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quinta-feira, 25 de março de 2010

Despedida

Olimpic Valley, Monday, March 15 – 12:39h

Acho que já faz algum tempinho que não escrevo algo significativo aqui, não é? Ando meio cansado, com preguiça de sentar na frente do computador e digitar reclamações (porque, como meu pai não se cansa de dizer, reclamar é o que eu mais faço, e melhor faço também!) e, mais que isso, de ter que lidar com a repercussão, ainda que pequena e concentrada, que todas essas reclamações geram. Mas hoje é meu último dia em Lake Tahoe e isso merece um post.

[Na verdade, nao é exatamente meu último dia, porque ainda vou esquiar no dia 24, quando voltar de San Diego, mas é meu último dia de trabalho, pelo menos]

Como não poderia deixar de ser, um desastre já aconteceu antes do meio-dia. Trabalhei com o Velho Steve (porque troquei com o Philippe) e, mais uma vez, ele me roubou na hora de dividir as gorjetas. Só que, dessa vez, EU ganhei uma nota de DEZ e ela simplesmente DESAPARECEU na hora da divisão. Primeiro, ele disse que alguém tinha pego como troco quando eu perguntei. Mas não havia nenhuma nota de vinte e, portanto, nenhum motivo para a nota de dez ter sido levada por um hóspede. A menos que ele tenha dado 5 e pego 10 de troco, o que eu acho que não tem muito cabimento. Depois, ele disse que ela nunca existiu. Mas como, Steve, se eu a toquei?. Daí, ele partiu pro você esta enganado, você não viu nada e, de repente, se descontrolou e foi embora. Assim mesmo. Levantou e saiu. Largou um check-out no meio, que eu tive que terminar, e me deixou trabalhando sozinho num dia de quase 100 check-outs. Disse que precisava ir pra casa e saiu pela porta, com a cara mais lavada do mundo. Puto da vida, contei tudo pra minha chefe. Sei que é meu ultimo dia, sei que não adianta chorar o leite derramado e etc. etc. etc., mas isso tem que parar. Alguém tem que SOSSEGAR esse velho sem vergonha. E o Erick gosta dele, a única pessoa capaz de pôr um freio nessa palhaçada é a Joanna mesmo! E ela com certeza o fará. Nisso, eu confio cegamente.

Pelo menos, a cleptomania dele é divertida. Hoje, ele pôs suas iniciais numa bota esquecida (ja contei como funciona o Achados e Perdidos daqui, né?! Se eu puser meu nome e o dono não aparecer em um mês, a coisa fica pra mim. A ordem, então, e PÔR NOMES EM TUDO O QUE ENCONTRAR, e Steve é imbativelmente o melhor nisso) num locker aqui. Mas não uma bota qualquer. Marrom, feminina, de cano alto e PELÚCIA na pontinha. NUN-CA-ME-EN-GA-NOU-!

Voltando à troca de horarios com o Philippe hoje, fiz isso para que ele pudesse esquiar (já que ele realmente queria, eu realmente preciso ir ao banco e isso realmente não me custava nada). Só que ele NÃO FOI ESQUIAR, porque NÃO ACORDOU de TÃO BÊBADO. Eu poderia fica bravo, claro, e ninguém seria capaz de tirar minha razão. Mas não. O que foi que eu fiz? Aceitei ficar mais duas horas DO HORÁRIO DELE, pra ele não ter que entrar às 2. Então, eu, J1 imundo e roubado, que entrei às 7 tendo dormido das 3 às 5 apenas, sairei às 16. Estranho que eu não costumo ser bozinho assim. E o Philippe é realmente um anjo da guarda pra mim, mas eu já me achava suficientemente bonzinho antes de hoje. Não precisava, sabe? Fiz porque meu coração é bom, eu acho. Ou finge ser. E finge bem, porque já estou quase convencido!

Quando sair daqui, correrei para o banco para ter NOÇÃO da minha POBREZA, passarei no lago, porque Roberta levou embora as pedras que peguei pro Rômulo, e preciso ir ao escritório do condomínio, pra ver se minhas compras já chegaram! Depois, ainda preciso dormir um pouquinho e fazer minhas malas. Sabe como é ÚLTIMO DIA, né!?

