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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Ócio (des)construtivo

Olimpic Valley, Monday, January 11, 2010 – 3:28 p.m.

Esse é um post em tempo real. O primeiro de muitos, eu suponho, já que, com a baixa lotação do resort, passarei três tardes da semana trabalhando SOZINHO no ski checking (e mais uma no ski valley). Não posso reclamar, porque tem gente até perdendo o emprego. Mas, como é possível imaginar, não tenho nada para fazer!

Menos de 30% do resort está ocupado e não deve haver mais de cem esquis sendo usados neste momento. Como minhas mãos calejadas já são capazes de guardar esquis em segundos, todo o meu trabalho poderia ser perfeitamente executado em cerca de uma hora, se não viesse em porções tão HOMEOPÁTICAS. Dois esquis, meia hora de tédio, um snowboard, uma hora de tédio, um telefonema, sono eterno...

Estar sozinho tem a desvantagem de não ter ninguém com quem conversar, o que não chega a ser uma máxima, porque eu sou bem pop e recebo um tanto de visitas todos os dias. Os meus amigos, que precisam passar por aqui pra chegar à lanchonete, alguns hóspedes que adoram bater papo comigo, e, de uns tempos pra cá, os funcionários brasileiros daqui, ainda que por poucos e dispersos minutos.

Opa, chegou um carrinho pra descarregar. Just a minute!

3:50 p.m.

Só porque eu disse que seria rápido, demorei. Mas, dessa vez, não por causa do trabalho, mas da minha burrice mesmo. Separei um esqui e estavam todos procurando por ele – INCLUSIVE EU. Esqueci completamente que ele deveria estar no front desk às 4 em ponto. Minha chefe e dois belmants estavam aqui procurando, quando eu, de repente, encontrei o par inexplicavelmente perdido, no fundo da sala. E ainda fiz cara de aliviado, como se não tivesse sido eu quem o colocou ali. Ski Rental emburrece, não me canso de repetir.

Meu inglês, entretanto, está me surpreendendo today. Não dei nenhuma manota até agora, nem mesmo ao telefone – e olha que meu inglês é quase 80% leitura labial. Ainda me finjo de surdo sempre que necessário, mas isso é meu, não da língua. Faço também em português...

É meio estranho ver esse documento do Word com as palavras todas grifadas (porque está configurado para Inglês e eu não quero mudar nada para não ser descoberto), corrigindo as palavras de grafia parecida (eu escrevo documento e troca para document, por exemplo) e sem nenhum acento agudo, Ç ou crase. Feio a vida inteira. Pelo menos, como aqui não tem internet e eu não tenho coragem de enfiar o – lindo e verde – pen drive que comprei nessa CPU estranha, precisarei imprimir e REdigitar em casa – UM DIA, é claro!

Acabo de saber que o meu colega de serviço MAIS CHATO me fará companhia, CASO EU NECESSITE, das 6 às 6:30. Eu provavelmente não precisarei, mas ele provavelmente vai querer ganhar meia hora extra sentado ao meu lado, com cara de tacho, dividindo sua sabedoria suprema com meus torpes e despreparados ouvidozzzZZzZZZZ.

Eu sempre digo que acontece de tudo aqui e parece exagero. Há pouco, uma senhora pediu para eu enfiar a mão dentro das botas dela para checar se estavam ou não molhadas, e opinar se secarão ou não até amanhã.

Atendi, agora, enquanto escrevia essa última frase, uma família brasileira que sempre me causa transtornos. São dois filhos e um pai, eu acho (acho porque não sei se o pai é deles), que eu sempre atendo em inglês e eles dizem ei, Caio, somos nós, você não se lembra?, e eu, naturalmente, nunca me lembro mesmo. Os meninos são idênticos, e parecidos com todos os outros hóspedes (acabei de descobrir que o pai é pai mesmo, conversou horrores comigo em português aqui, perguntando qual é o melhor quarto – como se eu conhecesse os mais de quatrocentos quartos daqui).

Enquanto isso, minha chefe – a pessoa MAIS FELIZ do mundo – veio se despedir de mim cantando uma música com o meu nome, que incluía WANNA e BANANA, e eu agradeço a Deus por não ter entendido. A partir de agora, se não me engano, estou realmente SOZINHO no checking, enquanto o chatíssimo está nozinho no valley e outro menino sozinho na loja. Já liguei o rádio para povoar minha solidão e, agora, é só contar os 294 minutos que faltam para a minha partida.

A sorte é saber que eu jamais terei tempo para redigitar todas as páginas que poderei escrever durante os próximos dias...

UPDATE: o insuportável acaba de vir aqui DISTORCER tudo o que a minha chefe disse e avisar que ficará comigo das 6 às 7. Meu Deus, me mata, vai!

