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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

It's a party in the USA.2

O fato de eu estar a quilômetros de distância é prerrogativa suficiente para escrever aqui todos os dias e ter crises de solidão e choradeira, correto? Então ok. Já estou instalado na minha cama, dentro do meu quarto carpetado de frente pro lago Tahoe. Mas não foi tão fácil assim, é claro. E, se você lê esse blog, deve gostar de pimenta nos meus olhos. Vamos lá então.

Depois que deixei a praça de alimentação ontem, sem conseguir usar o wi-fi, minha sinusite atacou bem mais. Meus olhos estavam muito vermelhos e meu rosto inchado. A moça do balcão de informações queria me internar e só não conseguiu porque o atendimento médico custava 100 dólares, que eu, lógico, me recusei a pagar. Todas as paredes do aeroporto traziam cartazes e instruções acerca da gripe suína, e eu, com ESSA CARA DE LATINO derretendo em catarro entre as pessoas. Descobri o que é a XENOFOBIA que estudamos na escola.

Tomei meu primeiro Starbuck (it’s Britney bitch?), gastei dois eucaliptos assoando o nariz e estava quase dormindo no banco do aeroporto, mas com medo de perder o vôo mais uma vez. E, mais uma vez, o que aconteceu? Não! Dessa vez, foi quase. Cheguei com mais de uma hora de antecedência ao portão descrito na passagem e estava até sendo paquerado por uma hispânica piriguetona, que não resistiu ao tanto que meu nariz escorria e parou de me encarar. Quando foi chegando a hora do vôo, estranhei a ausência de fila. Esperei a mulher chamar. Não chamou. Corri pro balcão. Tinham mudado o portão do vôo. Agora, ele sairia de algum lugar a cerca de um quilometro dali, naquele aeroporto imenso e mal sinalizado. CORRI. Sofri, praguejei e fiz o diabo a quatro, mas, se um único verbo define meu comportamento, foi CORRER. Não sei de onde tirei tanta força. Odeio Chicago e preciso que não me deixem esquecer isso. Nunca mais quero voltar, obrigado.

De Chicago a Reno, fui sentado ao lado de um velho ouvindo música. Era tão gordo, mas tão gordo, que me privou o direito constitucional de ir e vir ao banheiro, e eu precisei estocar papel na mochila. Ele ouvia música em um fone de ouvido do tamanho de uma bola de futebol, desses de cantores em estúdio, e balançava o corpo freneticamente. Virei-me completamente para o outro lado, para não rir alto, mas não adiantou. Ri muito e ele nem ouviu. Era um banco de três lugares e, portanto, havia um vago entre nós. De repente, ele pôs o fone no banco e dormiu. O fone quase ocupou mesmo o banco inteiro, mas, opa!, se ele pode, posso também, correto? Pus os pés no banco do meio e dormi todo contorcido. Não vi o exato momento em que ele despertou, mas não deve ter gostado muito do que viu não. Maior cara de censura. Dessa vez, a comida do avião precisava ser comprada. Tomei um café e não paguei. Na verdade, estou ficando craque em comer e não pagar. As pessoas oferecem tudo com tanta simpatia que eu sempre acho que é de graça. Como minhas roupas já estavam em Reno, eu precisei “me virar” pra não morrer de frio em Chicago (e no vôo). Peguei um dos cobertores roubados (bendita hora em que roubei!) e improvisei um cachecol. Ficou frio demais, e estiquei o pano, cobrindo orelha e nariz também. Depois, cabeça, ombros. Por fim, estava eu de burca sendo apontado por todos. Milagre da customização aquele um metro quadrado de camurça me cobrir inteiro. Tirei até fotos.

Em Los Angeles, estava quentinho. Não senti calor, é claro, mas guardei meu cobertor multiuso e passeei horrores pelo aeroporto. Comprei protetor pros lábios e brinquei no orelhão como se fosse um cassino (pondo moedinhas e perdendo todas por não saber usar). Descobri onde era meu portão de embarque e fiquei tranqüilo. Fui passear mais e deixei pra voltar só em cima da hora. Voltei. E o portão não era lá! Meu Deus, o que há de errado comigo? Do falso portão (falso porque, eu só descobri depois, não dava em lugar algum, só na “rua”), peguei um ônibus interno que me levaria a outro falso portão, onde pegaria outro ônibus que me levaria ao portão certo e, então, o avião. Só que ele sairia às 21:15 e eram 21:01. Falei tanto na cabeça da mexicana do segundo portão que ela INVENTOU um ônibus pra me levar a tempo. Chama tratamento personalizado (só comigo), um ônibus inteiro, desviando-se da sua reta só pra me levar ao meu destino. Cheguei ao portão faltando meio minuto. Ninguém. Perdi? Não, eu repito. Só mudou o portão outra vez.

