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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

No Subtitles

Quinta-feira, 10 de dezembro de 2010

Agora, vou começar a pôr datas nos meus relatos. Essa coisa de não ter internet me confunde, porque eu escrevo as coisas num dia para enviar no outro e tudo está sempre desatualizado. Na verdade, hoje eu descobri um lugar aqui do “bairro” que tem internet boa o tempo inteiro, a porta do escritório central. Geralmente, eu uso o wi-fi do escritório, mas ele fecha às 17h. Hoje, contudo, como eu não tinha terminado minhas coisas e ele já estava fechando, sentei na escada da entrada e continuei postando minhas fotos e enviando e-mails. Funciona que é uma beleza. Mas é NA NEVE. Exatamente NO MEIO DA NEVE, ou seja, não é uma opção tão boa assim. Ontem, eu escrevi um tanto de e-mails e um post ilustrado, além de escolher fotos pro Orkut e etc., mas só entrei na internet no fim da tarde (que já é noite aí – para quem não sabe, a diferença de fuso é de “menos seis horas”, o que significa que aqui é sempre seis horas mais cedo que aí). Já tinha outras fotos e outras novidades. Uma bosta não ter internet em casa. Pelo menos, descobri que terei no trabalho e só não poderei usar em público. Mas eu sou bem do tipo que se tranca no banheiro pra escrever no twitter...

Hoje foi meu primeiro dia no Resort. Como sabia que não poderia me atrasar (estava marcado às 9) e não tinha as informações mínimas (número do ônibus, horário, tempo necessário...), acordei às 5, tomei banho sem lavar cabeça (não tinha comprado shampoo ainda, cabelo tava até triste já), vesti todas as roupas possíveis e, antes das 6:30, estava no ponto de ônibus.

Na verdade, não sei se me atrasei, mas precisei esperar 54 minutos em pé e no frio. O tal ônibus das 6:30, de que só ouvi falar, não passou. Ou passou mais cedo. Ou passou em outra 6:30, diferente da minha... Fiquei em pé no ponto, num frio do inferno, vendo centenas de ônibus escolares passando e nada de um ônibus pra gente grande. Sabia que deveria ter feito intercâmbio pra estudar. De frio, no ponto de ônibus, pelo menos, eu não morreria.

Fui sentado entre OITO mexicanas fofoqueiras. Oito porque a disposição dos bancos aqui é diferente, e eu estava MESMO ENTRE oito mulheres. A propósito, o transporte público norte-americano como um todo é uma piada de muitíssimo mau gosto. Os ônibus são pequenos, passam só quando querem e não têm troco pra passagem. Ou você paga U$1,75 certinho, ou U$3,50 e ganha um “vale” pra voltar dentro de 24 horas, ou você paga a mais e fica sem troco. Isso porque você não entrega o dinheiro a ninguém, mas o enfia numa máquina, que imprime o tal vale. E não dá troco.

Quanto às mexicanas, se eu um dia criar coragem e sair dessa casa e do conforto do aquecedor, Lake Tahoe fará de mim um trilíngüe. Tem gente demais falando espanhol. Mexicanos por todos os lados. Você pergunta as horas em inglês, e eles respondem em espanhol. Eu já tinha um pouco de dificuldade em migrar de uma língua pra outra de repente (começar falando português e passar pro inglês de repente, e vice-versa). Agora, com escalas no espanhol, eu vivo me enrolando e ficando calado. Além disso, se um americano diz qualquer coisa e você não entende, ele dispara a falar espanhol com aquela cara de “tá entendendo agora, hispânico morto de fome?”. Eu sou brasileiro, vim de pertinho da Argentina, falo uma língua muito mais próxima do espanhol realmente, mas quero aprender inglês, caramba. Se quisesse falar espanhol, estaria na Venezuela. Deu pra entender?

Outro problema relativo à comunicação é que eu nunca sei responder determinadas coisas. Espirro, todos dizem algo próximo a “please you” e eu sorrio, com cara de quem “não vai dizer nada porque está se preparando pra espirrar de novo”. Ou, pior, alguém pisa no meu pé e diz “i’m sorry”, novamente eu sorrio e faço cara de “sobrevivi, relaxa”. Arrisquei um “you’re welcome” hoje cedo sem querer, mas esse é o equivalente ao nosso “de nada”. Agora vê que ridículo...

