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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

It's a party in the USA.1

Uma vez, eu disse que minha vida era “imprevisível” e hoje percebo o quão errado estava. Não existe vida mais previsível que a minha. Por mais “cheios de aventuras” que sejam os meus dias, e que, como dizem, “certas coisas só aconteçam comigo”, é absolutamente garantido que, para mim, o que puder dar errado, dará. Não importa onde nem quando. Afinal, a partir de hoje, estou aqui, quebrando a cara nos states.

Vamos começar pela viagem: não vou contar que chorei na despedida, nem que precisei tirar um folgado do meu lugar no avião, porque essas partes também são bastante previsíveis. Contar que minha mochila está cheia com tudo o que me foi oferecido também não tem a menor graça. Se me mandarem abrir na alfândega, aí sim será divertido, ver aquele tanto de cobertores, comida e até caneta do balcão de check-in. Pobreza não tem país não, minha gente.

Logo no salão de embarque de Confins, descobri que só saem três aviões por semana de BH para Miami e, por isso, todo mundo que eu conheço estava na fila comigo. O que foi ótimo. Matei saudades de uns, conheci outros, bati altos papos. Passei as mais terríveis horas da minha semana ao lado de um menino chamado Diego (uma gracinha de pessoa, mas com a maior pinta de terrorista, estive esperando todo o tempo que ele anunciasse uma bomba e me fizesse de refém, o que não aconteceu entretanto). A culpa pela noite assombrosa não foi dele, coitado, mas do avião. Poucas vezes eu senti dores em tantas partes do corpo ao mesmo tempo. Impossível pregar os olhos. Passei a noite me revirando, contorcendo e lamentando. O Diego mesmo, apesar de terrorista em potencial, foi uma excelente companhia. Quando, enfim, dei uma cochiladinha, entretanto, ele me acordou. E não sei se percebeu meu descontentamento, mas, antes que eu pudesse anunciar uma bomba e o fazer de refém se explicou: estava passando a comida e, se eu não acordasse, não receberia. Meu.melhor.amigo. Já estou com saudade do Diego.

Falando na comida, penso que poderia viver a base de comida de avião. A massa é quentinha e macia, a salada de frutas gelada, o sanduíche quentinho, a bebida gelada. Tudo como tem que ser, sabe? Sem contar que descobri minha vocação: temperar salada! Não preciso mais estudar, posso viver disso. Nasci para temperar saladas e só preciso de um limão, um pouco (não tão pouco) de sal e algum sachezinho de molho para exercer minhas habilidades.

Quase no fim dessa primeira etapa da viagem, a primeira tragédia. Na hora de começar a aterrissagem, a pressão interna do avião alterou-se levemente e o meu nariz não gostou. Sinusite atacou na hora. Uma dor de cabeça horrorosa, que não me deixava nem abrir os olhos. Meu cérebro estava pulsando, e a parte de trás dos meus olhos pegando fogo. Cogitei AVC. Mas o nariz começou a escorrer tanto, que só podia ser um derrame. Diego estava conversando comigo (sobre navios, eu acho), e eu até tentei disfarçar mas foi impossível, virei um chafariz de catarro. E, por acreditar em um derrame, não tirava os dedos do nariz buscando vestígios de sangue, que não encontrei, diga-se de passagem. Como não conseguia abrir os olhos, a única imagem que tenho é da cara de pavor do Diego (é, ele não devia mesmo ser terrorista...). Ele se assustou tanto, que abriu sua bagagem de mão procurando alguma forma de me ajudar (ou uma bomba, eu insisto) e, não encontrando, meu deu um chiclete. “Mastiga isso aí, véi” teriam sido as últimas palavras que ouvi se não tivesse sobrevivido.

Em Miami, me lembrei que não trouxe relógio. Oi, eu vim sozinho pra outro país, viver regido sob outro fuso-horário e não sei nem que horas são. Na verdade, o problema principal não é saber as horas, porque isso eu posso perguntar – e sei perguntar! –, mas não ter despertador me dá certeza de que dormirei três dias seguidos assim que deitar na minha cama. E quem quer que chegue depois de mim à casa morrerá congelado na porta, com o dedo na campainha, esperando que eu acorde. Temendo pela saúde alheia, resolvi procurar relógios e gastei quase todo o meu tempo livre nisso. Não comprei nenhum, é claro. Aeroportos não são lugares para compras.

Até esse momento, ainda estava com as meninas da Faculdade, e estávamos nos divertindo bastante. Resolvi escrever para casa, mas apanhei do wi-fi e chegou a hora de entrar no segundo vôo. Dessa vez, para Chicago. E, dessa vez, fui eu quem errou o lugar. Já no assento correto, abri meu “Banalogias” para ler na santa paz do senhor quando ouvi “oba, você também é brasileiro!”. Jean Paulo é um careca já beirando os trinta anos, formado em Letras (“gramático” segundo ele) que vive em Sete Lagoas e estava indo pra Chicago trabalhar como trainee, dando aulas de ecologia para crianças. Caio e seu bocão um: se você estuda gramática e semântica na língua portuguesa, veio fazer o quê nos Estados Unidos? Caio e seu bocão dois: ecologia? crianças de 8 a 12 anos? nossa! nada a ver.

