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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

VELHO STEVE

Olimpic Valley, Tuesday, January 25, 2010 – 7:57 a.m.

Só pra dizer que fiz a coisa mais ESTÚPIDA da semana ontem quando troquei meu horário de hoje com o Philippe. Ontem teve show do Snoop Dogg numa cidade aqui perto e Philippe foi com Rodrigo e Leo. E, como precisaria voltar cedo para trabalhar às sete, pediu que trocássemos (porque eu só entraria às 2).

Não me custava nada, é claro, e seria até bom para poder ligar pro Brasil, já que sempre trabalho no horário em que minha família está em casa. Mas, oh, ARREPENDIMENTO! Não pelo Philippe, lógico, trocaria de novo se preciso, mas pela sua dupla: o temível velho Steve.

(já são 8:52h e ainda não consegui COMEÇAR a história de Steve porque ele não me deixa RESPIRAR, muito menos SENTAR. E ainda fica bicando o papelzinho em que estou escrevendo.)

Velho Steve deve ter seiscentos anos, e levantou de alguma catacumba para atormentar nossas vidas no ski rental. O que um velho faz no meio de um tanto de garotos (o mais velho aqui, tirando Steve, tem 25 anos) é a pergunta que não quer calar. Ele diz ser muito amigo do nosso chefe e estar aqui para ajudar a organizar. Os meninos americanos dizem que ele não aposentou muito bem e faz uns biquinhos aqui sempre que possível, para ganhar mais algum. O que conta é que ele trabalha aqui há anos mesmo, parece. Outra coisa que ele diz (e que eu não sei se é verdade), é que mora aqui nas redondezas (onde só tem mansões). O que não faz sentido nenhum porque nenhum velho rico usa calça pega frango (acima do tornozelo, juro!) e acorda cedo para SUPOSTAMENTE carregar esquis. Supostamente porque vocês descobrirão em breve que ele não carrega nem sua própria fama.

Outro fato interessante é que ele diz ser engenheiro e, em suas próprias palavras, capaz de construir um computador, mas incapaz de usá-lo. Cheguei às 7:10 e ele estava sentado, desde as 6, tentando imprimir com a impressora SEM PAPEL. Chegou UMA hora mais cedo e não fez NADA, porque imprimir a tabela é a primeira coisa que precisamos fazer para começar o dia. Já estava meio nervoso e me pediu para consertar a impressora. PUS PAPEL e várias versões do arquivo começaram a sair, uma atrás da outra (ele tinha mandado imprimir várias vezes!). E o que ele fez? Perguntou, de forma deveras hostil, porque eu estava IMPRIMINDO TANTA COISA REPETIDA. Porque eu gosto, velho Steve! Vou picotar depois e fazer confete! Pode?

Nossa história é longa. Acho que já ate falei dele aqui. No nosso primeiro dia de trabalho juntos, ELE derrubou uma centena de esquis, disse OH MY GOD e sentou para refletir, me deixando consertar tudo SOZINHO. Não bastasse toda a sorte de infortúnios, ainda disse pro Philippe no dia seguinte: gosto muito de você, não gosto do outro J1 não, mas de você eu gosto! Steve não gosta de mim, vou morrer!

Para começar nosso terrível dia juntos, ele havia lido na tabela de horários que trabalharia com o Philippe e assim me chamou durante toda a manhã.

Steve, eu sou o Caio! Não sou o Philippe.

Mas eu deveria estar trabalhando com o Philippe.

Mas eu não sou o Philippe. Você esta trabalhando com o Caio!

Tudo bem, Philippe.

Foi terrível. O trânsito tinha embananado na noite anterior e trocentos mil hóspedes deixaram para ir embora nessa manhã. E parece que a diária aqui vence às 10, ou seja, até as 10 da manhã, o telefone não parou de tocar e eu tive que levar mais de cem esquis até o front desk, porque o povo queria ir embora. INFERNO.

O que mais me incomodava no Steve era o fato de ele querer me explicar todo o trabalho (estúpido) que eu já estou cansado de saber (agora me lembro que já escrevi sobre ele aqui sim). Ele não só explica tudo, tim tim por tim tim, como repete toda a explicação se eu faço qualquer pergunta simples ou discordo de algum ponto. Parece que não vai parar nunca! E ainda fica dizendo o que eu devo fazer quando ele não estiver mais aqui (porque ele acha que é meu chefe, né?! tem que me deixar todo tipo de orientação). Outra coisa que me incomodava era o fato de ele me dar ordens demais e repetir incessantemente tudo, até eu fazer. Eu posso estar super ocupado fazendo alguma outra coisa que tenho que PARAR e fazer o que ele está mandando ou ele vai repetir UMA CENTENA de vezes, até eu me descabelar. Trabalhar com ele é sinônimo de trabalhar MUITO, porque ele não faz NADA. N A D I N H A. Vem aqui só conversar com os hóspedes, eu acho, falar sobre a montanha, sugerir trajetos para os esquiadores (porque a montanha nem é dividida em pistas, né, imagina…) e contar casos de sua juventude na Idade Média. Ele é tão sem noção que falou de um restaurante com uma hóspede certa vez e, quando ela perguntou sobre o preço, respondeu que não sabia, porque fazia 15 anos desde a última vez em que lá esteve. QUINZE ANOS ponto final!