Meu primeiro dia foi só de palestras. Tão desesperador ver 30 pessoas conversando em uma língua estranha. Não entendi quase nada, mas quero acreditar que pesquei a essência. “Pesquei” mesmo, com rede e vara bem longa, porque ela passou longe de mim, eu acho. A área de Recursos Humanos daqui é um fenômeno, mas dinâmicas em grupo continuam sendo a coisa mais estúpida da face da terra. Falando em grupo, o povo é bem bonito. Só gente jovem vinda dos mais diversos estados dos EUA e de alguns países próximos (e distantes). Brasileiros, por enquanto, somos só três, mas, só pra minha casa, há mais oito a caminho. Descobri que trabalharei num dos maiores resorts do mundo. E isso nem me espantou tanto. Eles são bons mesmo, e o reconhecimento do trabalho é resultado direto de um empenho sobrenatural. Eles são uma máquina, só falam em números, em lucros, em dólares e em satisfazer os clientes. Até assistimos a um filminho (The Customer) e eu terei pesadelos, tenho certeza. A lógica é bem simples: o cliente paga caro porque tem expectativas, e as satisfazer é a nossa obrigação e o único meio de os fazer voltar e pagar ainda mais e mais dinheiro. Até aí, nada de mais. Sou velho amigo do capitalismo. Mas as coisas aqui não são normais não. Além das inúmeras exigências com a nossa aparência, recebemos algumas instruções que me assustaram um pouco:

Preciso estar sempre sorrindo. SEMPRE SORRINDO. Preciso sorrir até pra falar ao telefone, para que a minha voz seja “sorridente”.

Nunca posso negar nada a ninguém. É PROIBIDO (e isso foi enfatizado várias vezes) dizer NÂO ou NUNCA. Não podemos dizer “isso não é meu trabalho”, nem “procure alguém de tal departamento”. Não podemos sequer dizer “eu não sei”, não podemos não saber. E isso parece uma coisa lógica, mas não é. As funções aqui são muito bem divididas. Nem conheço o povo dos outros departamentos. Mas, se eu estiver lá no balcão de esquis e alguém me pedir uma bola de sorvete de creme com calda de chocolate, eu PRECISO PROVIDENCIAR. Não posso nem dizer, gentilmente, “dirija-se ao restaurante, por favor”. Não preciso virar uma bola de sorvete, mas preciso fazer com que ela apareça. O “como” fica a meu critério.

Tem pior. Cada um de nós ganhou um bloquinho pra um programa de “conhecer melhor os clientes”. Agora, eu preciso anotar e entregar QUALQUER INFORMAÇÃO que obtiver sobre QUALQUER CLIENTE. Tipo “o cachorrinho da menina do quarto 156 chama Totó”, “a moça do quarto 368 tem unha encravada e medo de altura”. Tudinho. E quem se destacar nessa tarefa (imagino que pela qualidade das informações) ganha folga paga, aumento, benefícios e “o melhor” ainda fica de funcionário do mês, com foto no quadro e tudo. “Espião do Mês” deveria se chamar. Que loucura, meu Deus. O VIP aqui é Vou Investigar Pessoas, só pode. Nessa hora, eu lamento por não ser camareiro. Ia sorrir satanicamente escrevendo “fulana está menstruada” ou “fulanos são gays”. Imagina “o casal do 270 teve uma noite selvagem, sugiro ovos para o café da manhã”.

