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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O Luto

“Para Vinicius de Moraes, como se sabe, o trágico do amor é que ele acaba. Ou melhor, que a paixão acaba, e para Vinicius é a exigência da paixão – a que sua criação poética estava irremediavelmente atrelada – que comanda os movimentos da existência. Mas isso é ainda dizer muito pouco. Pois o trágico não é que a paixão acaba. Se fosse só isso, bastaria trocar de objeto, como faz o desejo. O problema é que o amor não acaba: se às vezes é preciso pular, é sempre por outras forças, impasses, apelos, mas não porque o amor acaba. Se o amor acabasse, não haveria o luto. O luto é precisamente o fato de que o amor só acaba depois. O escritor argentino Macedonio Fernandes dizia que ‘as coisas começam sempre antes’; já o amor termina sempre depois. O luto é o operar-se vivo do amor. É preciso separar os mundos, desjuntar o tempo, afastar-se libidinalmente – para que então, depois, o amor acabe: ‘se pudesses, deverias freqüentar um outro mundo’, diz Ovídio.”

[BOSCO, Francisco. Se Pudesses, Deverias Freqüentar Um Outro Mundo, In: Banalogias, Coleção Filosófica, Editora Objetiva, p. 63-4]

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