O trabalho hoje não está nada divertido. Quase todos os brasileiros já foram embora. E eu sinto muita falta de algum deles. Em casa, por incrível que pareça, acho que quem faz mais falta é o Susse. Ele ocupava muito espaço, sabe? Deixou a casa meio vazia, eu acho. No trabalho, o Perereca. Com toda a sua implicância, era ele quem me divertia todas as tardes (aqui dentro ou lá fora). Daí que, ontem, sem o Perereca pra brigar, eu inventei de bater papo com uma família brasileira e estou ASSUSTADO. Um casal brasileiro com duas filhas, tendo uma nascido no Brasil e vindo pra cá aos 2 anos e meio, e a outra nascido aqui já. Já fiquei meio assim quando eles me contaram que as meninas dizem que vão ligar pro 911 (Polícia) toda vez que eles ameaçam dar umas palmadas – porque é isso que elas aprendem nas escolas aqui: pai bateu? 911. Mas o que mais me chocou é o fato de que as meninas não falam português, mas ENTENDEM. Elas não gostam de português, portanto não falam. Mas seus pais só se comunicam com elas nessa língua. Aí, eles falam em português, e elas respondem em inglês. O TEMPO INTEIRO. E frases grandes, sabe?

- Para de me jogar bolinha de neve ou eu vou acertar uma bem na sua orelha!

- Oh, no! Just one more!

Ou:

- Conversa com os meninos em português, vai? Mostra que você sabe!

- No, sorry. I don’t know what I want to say!

Alguém entende? E eles tem um pacto, os adutlos, de só conversar em PORTUGUÊS em casa. E as meninas devem ter um também, eu suponho, de fingir que isso não está acontecendo. E, já que é tão importante para eles manter o português aceso, preciso dizer que a mãe contou sobre os MINDINGOS da Flórida e, num desabafo sincero, reclamou desse distanciamento comunicativo com as filhas:

- E é ainda pior ter que falar inglês com os outros na frente da mais velha, porque ela estuda isso na escola, né!? E me CORREGE às vezes.

Acho que eu também falaria apenas em inglês com uma mãe assim. Ou NÃO FALARIA. Não sei.

Completando os acontecimentos estranhos de ontem, meu Supervisor predileto, aquele que gosta de brincar de me bater, foi simular um atropelamento com um carrinho de esqui pra me assustar, perdeu o controle e me acertou bem entre os olhos. Tenho dois cortes no meio da cara agora. Um na testa, e outro no nariz. E o melhor: o que me acertou era redondo e, pelo formato circular dos cortes, dá até pra calcular o raio. Só precisa de um compasso.

Não bastasse a dor horrível, sangrou muito, ficou bastante inchado e ele SE DESESPEROU. Eu precisei me ESCONDER no banheiro com a desculpa de LAVAR O ROSTO pra ele poder me dar SOSSEGO e PARAR DE PEDIR DESCULPAS. Desculpei logo e só pedi que ele SUMISSE DO MEU CAMINHO, mas, claro, não funcionou. Não pretendia contar a ninguém, porque vi que não foi intencional e ele é meu supervisor. Contar ao mundo que ele ME BATE não seria muito legal (pra ele) – e eu gosto dele, não sei por quê. Mas, no desespero, ele contou pra todo mundo. TODO MUNDO. As pessoas estavam ME PROCURANDO pra ver minhas cicatrizes. Meio chato, sabe? Só o que salvou o dia aqui foi minha chefe. Eu pedi permissão pra comprar uma coisa deliciosa que vende aqui num restaurante onde eu não posso ir (só porque queria experimentar), e ela não só DEIXOU, como COMPROU e FEZ pra mim! É marshmallow derretido na fogueira com chocolate e biscoito, chama SMORES. Bom a vida inteira.


Agora, todo mundo conversa comigo olhando pro meio da minha testa, como se eu fosse um unicórnio. Sem contar o TANTO de gente que já veio me pedir DESCULPAS POR ELE e dizer o quanto ele está sentindo pelo que fez. Sentindo estou eu, que tenho um arrombo dois arrombos na cara. Quero mais é que ele se dane! Vou ter que BATER nele também, será? Que, aí, ficamos quites, e ele não entra em depressão!

[Isso porque, mais cedo, com o mesmo espírito de porco que lhe é peculiar, ele fez um corte no meu dedo com um SERROTE enquanto simulava cortar meus braços.]

Outra coisa engraçadíssima (que não terá a menor graça contada assim) que aconteceu esses dias foi uma senhora tentando ensinar a outra a falar o meu nome. Duas velhinhas vieram conversar comigo e uma perguntou, timidamente, como se pronuncia CAIO. Antes que eu pudesse responder, entretanto, a outra, aparentando CONSTRANGIMENTO pela pergunta da amiga, fez a maior cara de impaciência que pôde, deu-lhe uma cotovelada e disse TCHEU, como quem corrige uma criança burra já pela terceira ou quarta vez. Difícil ate discordar de tanta certeza, né!? Mais uma: esse mesmo supervisor querido, num arrombo de cultura, me perguntou se as pessoas USAM CARROS NO BRASIL. Mais que prontamente, respondi que NÃO. Até mesmo porque temos tantas árvores, né!? É sempre mais fácil andar saltando de uma pra outra!