Encontrei os outros brasileiros que já estão aqui, uma dupla, mas eles nem me deram papo. Vou continuar sozinho mesmo. Até esse segundo menino (que já deveria ter chegado) chegar. Acho que ele provavelmente também não será uma companhia tão significativa. Mas já será uma segunda voz dentro de casa, um jeito de eu ouvir menos passos e ver menos sombras. Ou não. Mas não agüento mais dormir de luz acesa. E tenho vergonha por ter medo de ficar sozinho na beira de um lago na neve (cenário perfeito prum filme de terror) no alto dos meus vinte anos. Além disso, poderá me ajudar na minha tara por limpeza. O ócio está me deixando um pouco neurótico. Desde que cheguei aqui, meu sonho é ferver todos os talheres e esterilizar o banheiro com álcool e água quente. Felizmente, minha preguiça e o frio são maiores que meus desejos insanos. Mas, se uma alma viva aceitar me ajudar, não vai ficar bactéria sobre bactéria nessa casa. Falando em bactérias, essa casa me angustia. É tudo MUITO LIMPINHO. Há toalhas de rosto espalhadas pelos cantos, os talheres estão geometricamente guardados nas gavetas, o chão e a parede são carpetados e o meu nariz (que identifica poeira há quilômetros) não reclamou até agora. Só pode haver algo de errado. Lá de onde eu venho, a gente está acostumado a desconfiar quando a esmola é muita. Não é possível tanta limpeza. Eu, pelo menos, não acredito. E vou esterilizar tudo assim que possível (por “possível”, entenda “assim que alguém puder me ajudar e eu não precisar lavar a casa inteira falando sozinho ou cantando Taylor Swift”).

Para amanhã, pelo menos, eu já decidi que, com ou sem o segundo menino, vou me dedicar às tarefas domésticas. Tenho que fazer um trabalho da Faculdade também, antes que Hermano e Carlinha percebam que ainda não fiz e queimem uma foto minha junto com as penas de uma galinha preta manca. Mas a banheira está cheia de cabelo, tem dois pratos, um tabuleiro, dois garfos, duas facas e um copo para serem lavados na pia, roupas por toda a casa (precisei estender as minhas roupas molhadas de neve pelos móveis da casa – já que não tem ninguém mesmo – para poderem secar) e muito lixo nas lixeiras. Está aí uma coisa difícil, que eu saberia que descobriria quando morasse sozinho. Duendes não existem. O duende do lixo, por exemplo, é uma ilusão. Você pode jogar tudo no lixo, mas, se não jogar também o lixo fora, ele acumulará para sempre. O mesmo se aplica ao duende do papel higiênico. Se você não repuser papel no banheiro quando acabar, ninguém o fará por você. O duende da roupa suja jogada aos pés da cama. Tem coisa que a gente precisa fazer, ou não serão feitas. A propósito, alguém sabia que precisamos COMPRAR papel higiênico no supermercado? Ai, que vergonha! O daqui vai acabar um dia e não quero ser eu o responsável pela reposição. Já comprei shampoo e condicionador hoje e achei complicado demais.

Falando em “complicado”, o resort não está precisando muito de mim por esses dias. Então, ficarei de folga a semana que vem quase toda. Nunca gostei mesmo de trabalhar, mas preciso de dinheiro, certo? O que vai ser de mim em casa só gastando? Além do que, o que eu farei em casa? Estou acabando de ler o segundo (dos dois) livro que trouxe. Estou adorando escrever dezenas de páginas no blog, mas, uma hora, ninguém mais vai agüentar, né?! Ninguém tem uma hora por dia só pra me ler não... Vou tentar me acostumar ao frio e passear pela cidade. Descobri um lugar LINDO hoje. Quero ir até lá amanhã.

Ainda no Brasil, prometi alugar uma bicicleta ou entrar numa academia aqui, para fazer algum exercício e não engordar tanto. Hoje, encontrei uma loja que aluga bicicletas e uma academia também. Mas, para que passasse logo a “vontade”, corri pro supermercado e comprei mais tortinhas pro café da manhã.

Falando em supermercado, nem essa distração eu terei mais. Na terça, vão me levar ao Wal Mart de uma cidade vizinha. O Wal Mart é “o shopping“ da região, o maior e melhor supermercado das redondezas. E me orientaram a não comprar nada aqui mais, porque vale mais a pena esperar para comprar lá. Ai, meu Deus. O que vai ser de mim esses dias?

p.s.: só porque eu preciso dividir isso com alguém: liguei a TV e era tudo em inglês. Até aí, tudo bem, estou nos Estados Unidos. Mas confesso que fiquei entre cinco e dez segundos calado, com a boca aberta, olhando fixamente para a tela esperando aparecerem as legendas. Mas elas não apareceram, e a minha ficha caiu. Boa noite.

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