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terça-feira, 17 de novembro de 2009

PAUSE


Não durou nem um minuto, eu acho. Foram três ou quatro perguntas em inglês – o suficiente para eu me enrolar e cometer todas as gafes possíveis –, um sorriso terno dele, outro aliviado meu, e pronto: meu visto foi concedido. Já posso ir para os EUA.

Confesso que achei que seria mais difícil, separei tantos documentos, ensaiei respostas para perguntas difíceis, escolhi uma roupa jovem-mas-sóbria, colorida-mas-discreta... e nada disso foi preciso. Acho que as palavras “Direito” e “UFMG” pesaram um pouco a meu favor. E é ótimo saber que meu curso serviu para alguma coisa! Além disso, saiu a divisão de cargos no resort e eu consegui o que queria. Não sei como, mas consegui. A minha agente diz que foi pela “personalidade aferida das entrevistas”, os meninos dizem que foi pela data de chegada. Eu acho que foi sorte, só pode ser. Peguei o melhor emprego, que ganha mais e, aparentemente, desempenha a função mais suportável. Estava morrendo de medo de cair em qualquer coisa relacionada a crianças ou limpeza. Uma amiga disse que vou ganhar para ser bonito. Agradeço!

Vou comprar as passagens essa semana, e eu não deveria estar pulando de alegria? Não deveria comemorar a realização de um sonho, começar os preparativos, fazer contagem regressiva? Por que, então, eu estou assim, tão apático?

Eu digo. Porque sou um covarde, que já está com medo de ir por ter medo de voltar. A proximidade com o momento em que eu finalmente vou dizer “até logo” a tudo isso aqui é tão grande que me faz repensar. Será que é mesmo o certo a se fazer? Porque, agora, eu já acho que talvez não seja. Não vou desistir, gente, não mesmo. Mas quero explicar meu raciocínio.

A minha vida sempre foi “perfeita”. Exceto no campo afetivo, em que só fui feliz por alguns meses (não consecutivos, é claro!), tudo dava certo e se mantinha sob o meu controle. Até 2009. Espero, inclusive, um 2010 de SUBIDA, porque a minha vida está no pé do morro já, não tem mais como descer. Não sei se por azar, ou apenas para me trazer fortes emoções, o destino pegou pesado comigo e quebrou todas as minhas certezas e apoios. Estou desequilibrado em todos os sentidos da palavra. Meus amigos estão distantes, briguei com a minha família, levei um pé na bunda... não gosto mais de Direito e não agüento mais meus empregos. Para a próxima virada, então, o correto seria tomar banho de sal grosso, vestir roupa nova, pular ondinhas, comer lentilha e pedir, pelo amor de Deus, muita força e coragem pro próximo ano, para restabelecer minhas estruturas e recomeçar.

Sinto como se fosse, finalmente, a hora de agir como um adulto. Ter um emprego de adulto, o comprometimento de um adulto com os estudos, a maturidade de um adulto para os relacionamentos e a paciência de um adulto para com a família. E esses últimos dois meses de 2009 deveriam ser o casulo pra lagarta aqui borboletear o mais rápido possível. Procurar um emprego, começar a malhar, trocar o carro...

E, no entanto, o que é que eu fiz? Arrumei uma viagem de TRÊS meses (um quarto de ano) pro meio da neve, a quatro horas das praias de San Francisco e há muitos quilômetros de todos os meus problemas. Quando, enfim, eles me encurralaram e chegou a hora de os enfrentar, eu apertei o PAUSE, como se a vida fosse um filme, e quis mudar a cena. Em vez de crescer de uma vez e resolver o que me aflige, eu preferi fugir e esfriar a cabeça numa estação de esqui. O que parece ótimo e renovador, mas não sei se será. A experiência parece inesquecível com certeza, mas os problemas também. Por mais que eu os apague da memória, será algo temporário, pois eles ficarão aqui a minha espera. Quando eu voltar, ainda precisarei de um emprego, de um carro novo, de um novo amor... eu só estarei três meses atrasado pra tudo isso, mas a vida será a mesma. E eu me sinto uma criança imbecil adiando a hora de crescer e sabendo que não adianta.

Claro que isso é mais um motivo para eu curtir cada um desses 90 dias como se fosse o primeiro ou o último. E eu espero, sinceramente, que o Caio que voltar seja diferente. Porque o que está indo já não agüenta mais. Deu pause, pediu penico, tirou o time de campo por tempo indeterminado. Mas o jogo continua, e alguém vai precisar por ordem nisso aqui em 2010...

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