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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Saturday

Domingo, 20 de dezembro de 2009 – 20:20

Então que sábado, finalmente, eu fiz dupla com um brasileiro no Ski Valley, o Lucas de que eu

gosto (porque são dois aqui, e eu só gosto de um – o outro acha que é meu chefe!). Eu tinha duzentas mil coisas legais pra contar, mas, como desmaiei e hoje já é domingo, provavelmente não vou me lembrar de todos os detalhes. Além de eu gostar do Lucas, é muito melhor fazer dupla com brasileiros. Eles me entendem, sabe? Não consigo me expressar completamente em inglês ainda. Há coisas que só fazem sentido em português mesmo e é ótimo poder reclamar e ter certeza de ser entendido.

Foi um dia bem puxado, o primeiro de uma semana comemorativa aqui no resort, uma LOUCURA. E o trabalho no Ski Valley aumentou vertiginosamente (eu já expliquei a diferença entre Ski Checking e Ski Valley? O primeiro é inside, tem banquinho, carpete, aquecedor e água, mas raramente rola alguma gorjeta. O trabalho básico é buscar os esquis das pessoas quando elas pedem, ou guardar no lugar correto quando elas devolvem. O segundo é outside, na neve. Na verdade, não é exatamente NA NEVE. É perto da neve, mas do lado de um quiosque que tem sempre música ao vivo – super divertido. É frio - por causa da neve -, excessivamente claro - por causa do sol - e, de repente, vira um breu escuro e muito frio - quando o sol se põe, pontualmente às quatro da tarde -. O trabalho é bem simples, a gente recolhe os esquis de quem está voltando das pistas, confere as etiquetas com os nomes, prende os poles com gominha e bota num carrinho. Quando o carrinho enche, a gente leva pra dentro da loja e o pessoal do Ski Checking descarrega. Só é estranho porque as pessoas chegam em grupos, geralmente em ônibus próprios do resort ou a pé mesmo, mas sempre aos bandos. Aí, a gente passa meia hora olhando pro nada e, de repente, surgem dezenas de pessoas e precisamos atender todas de uma vez. E precisamos conversar com elas e mostrar o máximo possível de simpatia para ganhar gorjetas, porque na neve, sim, rola gorjeta até não poder mais!).

Com todo esse movimento e tão pouco tempo (porque eles não gostam muito de esperar), testamos várias e não muito eficientes formas de guardar os esquis para acelerar o processo. O ideal seria fazer tudo de uma vez e já por os esquis no carrinhos, mas a parte da gominha demora um pouquinho. É legal contar que já me destaquei e sou O MELHOR das gominhas. Incrivelmente rápido, morro de orgulho! Começamos escorando no balcãozinho, eles começaram a cair toda hora (e os seus respectivos donos quase nos matavam – e com razão), passamos pra uma pedra, mas eles caíam também. Tentamos o próprio carrinho, mas o espaço era pequeno. Demorei, mas pensei, finalmente, no chão. Gente, O CHÃO. Como eu não pensei nisso antes, né?! O chão esteve ali durante todo o tempo e era mesmo a melhor opção. Agora, eu estrelo o chão com esquis e é até difícil me locomover de vez em quando. Nossa eficiência, ainda que tardia, rendeu algumas gorjetas e, já no fim do dia, dividimos os quase trinta dólares que recolhemos.

Seguindo com minhas manotas diárias, uma mulher me perguntou onde poderia pegar emprestado um brinquedinho pras crianças e eu a mandei entrar num ônibus e ir a outra vila quando a resposta era “desça as escadas e vire à direita”. Mas sinto que meu inglês está melhorando, já consigo entender muita coisa, e dou boas respostas também.

O que mais está pesando é não ter dia de semana mais. Trabalho de segunda a segunda, nunca sei quando é sábado ou domingo. E, em alguns desses dias, trabalho só quatro horas. O suficiente para quebrar completamente meu dia. Preferia trabalhar muito de segunda a sexta e ter pelo menos os finais de semana livres. E o trabalho no ski valley é bem pesado. Vale a pena pelas gorjetas e pela música (e pela “emoção” também, eu confesso), mas agachar e levantar toda hora ou correr de um lado pro outro calçando botas e carregando esquis destrói meu bom humor. Tudo em mim dói. Do calcanhar à nuca, sem perdoar nadinha. E a bota, além de pesada, é muito quente, deixa meu pé todo suado. Minhas meias ficam MOLHADAS e meu pé ENRUGADO de tanto SUOR. É nojento!