Confesso que algumas vezes eu já pensei em voltar pra casa e entrar para a historia como o intercambio mais rápido de todos os tempos, apenas 24 horas. E, sem dúvida, esse foi um dos principais momentos em que isso passou pela minha cabeça. Com destaque também para a crise de sinusite e a primeira vez em que eu peguei na neve (leia-se “enfiei a mão com força num monte de neve e quase morri”).

Dessa vez, pelo menos, mudou pro portão ao lado, e eu consegui pegar meu vôo. Teria sido tranqüilo se o avião não fosse pequeno e tivesse hélices. Repito: HÉLICES, ali na asa, onde “costumam” ficar as “turbinas”. Então. Ele não tinha turbinas, mas hélices. Minha poltrona era a 3ª, ou seja, a terceira janela. Seria um dos primeiros a ver o acidente (inevitável por se tratar de um avião com hélices) se não tivesse desmaiado de sono. Só tive tempo de constatar que o co-piloto era uma mulher, e loira ainda. Entreguei a alma ao senhor, pedi perdão pelos pecados e fechei os olhos pra não ver o fim.

Em Reno, encontrei minha bagagem naquelas condições já mencionadas. E tinha um velhinho, de nome Brant, com uma plaquinha escrito CAIO PEDRA. Quase chorei. Tentei até abraçá-lo (emoção!), mas ele não entendeu. Tinha um bigodão e cheirava a cigarro. Bem poderia ser figurante num filme de ursos assassinos. Não entendia uma palavra do que ele dizia, mas soube que ele é uma espécie de “taxista”, que busca gente no aeroporto em um furgão. Voltamos ele, eu, Chelsie e uma senhora lá. Chelsie era uma graça, uma menininha linda, loirinha e muito simpática, que aparentava uns 15 anos. Na verdade, tem 25, é formada e professora de música. Não acreditei também. Ficamos amigos e ela, sensibilizada com a minha cara de terror e frio, até me deu seu telefone. A velhinha morava no México, mas não falava Espanhol. Comecei a acompanhar a conversa delas, mas dormi. A velhinha ficou num motel. Chelsie na casa de uns amigos e eu no Resort. O Resort é mesmo tudo o que eu imaginava e mais um pouco. Muito grande, muito bonito, um absurdo! Fui atendido no meio da madrugada por um careca de olhos muito verdes (filme de terror demais!), que me deu uma folha (que eu assinei sem ler, pra não desviar os olhos dele e estar atento a qualquer movimento estranho), dois cartões e um mapa, e me mandou procurá-lo às 10 da manhã. Na verdade, ele estava me dando um quarto! Fiquei no 943. Meu Deus, que sucesso. Duas camas de casal enormes, um banheiro com banheira e a vista pra uma montanha coberta de neve. Quase não dormi. Fiquei tentando usar o wi-fi (enfim um!) com o pouco de bateria que me restava e tomando banho de banheira. Precisei passar minhas roupas de hoje com o ferro quente também, para ver se secavam. Não comi nada. Não sei o que assinei e não sabia se precisaria pagar pela noite no quarto (o que seria uma considerável fortuna), não quis acumular dívidas. Meu plano era escrever aqui deitadinho na minha cama e, depois, ir ao escritório central do condomínio (vou chegar à parte de explicar que moro em um condomínio) para usar o wi-fi, mas não sei usar o aquecedor e ainda pisei num floco de neve (que estava no meu tênis) e estou a beira da morte. Fugirei enquanto há tempo.

Ok. Estou quentinho e protegido no escritório central, mas preciso contar que, no caminho, enquanto eu batia queixo e me perguntava mais uma vez o que eu estou fazendo aqui, caíram duas pedras de gelo na minha cabeça. Nada que mude a minha vida, é claro. Mas é sempre uma experiência emocionante ver GELO caindo do céu.

Enfim, voltando á minha noite no resort, eu não sei exatamente se é uma cortesia dar um dia de príncipe a todo terceiro-mundista que passa o dia perdido em aeroportos e chega de madrugada, ou se isso me custará muito caro no futuro. Só sei que, mais uma vez, fui embora sem pagar nada.

No horário marcado, compareci ao Recursos Humanos. Fui recebido pela Diane, uma perfeita gorda simpática de filme, cheia de óculos diferentes, que ela troca e esquece em todos os lugares por onde passa. Assinei um tanto de coisas sem ler, não entendi muita coisa (a única que entendi perfeitamente foi a orientação para não me atrasar nunca, o que até parece piada por eu ser a pessoa mais atrasada do mundo). Conheci a cozinha dos funcionários, onde tem muita comida, café, chocolate (o melhor chocolate do mundo) e refrigerante de graça. Só algumas coisas são vendidas, mas custam dois dólares. Excelentes condições de trabalho, eu diria. Todo mundo do resort é loiro, gordo ou tem cara de argentino. E há os que acumulam mais de uma dessas características.

