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domingo, 13 de dezembro de 2009

Ferver

Sábado, 12 de dezembro de 2009

Hoje, eu já me encontro mais equilibrado e capaz de formular frases completas. Até em inglês, eu arrisco dizer. Haha. Escrever no blog tem sido minha principal distração. As coisas acontecem comigo durante o dia, e eu fico pensando “meu Deus, preciso contar isso no blog”. Não tenho com quem conversar aqui, sinto falta dos meus amigos daí, e acho que essa é uma boa oportunidade de dividir com todos essa experiência tão “diferente”. Descobri que aqui chega a fazer -22 graus. MENOS VINTE E DOIS GRAUS. O que significa dizer que é muito mais frio do que a nossa pobre mente é capaz de imaginar. Agora mesmo, são 18:07 e parece meia noite. Está escuro e frio, e eu estou debaixo de um cobertor ouvindo músicas no notebook e escrevendo no Word. Nesse horário, no Brasil, eu estava saindo pra aula. Aqui, é inconcebível pensar em sair. As pessoas até saem, é claro, mas porque já estão acostumadas a esse frio do inferno, coisa que eu ainda não estou. Não mesmo. Sinto que meu organismo ainda não se acostumou. Não sinto vontade de fazer nada. Não quero sair, não quero tirar foto, quero só ficar dentro de casa. Acho que, na verdade, eu quero é voltar pra minha casa aí no Brasil, onde eu usava bermuda e papete e SORRIA.

Nevou muito hoje, muito mesmo. As ruas estão cobertas de neve, eu quase não parei em pé. Isso, por um lado, é ótimo, porque aumenta o movimento na estação de esqui e, conseqüentemente, meu trabalho e meus rendimentos. Mas, por outro, é terrível, porque está cada vez mais difícil suportar o trajeto casa-trabalho-casa. Não estou trabalhando todos os dias (aliás, eu quase não estou trabalhando), mas sempre que preciso trabalhar é um martírio. Preciso andar um bom pedaço de chão daqui de casa até o ponto de ônibus. Eu poderia pedir carona, como TODOS fazem, mas e a preguiça de socializar? Imagina eu entrando em um carro diferente todos os dias e tendo que dizer “good morning, my name is Caio and I’m from Brazil, how are you?”. Não. Não mesmo. Depois, espero a vida inteira e mais quinze dias até o ônibus ter a BONDADE de passar (porque ele atrasa todos os dias). Aí, ainda preciso andar do ponto até o resort (só um pouquinho, eu confesso), e tudo de novo na volta. Pelo menos, hoje, conheci uns brasileiros legais. Arthur e Julia, de Belo Horizonte, e a louca da Grazi, que veio de São Paulo sem lugar pra ficar e sem falar inglês. Está andando pra cima e pra baixo com as malas, dormindo cada dia num cafofo e usando sacolas plásticas entre as meias e os tênis, pra não molhar os pés na neve. Talvez ela passe uns dias aqui em casa, coitada. Aqui, por ser cidade pequena e muito fria, todo mundo se ajuda muito, e isso é bom. Outra coisa interessante é que eu trouxe apenas um par de tênis, e eles escorregam MUITO aqui na neve. Tem sido uma aventura me manter de pé. E é impossível me perder, meus escorregões deixam um rastro inconfundível nas ruas. Muito melhor que pegadas.

O segundo menino da casa chegou, graças a Deus, chama-se Fernando. Somos dois agora. Não mudou muito as coisas não, porque eu não o conheço. A gente conversou muito ontem, logo nas primeiras horas, mas o assunto acabou. Ele está aqui na sala comigo agora. Eu escrevendo num sofá e ele lendo no outro. Só quem quebra o silêncio, às vezes, é a Taylor Swift aqui no laptop. Mas ele tá lendo, né?! Tenho que ficar me contendo – sentirei saudades dos dias que passei aqui sozinho? – em prol de toda uma política do bom roommate. Ele é de Brasília e, apesar de ter a assinatura da avó tatuada no braço (o que é, no mínimo, inusitado), é extremamente divertido e gente boa. Tão gente boa que aposto que não seremos amigos. Ele é calmo, paciente, tranqüilo... Pessoas legais não costumam gostar muito de mim. Amanhã, se a neve deixar, faremos um passeio super divertido. Talvez eu até compre pilhas pra câmera. Vamos ao PIER (pus em maiúsculas porque não sei se tem acento) do Lago Tahoe (sim, a cidade se chama Tahoe City e fica dentro de uma cidade maior chamada Lake Tahoe exatamente por conta desse lago). Ele é bem pertinho aqui de casa, bem mesmo, só o que dificulta um pouco o acesso é toda essa neve. E é bem grande e bonito também. Estou há dias querendo ir até lá e não tinha companhia. O Fernando é bastante animado, e até quando não quer ter trabalho com alguma idéia mirabolante (eu tentei que ele me ajudasse a ferver toda a louça da casa para esterilizar), dá o maior apoio moral.

