar um momento difícil e se recuperar para enfrentar a vida outra vez. E, ainda assim, um sentimento surgiu, a história acabou e, agora, eu me vejo como a Andie do fim do filme, escrevendo para me redimir (comigo mesmo), me explicar e me entender, na esperança de ser lido e perseguido em alguma ponte qualquer enquanto tento fugir. Porque, por mais que eu saiba não ser esse o melhor desfecho, cresci acreditando em finais felizes. E final feliz não é uma expressão qualquer, é um nome próprio, usado para uma única situação: o felizes para sempre, que só acontece quando o amor vence e os protagonistas ficam juntos. Porque o Deus de Hollywood não é muito criativo quando se trata de destinos. E eu nunca vou perdoar Hollywood por isso.

Alguém precisa se responsabilizar pela juventude Para Sempre Cinderela que vocês criaram...



2 comentários:

  1. Na minha opinião "A arte imita a vida". Ou seja, Hollywood teve onde se inspirar... É só uma questão de ter "feeling", e não deixar uma situação escapar, só porque estamos numa eterna espera..

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  2. Passei de Miranda pra Charlotte e to gostando...
    Espetacular o texto, como sempre!
    E viva a comédia romântica!

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