Aí, os hóspedes chegam, ele pergunta o nome, localiza na lista (que nem sabe imprimir), LÊ PARA MIM (porque eu não devo saber ler, né!?) a localização dos esquis e dispara a falar. Chega a formar fila, e eu fico louco tentando atender aos meus e aos dele (porque ele fica repetindo a localização até eu pegar). Eu estou atendendo dez pessoas ao mesmo tempo, carregando dez esquis, e ele fica resmungando B11, Philippe, B11. Quando eu não consigo mesmo, e ele precisa fazer alguma coisa, puxa um esqui no meio de vinte e derruba todos os outros 19 no chão. Cata? Claro que não! Diz oh my God, I hate it e segue em frente, porque o J1 imundo aqui resolve, né!? E eu não posso ouvir meu coração e deixar tudo no chão, porque é minha responsabilidade! Ele tem seiscentos anos, lembra? Se eu não tiver juízo, quem terá?

Falando assim, eu sei que ele já parece suficientemente insuportável, mas guardei para o fim a cereja do bolo. Steve tem algum problema respiratório e ARROTA o tempo inteiro. INTEIRO mesmo. Às vezes, eu acho que a respiração dele é arrotada. Inspira, expira, inspira, arrota. Arrotos barulhentos, ele dá só de vez em quando (tipo de 10 em 10 ou 15 em 15 minutos), mas sabe esses arrotos silenciosos sucedidos por um assopro? Um desses a cada duas respirações, EU JURO! E o pior é que ele assopra na minha cara. Já é nojento demais vê-lo arrotar, mas SENTIR O CHEIRO é CRUELDADE. Eu sempre sei o que ele comeu antes de trabalhar! Nesse dia, então, ele disse não ter tido tempo de comer e, portanto, estar se sentindo um pouco mal. Gente, vocês não têm idéia! Às vezes, parecia convulsão, chegava a me preocupar!

Antes do almoço, minha manhã teve cheiro do CAFÉ que ele tomou aqui. Depois do almoço, cheiro de taco de carne. Ele voltou do break, disse hoje é dia de taco na cafeteria, arrotou, assoprou e perguntei de carne?, e, chuta!, acertei. Ele até achou que eu tinha lido o cardápio. E, não, eu não tinha!

Uma hora, ele passou por trás de mim, arrotou numa orelha e assoprou na outra (não de propósito, é claro), mas TÃO SINCRONIZADO que eu corri para o meio dos esquis para disfarçar uma lágrima que não consegui conter. Passei o dia tendo ânsias e dor no estômago. Tanto que fiz a centena de check outs sozinho e feliz, mal conseguia andar, mas não queria ficar PERTO dele. Alguém ligava pedindo mais um esqui e ele dizia I have more skis for you. FOR YOU por quê?, eu me perguntava! Por que VOCÊ não pode fazer essa PORRA de check out, velho nojento?

Talvez a única vantagem de trabalhar com o Steve seja TER QUE ALMOÇAR EM HORÁRIO DIFERENTE DO DELE. Se ele arrota e escarra (esqueci de contar que ele escarra muito) assim TRABALHANDO, imagina comendo… Quanto a escarrar, acho que Steve tem um GATO preso na garganta, juro. Gato esse que, a todo momento, ameaça se libertar e fugir na nossa direção. Na frente dos hóspedes também, se não PRINCIPALMENTE. Alguns escarros são tão fundos (eu até me seguro na mesa, com medo de ser sugado), que ele precisa sair da sala. Não sei se vai ao banheiro ou se cospe no rink de patinação (que é bem embaixo da nossa varanda) – e eu sempre prefiro imaginar essa segunda hipótese. As pessoas aqui são muito liberais em relação a isso. Todo mundo assoa o nariz, arrota e peida em público NA MAIOR NATURALIDADE. Alguns dizem EXCUSE ME antes, outros só I’M SORRY depois. Tudo SUPER NATURAL, sério. Eu tento (e tenho) que me acostumar, porque trabalho quase que só com homens (que peidam o tempo inteiro) e tem uma caixa de lenço de papel do lado do meu copinho de gorjetas. Os hóspedes chegam, dizem o nome e, enquanto eu procuro na lista, fazem uma orquestra com suas laringes, faringes e traquéias. Eu acho isso legal (não, eu não me sinto bem, é claro), e sei que é melhor mesmo ser assim. Nós, brasileiros, temos muitos pudores com esse tipo de coisa e, muitas vezes, deixamos de atender necessidades fundamentais do nosso corpo simplesmente por estarmos em público. Todo mundo peida, arrota e assoa o nariz e, como tal, sabe que eu também. Mas eu evito fazê-lo em público na sutil tentativa de renegar essas minhas características inerentes e inegáveis ou de poupar as pessoas de coisas que elas também fazem. Mas não dá! É tudo uma questão de criação, de costume. Por mais que, em algum momento da vida, eu tenha imaginado um mundo melhor onde as pessoas não precisam ter vergonha de suas necessidades, ser criado TENDO vergonha e, de repente, cair no meio de pessoas que não têm é muito difícil. Eu sei que eles não fazem para me agredir, mas me agridem! Eu sinto vontade de rir, vergonha alheia, vontade de fugir, não sei… só sei que é estranho. E não deveria ser, ora bolas! Ou poderia não ser...

Estou pensando em voltar pro Brasil peidando e arrotando, só pra poder dizer desculpe, é que eu morei fora…, mas acho que não conseguiria. Ou me cagaria de rir, e a merda seria ainda maior.

Né?!

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