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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

In English

Olimpic Valley, Monday, February 22, 2010 – 11:52h

Trabalhei com o Velho Steve hoje de novo. Mais uma vez, Philippe sumiu no mundo e precisou trocar de horário comigo. Trabalhar de manhã é muito bom por conta das gorjetas, mas horrível para quem, como ele, tem certa dificuldade em ficar muito tempo dormindo num mesmo quarto.

Falando em gorjetas, tive um problema sério com o Velho Steve dia desses. Contei nossas gorjetas antes de ele dividir (porque é ele quem divide sempre) e constatei o óbvio: que, mesmo depois de todos os alertas – inclusive dos nossos chefes –, ele continua nos roubando. E, claro, pus a boca no trombone. A divisão de gorjetas, agora, é uma solenidade. Ainda que, quando só comigo, ele ainda tente fazer graça, mas acompanho de perto a contabilidade. Hoje, mesmo, se ele roubou, roubou bem pouco. Recebi dentro do que estimei e o pescoço dele continua no lugar graças a isso.

Tivemos mais um problema hoje. Ele vive dizendo que eu não falo inglês e que os outros meninos são muito melhores e etc etc etc. Eu sei – e sempre soube – que o meu nível de inglês era inferior ao de todos os outros garotos do Ski Rental (BASTANTE inferior, eu diria) e, por isso, preciso treinar e tentar absorver o máximo possível. Mas o fato de eu ter muito o que aprender não quer dizer que eu não saiba nada. O inglês necessário pro meu trabalho é bem básico, e, nisso, já não tenho nenhum problema. Não consigo, claro, é discutir a crise econômica ou o aquecimento global, por falta de vocabulário – e sou meio surdo também –, mas como disse a Fernanda (que é quem eu acho que mais domina a língua dentre os brasileiros), eu sempre consigo me fazer entender. Steve, entretanto, velho e surdo como só, diz que eu converso em português com ele!

Eu converso em português com meus amigos que me visitam e ao telefone, quando alguém liga pra cá pra falar comigo. Mas PARA QUÊ eu conversaria em português com O STEVE? Não entendia essa reclamação até hoje, quando ele enfim reclamou comigo. Steve acha que é PORTUGUÊS tudo o que a surdez o impede de ouvir. Daí que hoje:

- Bi fifteen.

- Ci?

- No, Steve. Bi fifteen.

- Di?

- No, Steve. Bi fifteen.

- Can you speak in English with me, Caio? I don’t understand portuguese. You need to speak English to work here.

E, me diz, EU TAVA FALANDO PORTUGUÊS? Mas, até eu explicar pro cavaleiro das trevas que nem tudo o que ele NÃO ESCUTA e português, já tinha me descontrolado e iniciado um pequeno barraco – que, graças a Deus, não foi adiante. Passado meu breve instante de fúria, talvez assustado com a minha reação, Velho Steve resolveu me testar, como que me dando numa nova chance de conquistar seu respeito. Pegou a tabela de preços dos lifts e tickets do Squaw Valley (que nem é onde eu trabalho) e a tomou de mim como tabuada!

- Day Pass?

- U$ 83,00.

- Half Day Pass?

- U$41,00?

- No! U$64,00. Cable Car?

- U$24,00.

- Night Skiing?

- U$22,00. [...]

E por aí foi. Passado o teste, começou a me dar ordem em cima de ordem, cada hora uma coisa mais escabrosa e dita ainda mais rapidamente. E eu fiz TUDINHO. Nao tenho certeza, é claro, se corretamente, mas ele não reclamou de nada. Errado demais eu não deveria estar, suponho. A terceira etapa do teste foi a mais difícil. Velho Steve perguntou o que eu estudo no Brasil, e aí já era. Falamos sobre violência, justiça, gangues, tráfico de drogas, crime organizado, promotoria e o caralho a quatro. Meu Deus! Gastei TODO o meu inglês e meus braços doeram de tanto gesticular. Sou campeão de mímica agora. Contei até casos! Achei que Velho Steve estava convencido já das minhas qualidades e do meu empenho em aprender um pouco mais, mas, não satisfeito, propôs ainda uma terceira entrevista inacabável, dessa vez sobre os hábitos alimentares dos brasileiros – que ele, uma pessoa que só faz ARROTAR, considera equivocadíssimos.

Tenho a falsa ilusão de que ele me respeita um pouco mais agora. Até trabalhou decentemente hoje, sem me enrolar, sem abusar (muito, porque um pouquinho ele sempre abusa). Nem sequer me empurrou... Isso é que é conquistar o respeito de alguém. Estou orgulhoso de mim!

Quanto aos arrotos, ele realmente PRECISA arrotar para viver, é algo na RESPIRAÇÃO dele, eu acho. Tenho certeza disso porque o vi comer umas fatias de bolo logo cedo e parecia uma espingarda enferrujada atirando a todo momento. Steve arrotou tanto, que o telefone daqui está cheirando a comida hoje. Quando a coisa ficava séria, pelo menos, ele saía de perto de mim, e isso já é muito mais do que ele está acostumado a fazer, já que ele gostava era de arrotar na minha cara. Digamos que nossa manhã juntos nem foi tão ruim! Agora, vou tentar chegar a tempo para cortar o cabelo. Opa, contei! Mas é melhor avisar de uma vez mesmo. Para bom entendedor, isso vai representar bastante:

Hoje, eu vou cortar meu cabelo!

Beijos.

p.s.: meu chefe ganhou SEIS CAIXAS de TOBLERONE que venceram em setembro e não serão mais comercializados e deixou todas em seu escritório, em cima de uma mesa a não muitos passos daqui. Eu sei que venceu e sei que é dele. Mas, se há algo que aprendi com a falta de atenção da minha mãe durante toda a minha vida, é que data de validade não passa de uma SUGESTÃO, ninguém morre disso. E, se há algo que aprendi a fazer nesse meu tempo como J1, foi ROUBAR COMIDA! Ah! E como foi...

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