Falando em ferver as louças da casa, meu primeiro dia de doméstica (ontem) foi um sucesso. Hoje, eu quebrei uma lixeira, mas isso não vem muito ao caso. Arrumei a cozinha, dei um jeito no banheiro, desfiz a minha mala, organizei as gavetas, recolhi o lixo. E, hoje, ainda pusemos um pouco de lenha pra secar, para acendermos a lareira amanhã. Como não eram muitas as tarefas do lar, ainda tive tempo para fazer o melhor e mais completo dossiê sobre a vida e a carreira política do ex-presidente Fernando Collor de Mello para um trabalho da Faculdade. O objetivo era analisar constitucionalmente o seu processo de impeachment, mas, para isso, era preciso uma “introdução histórica”. E a do meu grupo, que eu fiz ontem, ficou tão boa (e tão completa), que estou até orgulhoso. Quero publicar, ainda que no Google (haha). Ficou imensa, mas conta toda a carreira política dele e de toda a sua família. Conta até que ele já foi presidente de um time de futebol – e disso ninguém sabia. Acho ridículo ter que fazer trabalho da Faculdade até hoje, de um lugar a sete fusos de distância (a diferença é de seis horas porque o Brasil está no horário de verão), mas UFMG é sempre UFMG.

Hoje, ainda, aí no Brasil e provavelmente neste momento, é a comemoração do aniversário de uma das meninas do meu antigo “grupo de amigos” na Faculdade. E, para esse, vejam só, eu fui convidado – o que não é algo tão obvio assim de acontecer. Achei bonitinho o convite. Ainda que eu esteja tão longe. É legal saber que uma ou outra amizade é de verdade. E que, não para todos, eu fui só o ocupante de um cargo, só o namorado de alguém do grupo, imediatamente descartado de tudo quando do término do relacionamento. Se uma ou duas amizades forem verdadeiras, ainda que no meio de outras cem, valerá sempre a pena acreditar nas pessoas.

E, já que eu falei em pessoas e adiantei no último post, só porque eu prometi fazer amigos aqui, levei uma SENTADA de uma menina mal encarada ontem. Estava no escritório central, usando a internet, quando ela chegou com o laptop. Só que eu estava monopolizando a tomada e o sofá (com a minha jaqueta, luvas e gorro). Como não ia mesmo liberar a tomada, tratei logo de abrir caminho no sofá, para que ela, pelo menos, pudesse se sentar. E SORRI em sinal de gentileza e demonstrando que aquele lugar era para ela. Ela já estava se sentando quando LEVANTOU, VIROU AS COSTAS E SAIU. Deixou até o celular para trás. Achei que estivesse indo embora, e não. Ela foi se sentar lá fora. Na neve. No frio. No meio do nada. E eu tinha tomado banho, estava cheirosinho. Não sei o que a fez fugir tanto. Sabia que não deveria ser simpático com esse povo gordo e capitalista.