Mudando completamente de assunto, estou bastante satisfeito com o meu inglês. Mesmo. E olha que eu raramente fico feliz comigo. Passei muito aperto quando cheguei e ainda passo muitos outros, mas já consigo conversar com as pessoas e manter um diálogo produtivo. Não escuto e não entendo muita coisa, mas acontece no português também. Meu principal objetivo aqui era desenvolver o inglês e acho que consegui. Ainda preciso estudar e treinar muito, mas já evoluí muito, graças a Deus. Agora, principalmente, porque eu estou indo embora, tudo parece mais fácil. Às vezes, sinto como se eu pudesse ficar mais alguns anos aqui, conversando em inglês como se fosse minha língua – e, não, eu não posso. Um hospede hoje disse que meu inglês é WONDERFUL, e ainda perguntou se estudei isso no Brasil ou aqui. até perguntei se ele estava brincando e ele disse que não. Mas o momento mais gratificante da viagem, pra mim, aconteceu ontem a noite, durante a festa, quando o Matt, bêbado, me elogiou. Matt é um americano super legal que trabalhou comigo durante todo esse tempo e com quem eu infelizmente não desenvolvi uma amizade maior por puro medo, porque ele fala rápido e eu não entendia! Somos amigos hoje, mas muito pouco para três meses de convívio diário. Daí que ele estava dizendo que se impressionou com a EVOLUÇÃO do meu inglês: Porque eu me lembro do primeiro dia do Caio. Eu fui falar com ele e ele não respondia. Nem o nome ele quis dizer. E eu pensei ‘ai, meu deus, ele não fala nada de inglês’. E hoje ele bate o maior papo comigo. Eu tenho um amigo que diz que você é FLUENTE numa língua quando consegue FAZER BRINCADEIRAS nela, e o Caio DEFINITIVAMENTE pode brincar!. Quase chorei. Sério. Porque é bem verdade. Eu sentava longe dele no ônibus pra não ter que conversar. E, hoje em dia, conto da vida, da morte e da Severina se preciso for. Orgulho define!


E, já que eu toquei no assunto da festa, MEU DEUS O QUE FOI AQUILO? Uma loucura, uma bebedeira, uma barulheira e, de repente, um menino louco correndo com um extintor de incêndio na mão. Resumindo!

Descobri que sou mesmo uma pessoa RANZINZA, que não gosta de gente, nem de bagunça! Que festas me incomodam, pessoas felizes me incomodam e, principalmente, EU me incomodo. Me sinto mal, sabe? Desconfortável comigo, não sei explicar. Mas, pensando nisso, me esforcei pra sorrir e socializar e, de repente, estava brincando de FLIP CUP, bebendo cerveja e tudo mais.


Preguiça das pessoas passou RAPIDINHO, porque eu bem me vi novamente capaz de paquerar e tudo mais. No melhor estilo PIRANHA DO BANHEIRO. Porque se é isso o que nos mantém vivos, tava mesmo na hora de acordar desse coma, né?!

Outro momento muito importante e INESQUECÍVEL dessa seqüência de celebrações pela nossa despedida, foi o pulo no lago. LINDO! Lindo e frio, eu confesso. O lago, como eu já disse, é enorme e muito gelado, mas não congela nunca. Todo mundo vivia brincando que ia pular lá e etc., mas, até então, ninguém tinha cumprido a promessa. Roberta e eu chegamos a pisar na água, mas de botas e só na beiradinha. Parece que um outro grupo aqui de casa foi pular também uma vez, mas desistiu no meio do caminho. Mas eu passei esses três meses pensando nisso. Logo que cheguei a Tahoe, ainda sozinho em casa, fui conhecer o píer e fiquei encantado. Minhas primeiras fotos aqui são lá, no lago.


E, no fundinho do meu coração, existia uma vontadezinha, ainda que pequena, de pular. Eu só não conseguia expressar isso em palavras, porque contraria toda a imagem que eu insisto em manter. Até essa semana, quando, numa noite qualquer, chamei todos os últimos sobreviventes e fiz a proposta indecente, imediatamente aceita pelo Philippe e excomungada pelo Fernando (que, em menos de 15 minutos de reflexão, já era o mais animado dos três). Leozinho também quis participar. Ana se encarregaria de bater as fotos. Escolhemos o horário das seis da tarde, que é quando o lago está mais “quentinho” (por ter absorvido os raios solares durante todo o dia), preparamos toalhas, eu rezei e TCHIBUM.


A água é fria mesmo, gente. NOSSA! Mas é suportável. E eu acho até que agüentaria mais do que os 30 segundos que passei submerso. O problema é que entramos com medo, gritando apavorados e, no calor do momento, quisemos sair correndo. Philippe até pulou uma segunda vez. Eu não, me dei satisfeito com um salto apenas. Mas não me arrependo. Jamais. Devia era ter feito isso antes!

Vou sentir saudades desse lugar!

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