Diane me levou ao supermercado e ficamos perdidos juntos procurando minha casa. Comprei 36 latinhas de Coca Cola, só para pagar por apenas 24 (brasileiro não pode ver promoção), um monte de pizzas, comida congelada e um conversor pra poder usar o notebook e o barbeador elétrico na tomada. Já adoro Diane. Ela é paciente, atenciosa, me manda pôr cinto de segurança logo que eu abro a porta do carro (parece a minha mãe) e tem um jeitinho tao debochado de falar que eu rio de tudo, principalmente do que não entendo.

Minha casa é linda. Moro em uma casa para 10 pessoas dentro de um condomínio lindo e todo coberto por neve. A casa é bem grande, são quatro quartos e eu já escolhi o meu. Não é o maior, nem o melhor, mas tem VARANDA. E eu sempre tive uma coisa com varanda. Desde criança. O primeiro tem duas beliches (e Deus me livre de dormir com três pessoas); o segundo tem duas camas de solteiro e vista pro lago; o meu, uma cama de casal, vista pro lago e uma VARANDA; e, o outro, o melhor de todos, é uma suíte chiquérrima com uma cama maravilhosa, mas sem vista pra lugar nenhum. Os três primeiros são no primeiro andar, e o ultimo no segundo, junto com a cozinha, a sala de estar (que tem LAREIRA) e uma outra varanda, essa coletiva. O correto seria pular na suíte, mas aposto que vai dar briga por ela, e não quero dormir ao lado da cozinha ou da sala de estar. Seria preciso pedir silêncio aos outros nove companheiros e eu não tenho muito tato nessas ocasiões. Peguei o da varanda logo. É a estratégia da paquera. Se um menino chama a menina mais bonita de uma rodinha de amigas para dançar, está sujeito a um sim ou um não, e, no caso do não, não poderá propor o mesmo a nenhuma das outras, que muito se ofenderiam com a nova proposta. Mas, se ele propõe isso a uma das de beleza intermediaria (não a mais feia, né, gente?!), ela provavelmente se surpreenderá com a proposta (e com o orgulho por ter sido “preferida” à mais bonita), e as chances de um sim serão consideravelmente maiores. Enquanto as pessoas se matarem pela suíte ou pelas camas de solteiro, eu terei minha varanda garantida, amém.

Os antigos moradores da casa deixaram comida, e eu comeria se tivesse coragem. E eels deviam ser brasileiros, pois encontrei um catchup de cabela pra baixo na geladeira. Já enchi o freezer de comida congelada, a propósito. Tenho, também, água, gatorade, biscoito recheado e Cup Noodles. Vou tirar fotos da casa assim que comprar pilhas para a câmera, vocês precisam ver que belezura. Preciso comprar um despertador também.

Tem TV, DVD, vídeo e uma coisa que parece um modem de TV a cabo. Ao todo, são quatro controles remotos e eu não sei usar nenhum. Tem uma “biblioteca” particular também, e um tanto de abajur.

A cidade é linda. Parece cenário de filme de natal, dá vontade de rolar na neve.

Tenho muitas coisas pra contar, muitos e-mails e scraps para responder, muitas fotos para bater e NINGUÉM com quem conversar, estou desesperado. O segundo menino chega amanhã, e eu espero que ele seja bem simpático. Preciso de amigos num momento de tantas DESCOBERTAS.

Nesse exato momento, eu esqueci tudo o que tinha para dizer. Mas já escrevi demais, não faz mal. Vou dar sinal de vida a todos pela internet, sair para comprar mais umas coisinhas e dormir cedo. Tenho que estar às 9 no resort para uma “palestra” de orientação e ainda preciso descobrir qual ônibus pegar. Ah! Tenho um cartão de funcionário do resort. TÃO LEGAL!

E preciso agradecer a todos os recadinhos amigos de boa viagem e boa sorte, e aos presentes que ganhei também!

Vou ali passar frio, beijos.

Um comentário:

  1. Amor,

    desculpa a falta de sensibilidade, li os dois posts às gargalhadas. minha irmã precisou vir ao meu quarto perguntar o q eu estava vendo d tão engraçado no computador. tive que mostrar a ela os seus textos e ela riu até mais do que eu deles, ainda perguntou: "gaby, o caio é de verdade? essas coisas acontecem mesmo com ele?" hahaha. mas, imagino o seu sufoco e percebi o quanto vc precisou ser forte e paciente p enfrentar essas coisas - mas vc conta tudo de um jeito tão engraçado que a impressão que fica é de que tudo não passou de uma aventura divertida.
    mas eu te conheço e sei que na prática não foi bem asssim. dizem que todo começo é difícil mesmo, depois tudo dá certo, tão certo que a pessoa nem tem vontade de voltar.
    Boa Sorte nessa sua nova experiência. Tem um tanto de gente torcendo por vc aqui. saiba que sozinho vc nunca vai ficar... seus amigos e familiares diariamente te mandam energias positivas p vc conseguir enfrentar tudo por ai.

    Te amo e estou torcendo p que tudo dê certo! =)

    não esqueça da foto para qnd precisar sorrir um pouco...

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