Pro pessoal que gosta de ver é o circo pegar fogo, eu também tenho boas notícias: estou MORRENDO de alergia. Vou contar um segredinho que talvez mude um pouco a imagem que vocês têm de mim: eu tenho alergia a frio. Não vai mudar, é claro, por conta da alergia em si, porque nem é frescura, eu juro. É DOENÇA, gente, super feio rir disso. Mas vai mudar, com certeza, quando vocês se perguntarem O QUE UMA PESSOA COM ALERGIA A FRIO ESTÁ FAZENDO NUMA ESTAÇÃO DE ESQUI. Pois é. Eu (não) sei. Não é que eu GOSTE de sofrer ou que seja irresponsável e inconseqüente. Talvez eu goste um pouquinho sim e seja realmente tudo isso, mas não foi por isso que vim parar aqui. Eu sempre quis conhecer os EUA, trabalhar aqui nas férias e fugir um pouco daquela vida “tranqüila” que eu sempre levei no Brasil. Aí a oportunidade surgiu e eu recusei de cara, porque “oi, frio, oi, neve, oi, alergia!”, mas confesso que me rendi depois. O Guilherme (meu amigo que está a caminho e vai morar aqui comigo) foi me convencendo aos pouquinhos, e todo mundo que podia ter me dado algum conselho errado o fez com categoria: “vai, você vai gostar”, “aproveita e faz uma coisa realmente diferente”, “pare de bobagem, quando você vai ver neve outra vez na sua vida?”, “relaxa, é só você se agasalhar direitinho”. E, agora, estou aqui TROCANDO DE PELE. Vou contar mais um detalhe (e esse é nojento): minha alergia só se manifesta nas pernas. Acho que uma vez apareceu no peito também, mas pode ter sido algo que eu comi (normal!). A parte interna das minhas coxas fica vermelha, empolada, e coça MUITO. Começa com um vermelhinho, aparecem as bolinhas, começa a coçar e aí é uma merda só! Sai aquele caldinho de machucado, dá casquinha, cicatriz. Um inferno! E já está na parte da coceira. Como boa pessoa, forte e controlada, que sou, tenho tentado me manter calmo e não coçar. Mas, né?! Até sacanagem eu me exigir esse tipo de coisa! Herdei essa alergia da minha mãe, e ela conta que, quando criança, dormia com uma escova de cabelo nas mãos, para coçar as pernas durante a noite. Uma ESCOVA DE CABELO, eu repito. Só para vocês terem uma breve noção do quanto coça. Eu tinha cicatrizes na infância, hoje minha vista não alcança mais, então não sei. Mas isso está me angustiando um pouco, eu confesso. Como pessoa otimista que eu também prometi ser, acredito que essa será uma boa oportunidade de OBRIGAR o meu corpo a conviver de forma HARMONIOSA com temperaturas UM POUCO mais baixas. Imagina voltar pro Brasil curado, que beleza!

Falando em neve e mãe, a minha me mandou um e-mail essa semana, super triste, dizendo que esse seria o primeiro fim de semana que ela passaria sozinha em casa (porque meu pai viajaria e meu irmão está – dizem – estudando para a segunda etapa do vestibular). Falou que ficaria triste, que queria me ver, que queria que eu telefonasse, até falou OS HORÁRIOS EM QUE ESTARIA EM CASA. Fiquei com o coração partido. Andei milhas embaixo de (MUITA) neve hoje para chegar do trabalho a tempo de entrar na internet e dar tchauzinho pra ela pela webcam, fiquei preso do lado de fora de casa, busquei chave reserva, atolei o pé na neve pra cortar caminho, fiz o possível e o impossível para pegar o oasis do wi-fi aberto e, quando consegui, ela tinha viajado com o meu pai. Entrei correndo no MSN, pedi pro meu primo (que estava online) ligar lá pra casa, e, quando ele disse que ela não estava, até achei que tivesse errado o horário, mas não. Meu irmão entrou e explicou que ela tinha viajado. Ela viajar com o meu pai para não ficar em casa? BELEZA. Mas ela fazer toda aquela chantagem emocional, me deixar com o coração partido e, depois, viajar com o meu pai para não ficar em casa? COVARDIA. Bem estou pensando em passar uns dias sem mandar e-mail, só de vingança.

Falando em pessoa boa e otimista, agora a minha nova mania é prometer as coisas para 2010. Em 2010, eu vou esquiar; em 2010, eu vou rolar na neve; em 2010, eu vou ser legal e puxar assunto com as pessoas; em 2010, eu vou ser outra pessoa. Caio 2010 será uma loucura, nem eu consigo acreditar. Vou enterrar, junto com esse ano horroroso, todo o meu mau humor, minha impaciência, meus medos bobos e minha insegurança. O Caio 2010 pode se fuder ainda mais, mas vai botar pra quebrar.