UPDATE 2: regurgitei bastante a notícia e essa será a hora mais sofrida de toda a semana dele, hora extra, para mim, rima com trabalho extra. Vai fazer toda a limpeza da sala e, amanhã, quando minha chefe perguntar se foi necessário que ele ficasse, farei questão de enfatizar que NÃO, mas que, ainda assim, ele QUIS FICAR para me FAZER COMPANHIA. Mais por merecimento dele que maldade minha, garanto.

04:21 p.m.

Acabo de descobrir que vai nevar na quarta. E, quinta, oi, é meu dia de folga! Esquiarei como se não houvesse amanhã.

4:27 p.m.

Conheci os três homens mais babacas do universo, veja que legal! Entregaram um esqui lá fora e não quiseram dizer o nome alegando que o esqui era único. Agora, vieram aqui dentro ELOGIAR o diabo do esqui e dizer os nomes, mas me proibiram de pregar qualquer etiqueta de identificação.

APODRECERÁ NOS ACHADOS E PERDIDOS, é só o que eu tenho a dizer.

4:47 p.m.

O rádio daqui é divertido. Não é uma rádio, parece uma seleção musical que alguma pessoa sem amor ao próximo faz, de muito em muito tempo, e repete INCESSANTEMENTE. Estou na terceira já, eu acho. Durante todo o mês de dezembro, tocaram apenas músicas de natal. Do natal até ontem, uma seleção com LET IT BE, DÍA ESPECIAL (da Shakira) e um clássico do country/brega local: MISSISSIPE GIRL. Hoje, está (quase) tudo diferente, não tocou nenhum hit emocionante – só uma música brasileira absolutamente desconhecida e a mais completa TRILHA SONORA DO SUICÍDIO. A mais animada, até agora, foi ALANIS. Calcula!

6:44 p.m.

Acabo de voltar do break, e preciso fingir fazer algo enquanto o insuportável aspira o carpete. Comida mexicana ainda vai me matar, escrevam o que estou dizendo.

Eu disse que minha melhor aquisição aqui foi a CALÇA DE PELÚCIA – e mantenho –, mas preciso dar crédito à segunda melhor: um RELÓGIO (lindo, que custou 12 dólares). Não resolveu meu problema de atrasos, mas é tão melhor atrasar tendo CONSCIÊNCIA disso... Quando comprar um ESPELHO, serei plenamente feliz, eu acho.

Faltam exatos 134 minutos para a minha liberdade. E, os próximos 14, eu ainda precisarei dividir com o insuportável e seu barulhento aspirador de pó. Kill me, God! Please!

7:22 p.m.

Uma dor de cabeça súbita me acomete. Socorro. Parece que meu cérebro vai explodir por trás dos olhos.

E um dilema: faço o inventário do jeito mais rápido e menos trabalhoso pra mim ou do mais vantajoso pro insuportável, que vai trabalhar de manhã amanhã?

7:38 p.m.

TÉDIO define uma pessoa que vai fazer o inventário do jeito mais complicado. Só.pra.demorar.

7:39 p.m.

Mas são TANTOS os esquis, que ainda preciso esperar 51 minutos para começar. Ou terminarei uma hora antes do horário...

8:01 p.m.

Tive um rompante e fiz o inventário dos snowboards de uma vez. Comecei faltando um minuto para as 8, e já acabei. Quer dizer...

8:04 p.m.

Acabaram de fechar a loja (fecha às 8) e serei a única alma viva trabalhando EM TODO O ANDAR até as 9, parece. O menino que veio fechar as portas falou algo que pode ter sido uma piadinha ou um desaforo em relação às minhas gorjetas (que já somam a inacreditável quantia de UM DÓLAR), porque eu não entendi muito bem, e se despediu dizendo HAVE A LOVELY NIGHT. Ok, claro. O que pode ser mais lovely para uma noite que ficar sozinho no ski checking? Não consigo pensar em nada. [/ironia

8:08 p.m.

A única vantagem da língua inglesa é que qualquer grunhido parece uma palavra (ou várias palavras parecem grunhidos) e eu já selecionei um longo repertório composto por três sons indecifráveis, que uso para responder a saudações e despedidas: iuiu, aun aun e aaain. Olhando assim, parece estúpido – e é mesmo –, mas, sorrindo, eu acho que convence. Fica até parecendo que eu falo TANTO que nem me preocupo em produzir todos os sons. Ou que eu sou mongol...

8:26 p.m.

DESESPERO. Acabei de limpar os armários vazios por dentro. Agora, pergunta se PRECISAVA?

8:30 p.m.

Let’s inventory.

8:52 p.m.

Tá. E, agora, eu faço o quê?

22:59 – em casa já

A melhor forma de conquistar ou ratificar minha completa ANTIPATIA é convocar a “maioria” para justificar algum ponto de vista estúpido ou contrário ao meu. Quem gosta de maioria é proletariado, gente! E, a cada dia, fica mais comprovado que minhas previsões não erram nunca! Não agüento mais exatamente as pessoas que eu disse que não agüentaria por muito tempo. Vontade de pôr fogo, boa noite.

00:21

Vou matar, vou matar, vou matar! Tem gente caçando briga onde não deve.

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