Mas Jean era divertido. E, como todo bom professor (de Ecologia que seja!), extremamente paciente. Só sofria de um medo absurdo de avião, o que me rendeu boas risadas. Entre uma secada e outra na careca, ele perguntava “já tá dando pra ver o chão”. Até que, por ser bem menos paciente, respondi “sim, tá tão pertinho que, se cair agora, a gente nem machuca muito!”. Não foi legal, reconheço.

Estava nevando demais em Chicago, e o avião não pôde descer. Eu teria 40 minutos para pegar a próxima conexão e passamos quase uma hora voando em círculos esperando o aeroporto liberar a aterrissagem. Preciso dizer que perdi o vôo? Uma vez perdido, descobri rapidamente que, diferentemente de mim, minha bagagem chegou a tempo, e já estava a caminho de Reno enquanto eu chorava em Spanglish com as atendentes da American Airlines. Posteriormente, eu descobriria que minha passagem passou o dia inteiro me esperando, jogada na neve, do lado de fora do aeroporto, o que impede a utilização de qualquer uma das minhas peças de roupa, encharcadíssimas, como não poderia deixar de ser. Para começar, descobri que é verdade que as mulheres aqui têm nome de comida. Penni, que me atendia, chegou a me dizer, SORRINDO, que eu seria transferido para outro vôo AMANHÃ DE MANHÃ. Não vou contar a minha reação, apenas saibam que ela chamou duas colegas e pediu para eu não entrar em pânico. E ainda chamou uma argentina da cabeça chata porque eu não domino o inglês. Tudo bem que eu estava um pouco alterado, mas entendi até as piadinhas que ela fez achando que eu não estava entendendo. Quase morreu de rir quando perguntou como era minha bagagem e eu respondi “a big and black bag”. Tudo bem que toda mala é big e black, mas, então, por que a pergunta? Se eu dissesse “small and pink”, ela choraria? E ainda coroou o momento dizendo que me transferiria para outra companhia aérea, a Alaska Airlines, e eu entendi que faria uma conexão no Alaska. “NÃO VOU PRO ALASKA, NÃO VOU, MINHAS JAQUETAS ESTÃO NA MALA, NÃO POSSO IR PRO ALASKA”, eu gritava com as mãos no coração. Vou rir disso um dia. Hoje ainda não.

Tentaram várias combinações e acabei ganhando mais duas passagens (uau, agora serão QUATRO VÔOS), uma para Los Angeles (que eu só precisaria esperar por quatro horas) e outra para Reno, onde eu chegaria apenas OITO HORAS E QUINZE MINUTOS depois do combinado. Estou com medo de não ter ninguém me esperando. Telefonei para lá e deixei um recado na caixa postal. Mas eu, e olha que eu quase sou uma pessoa boa, não esperaria ninguém por mais de oito horas. Estou me preparando para dormir em algum banheiro do aeroporto. E ainda preciso comprar um despertador!

Já que eu precisarei esperar a vida inteira e mais quinze dias até o meu próximo vôo, por que não passear, não é? Estava louco para encostar na neve (pobre!) e fui hipnotizado por uma limusine do lado de fora do aeroporto. Larguei tudo e saí correndo em direção à porta de vidro. Foi cinematográfico: fui correndo, a porta se abriu, pisei na calçada, respirei fundo e abri os braços. E congelei! Gente, mas é frio aqui, heim? CUSTEI a andar de volta até a porta. Acho até que riram de mim.

Para terminar esses primeiros grandes acontecimentos, passei por dezenas de restaurantes e fui comer no McDonald’s. Ia até tirar uma foto e escrever the first, mas estou abatido demais, ninguém precisa me ver assim. Quanto ao Big Mac, eu já sei porque as pessoas aqui são gordas. Custa U$5,30 e ainda vem com batata e refri. Eu poderia viver (e acho que viverei) de Big Mac. E o daqui não é muito diferente do daí não. Talvez um pouco maior e com mais picles, mas só isso. E, agora, estou na praça de alimentação constatando que essa história de que wi-fi é água nos states não passa de lenda urbana. Maior luta roubar uma conexão. Povo egoísta, tudo com senha...

Nem posso demorar porque não tenho coragem de ligar o notebook na tomada (sim, tem tomadas disponíveis aqui), porque não conheço a voltagem. Vou ali passear, porque paguei meu Big Mac com uma nota de U$20,00 e ganhei uma de 10, 4 de 1 e um tanto de moedinhas que eu ainda preciso descobrir quanto valem.

Torçam para eu não quebrar nenhuma perna. Porque, olha, é só o que falta...

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