Enquanto isso, os últimos dias de 2009 continuam não sendo os melhores da minha vida. Hoje foi um belo exemplo disso. Além de toda a infeliz experiência com esse poço sem fim de neve, meu primeiro dia de trabalho no resort não foi o que eu esperava. Na verdade, desde as palestras de orientação, eu tenho a estranha sensação de que não nasci para isso, não é pra mim e não vai dar certo. O trabalho em si é bem simples e bem chato. Eu fico em pé numa sala, onde ora venta e ora faz um calor infernal, guardando e buscando esquis pros clientes. Tem todo um sistema de guardar, um cadastro digital, uma busca pelo sobrenome... coisas que eu já aprendi. Mas, aqui, o nosso “lema” é SEE, e significa SMILE, EYE CONTACT e ENGAGE. O que quer dizer que eu preciso sorrir, olhar os clientes nos olhos e, não importa como, render conversa com eles. Gente, é um SACO. Hello, good morning. How are you? Today is a nice day to ski, right? Are you having a great time? The sky is so beautiful! A vantagem é que ninguém aqui entende meu português, então eu posso resmungar coisas doces como POR QUE VOCÊ NÃO PEGA FOGO, JAPONÊS FILHO DE UMA PUTA?. Além disso, eu me sinto um pouco mal por balançar a cabeça e concordar com tudo sem entender quase nada. Sou uma farsa. E tenho a ligeira impressão de que vou me fuder gostoso quando eles considerarem que eu realmente entendi tudo o que eles falam (e, ai meu Deus, COMO eles falam!) e começarem a me cobrar! Pelo menos, eu sou criativo. Estava voando hoje quando a chefe me fez uma pergunta (sobre uma coisa que ela tinha dito e eu deveria saber – e não sabia, é claro!) e eu respondi, com a cara mais docemente envergonhada que pude simular, um tímido I don’t know!. Os olhos dela deixaram claro que a minha doçura não havia sido suficiente e eu IMEDIATAMENTE comecei a falar sobre algo que ela tinha esquecido, e ela acabou esquecendo foi tudo. Ponto pra mim. Mas esse jogo está LONGE de acabar, eu sei.

A propósito, ganhei um uniforme imenso hoje. Não tinha M, então me deram um XG, eu acho. A camisa pólo preta perece um vestido. Ah, nem contei, preciso usar sapatos pretos (fui de tênis branco hoje, e o chefe até gostou, disse que posso ir de tênis se quiser!), calças cáqui (CÁQUI, gente! CÁQUI!), uma camisa pólo preta PRA DENTRO da calça cáqui e uma jaqueta vermelha com preto (ou cinza, há dois modelos). GATÍSSIMO, né?! Vergonha de ENCARAR as pessoas... Quanto à jaqueta, eram várias do modelo com cinza (que é bonito e colorido) e UMA do modelo com preto (velho, sem graça e com cara de sujo), alguém quer arriscar qual eu ganhei? E alguém quer saber o que eles disseram quando eu pedi pra trocar?

Até com o meu cabelo já implicaram. Na verdade, não implicaram ainda, mas já avisaram que vão implicar em breve. Com essa coisa de ficar de gorro o dia inteiro, meu cabelo está lindo. Mas tão lisinho e baixinho que aparenta ser bem maior. E eu quero mesmo aproveitar essa oportunidade para deixar ele crescer sem rumo e, só em março, cortar igual ao do príncipe do Love Story (clipe da Taylor Swift). Mas já avisaram que eu precisarei cortar quando ele começar a tampar a orelha. Fiquei com vergonha de perguntar na hora, mas, se eu puser ele sempre PRA TRÁS da orelha, vai chegar aos pés e não a tampará, correto?

Os meninos que trabalham comigo são ótimos. Ainda estou com dificuldades com os nomes (e tem um que eu acho que chama West!), mas já gosto um pouquinho de cada um. Eles é que não devem gostar muito de mim, porque eu não acompanho a velocidade das conversas e pergunto WHAT toda hora. Entre falar tudo duas vezes e não falar comigo, eles já estão começando a ficar com a segunda opção. Por último, sobre o meu super emocionante primeiro dia de trabalho, devo contar que os clientes daqui são divididos em VIPs, super VIPs e IMORTAIS DE TÃO VIPs. Nessa última categoria, hoje, só tínhamos um homem. E chuta quem foi o meu PRIMEIRO cliente? Eu nem sabia que ele era ele (ou teria fugido sem nem olhar pra trás assim que o visse), nem que ele deveria ser tratado como a própria encarnação do nosso senhor Jesus Cristo, e, só um pouco nervoso, já fiz tanta bobagem que ele, incrédulo frente ao meu desempenho, perguntou pra minha chefe se era meu “first day”. Nem levantei a cabeça pra não ter que ver a cara dela. É. Quais são as chances de isso dar certo, minha gente?

Eu vou parar de reclamar um dia, eu acho. Eu sei que é até pecado, que milhares de pessoas gostariam de estar no meu lugar por vários motivos. Mas o fato de eu ser eu me permite não ser cem por cento feliz, certo?

p.s.: Fernando acabou de fazer uma piadinha em tom levemente desafiador com o fato de eu querer ferver tudo (dos talheres à banheira), e eu abandonei a “revisão” desse post, pus um caldeirão de água pra esquentar e vou ferver tudo é agora mesmo! Em breve, o único micróbio vivo nessa casa serei eu. Falei que ia ferver, não falei? Limpeza, a gente vê por aqui...

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