Páginas

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Metafísica do Lero-Lero

Comprei dois livros hoje. Matei aula no shopping, fui conhecer a nova loja da Leitura e, pra variar, não resisti às promoções. Escolhi um da Adriana Falcão, de quem eu gosto muito e já falei bastante aqui no blog, e outro de um autor que não conheço, Francisco Bosco. O primeiro dispensa apresentações, ainda nem abri e já adoro. Mas estou aqui hoje pra falar do segundo. Chama-se “Banalogias” e se apresenta como “uma espécie de Barthes com Seinfeld: um ensaísmo sobre o nada”. Seinfeld, para quem não conhece, é um cara genial, e a simples menção de seu nome já prendeu minha atenção. Além disso, discutir sobre o nada é só o que tenho feito. Não? Não estou publicado e disponível na Leitura, nem tenho coragem de me comparar a Seinfeld. Mas só comprei esse livro para saber como outra pessoa faz o que eu tanto insisto em fazer há quase três anos nesse blog.

E, olha, o cara é bom. Discursar sobre o nada pode parecer algo fácil, mas não é. O livro é da Coleção Filosófica e fala sobre tatuagem, dedicatórias de livros, gafieira, cirurgia estética e sensacionalismo intelectual, além de outras coisas tão pequenas, a que não damos muita importância, mas que, se analisadas a fundo, suscitam reflexões interessantes. Li os dois primeiros textos já e, pelo índice, aguardo ansiosamente a leitura de alguns próximos. “Dialética dos Playboys”, o primeiro, explica a formação da personalidade dos ditos “playboys” a partir de seus comportamentos em casa e na escola. Aborda a questão da família e do amadurecimento com base na percepção de cada um sobre o tempo a partir de um tema aparentemente inútil: os playboys, aqueles “cobiçados pelas meninas e invejados pelos rapazes”. E, por meio de exemplos e muita lábia, comprova a existência de uma dialética por trás de tudo isso. Muito bom. “Tatto You”, o segundo, analisa a atual febre das tatuagens a partir da origem dessa prática e de suas facetas ética e erótica. É preciso ler para acreditar. Há um chamado “Psicologia da Acne”, outro “Ontologia do Golaço”, fascinante.

E ele é bem categórico em apresentar esses conceitos dentro dos temas. Não introduz o assunto e deixa a conclusão a cargo do leitor não, disseca, comenta, como quem discute a mais importante e atual das questões. As idéias apresentadas, bem como a seqüência, o enlace, são excelentes. Mas confesso, entretanto, que achei um o texto um pouco prolixo. Acho que explica demais e deixa muito pouco pra nós talvez. Cada imagem é exaustivamente discutida e apresentada, em busca de uma clareza não tão necessária assim. O leitor não consegue sequer questionar. E isso me fez pensar o quanto eu também sou prolixo. Tanto que prometi falar sobre isso em um texto pequeno e já não estou cumprindo.

Quando escrevo, geralmente estruturo o texto em tópicos antes de desenvolver as frases, porque é uma forma de dar continuidade e fluidez aos meus pensamentos. Até mesmo porque minha mente faz conexões demais e eu sempre me perco. Sem um “passo a passo”, meus textos se subvertem e saem do meu controle. Esqueço o que ia falar e, de conexão em conexão, sou levado a outros caminhos, outros assuntos e outras reflexões.

E gosto de coisas completas. Já perdi alunos por isso. Lembro de uma menina que quis trocar de professor no grupo porque eu “explicava demais, não deixava as aulas renderem”. Preferiu uma colega minha que, segundo ela, “era mais rápida, dava as respostas e adiantava mais a matéria”. Você pode me perguntar quanto é o valor de X numa expressão e eu provavelmente responderei imediatamente. Mas não é suficiente, não para mim. Eu preciso EXPLICAR o porquê, ensinar a chegar àquele mesmo resultado. Falar sobre frações, rever potenciação e por aí vai. Não sou bom com respostas simples, gosto de dissertar. Até mesmo porque penso de “forma completa” demais. Não tenho pensamentos avulsos, idéias estagnadas. Na minha cabeça, é tudo uma construção, uma seqüência de embates internos até se chegar a algo que, rapidamente, dará origem a alguma outra coisa. Dizer frases soltas e curtas, então, é um pesadelo para mim.

Um dos meus alunos, o mais antigo por sinal, amigo da desertora que me trocou, diz que eu sou “bom para vésperas de provas, mas, realmente, lento demais para os dias normais”. Quando quer me perguntar algo, começa com “sem querer me explicar todas as teorias de Einstein, você pode me dizer...”. E, como em uma redação da escola, eu apresento aquela que considero ser a resposta e quero logo explicá-la, mas ele só me espera respirar e interrompe: “tá bom, tá bom, era só isso”. O que me obriga, é claro, a pensar cada vez mais antes de responder, e formular as maiores e mais completas frases possíveis. Analisando íntima e psicologicamente, só para seguir a linha de “Banalogia”, isso é a manifestação natural de uma mente questionadora. O reflexo imediato de uma necessidade por respostas, um ceticismo quase, que não se convence facilmente. Fruto da resistência inconsciente a uma sociedade que prima pela velocidade na comunicação, pelo raciocínio completo e acabado, sintético. Ou apenas chatice mesmo, frescura, falta do que fazer.

O importante é que, exatamente para não ser prolixo, não organizei esse texto e, agora, não sei onde queria chegar. Antes, no entanto, que eu me enverede por assuntos já bem menos relevantes e retome o raciocínio após duas ou três páginas sobre “nada”, leia “Banalogias”, de Francisco Bosco, e continue acompanhando esse blog. Não pelo mesmo motivo, é claro, pois aquele se caracteriza por incomparáveis maturidade intelectual e superioridade argumentativa, mas porque esse ainda será como aquele e vai ser bem legal acompanhar a caminhada, eu espero.

2 comentários:

  1. Às vezes, lendo seus textos, me esqueço de que você é o Caio. Sério. Parece que estou lendo alguma matéria na Veja ou algo do tipo (sim, isso foi um senhor elogio, na minha percepção).

    ResponderExcluir
  2. 1. Você acha que todo leitor é tão esperto quanto você.
    2. Você gosta de dissertar, jura? Rs
    3. Acho que esse livro tem propriedades alucinógenas. Me empreste depois.

    ResponderExcluir