E, nessa correria toda, não tenho entrado na internet nem falado com ninguém direito no Brasil. Estou sempre com sono, durmo mais que o despertador e já não tenho a mesma (pouca) alegria de viver dos primeiros dias. Fomos a uma festa no fim da noite (só fui pra não ficar sozinho em casa) e agüentei menos de trinta minutos. Não abri a boca nem pra me apresentar. Só quero saber de dormir. Minha única diversão é abrir as páginas dos twitters que sigo (ou várias abas com vídeos do youtube) enquanto estou na internet para ler ou assistir em casa, jogado no sofá. Até escrever no blog está me cansando. Preguiça de formular frases inteiras, sabe?

Outra coisa importante: já comecei a conhecer os americanos que fazem por onde a fama de GROSSEIROS. Um funcionário do resort quase me bateu porque eu estava filando a internet dos clientes (e eu tinha ACABADO de começar, nem tinha aproveitado ainda) e uma mini anciã, gerente do supermercado, xingou toda a minha trupe porque estávamos chamando o Philippe (que estava demorando a vida inteira pra pagar não sei o quê) e ela achou que estávamos mexendo com um brasileiro que trabalha lá (até porque os brasileiros tomaram o supermercado daqui!). Hoje (domingo), ainda, a motorista do ônibus me mandou SENTAR IMEDIATAMENTE num tom não muito amistoso agora na volta. E a minha chefe está deixando cada vez mais clara uma antipatia que considero absolutamente GRATUITA. Eu sei que sou um pouco azedo e um pouco reclamão, mas tenho sido TÃO sorridente e simpático aqui que não é possível ela não gostar de mim – e desconfio de que ela não gosta!

Fui buscar o dinheiro pra pagar o aluguel e, quando olhei o saldo da minha conta, descobri que ainda era consideravelmente rico. O que não faz sentido algum se considerarmos o fato de que só gastei dinheiro até agora. Não aprendi a olhar extrato ainda, e não estou preocupado com isso não, confesso. Nunca controlei dinheiro mesmo. E o importante é que já paguei meu aluguel e posso olhar dignamente pras pessoas na rua outra vez.

Não sei se já contei, mas já tenho duas paixões absolutamente platônicas aqui. A primeira, e mais importante, só tem me feito sofrer. Porque oi, eu sou o Caio, o brasileiro mais burro que vocês já viram!. Deus está TENTANDO me ajudar, mas eu NÃO FAÇO POR ONDE. Ele junta a gente toda hora, faz a gente se esbarrar todos os dias, enche nossos encontros de SIMPATIA e SORRISOS, mas EU NÃO DOU UMA DENTRO. Parece que meu inglês foge e eu SÓ FALO BOBAGEM. Ontem, nos encontramos a noite, na maior escuridão aqui perto de casa e, além de eu nem ter reconhecido a princípio, quando perguntado se estava usando a internet para ler meus e-mails àquela hora da noite (pergunta acompanhada daquela cara de vou te fazer companhia), respondi Yes, i’m checking my email, but i’m cold, i’m going e FUI EMBORA. Como fala BALDE DE ÁGUA FRIA em inglês? Já conversei com Deus (em inglês e português) pedindo uma nova chance (ou várias novas chances, porque burrice é doença!) e espero fazer por onde da próxima vez.

Liguei pra minha mãe (e PRECISO contar que brigamos pelo TELEFONE a SETE fusos de distância!) e descobri que minha família está desmoronando. Gente com depressão, gente usando drogas, gente fazendo testamento... Natal vai BOMBAR. E SEM MIM!

Além disso, sinto que meus amigos estão precisando de mim nesse momento. Pelo menos alguns dos mais próximos eu sei que estão. E eu também preciso deles, é claro. Estaria muito melhor com a ajuda deles, tenho certeza. E acho que minha presença lhes daria um pouco mais de alegria, independente do tamanho dos problemas que sei que estão enfrentando. Mas, né?! Estou aqui, LONGE, sozinho e quase sem amigos. Adoro todo mundo da casa, me divirto muito com todos, mas ainda não são meus amigos – e alguns talvez nunca cheguem a ser. O que eu mais conhecia é quem menos conversa comigo, a propósito. Eu já sabia que a convivência torna qualquer pessoa menos interessante, mas acho que ele está descobrindo isso só agora.

Falando em pessoas interessantes, convivência e etcétera, estava pensando em escrever um parágrafo bem ambíguo sobre o quão parecidas são todas as encrencas em que me meto, mas acho melhor não. Quase ninguém vai entender. E meu horóscopo de hoje já explicou.

See you!

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