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terça-feira, 2 de março de 2010

Termômetro

Tahoe City, segunda-feira, 1º de março, 22:15h

Existem dois tipos de pessoas no mundo: as que te julgam em voz alta e as que o fazem em silêncio. O tipo que não julga ainda não é fabricado, por mais que, em teoria, o modelo já esteja pronto e revisado. Partindo desse pressuposto, não vai ser frustrante nem ofensivo a ninguém discutir um dos meus critérios, espero. Dentre os vários de que me armo num julgamento, um dos principais é a TEMPERATURA. As pessoas têm TEMPERATURAS pra mim... das frias às quentes, fazendo escalas, é claro.

Admiro os frios. No fundo, acho que esse sempre foi o meu sonho. Ser frio, indiferente, inatingível. Olhar pra vida, principalmente a alheia, sorrir com o cantinho da boca, ajeitar o cabelo e seguir adiante. Quem pode ser mais feliz que um frio? Que não se preocupa, não se importa, não se incomoda!

Os quentes já se envolvem mais. São aqueles que se sentem ofendidos, que se agridem e aborrecem. Exigem comportamentos ou posturas no convívio social. Querem respeito, organização, silêncio, o que seja. Dão mais trabalho, mas respondem melhor a qualquer tipo de estímulo também. Na verdade, são pessoas mais interativas (geralmente até demais). Suas observações, opiniões e idéias, entretanto, não são sempre compartilhadas. Uma pessoa quente não é aquela que grita por tudo, mas a que se posiciona. Ainda que em silêncio.

Essas um grau a cima eu diria que FERVEM. São as que brigam, gritam, e expõem seus pratos limpos a quem quiser ver e ouvir. Ainda que de forma pacífica – porque nem todo fervente é um serial killer – não deixam de se fazer presentes em discussões e eventos. Gente que tem sempre algo a dizer.

É difícil esperar alguma coisa de pessoas frias, pois elas geralmente não reagem, não participam. Das quentes, é arriscado, já que nunca sabemos o que pode vir. E, das ferventes, sabemos, e é sempre melhor evitar. Mas e as mornas?

As mornas são aquelas que quase sentem. Começam a se incomodar, às vezes até se expressam, ainda que apenas com o corpo ou o rosto. Enchem os pulmões de ar e, depois, soltam tudo e voltam à calmaria anterior. No sentido contrário, são as que “não se incomodam com nada”, mas também não conseguem seguir adiante, presas a algum detalhe perdido. Para mim, o pior tipo. O tipo que não reclama, não elogia, não deseja. Apenas espera e aceita. O tipo que engole, que recebe, que nem vê o tempo passar – e, quando vê, passou mesmo e muito. Aquelas de quem você não vai se lembrar depois de algum tempo, que fugirão da memória em qualquer tentativa posterior de enumeração. Gente que não fede e não cheira. Não acrescenta. Não faz diferença. E realmente não se importa com isso.

Nunca soube exatamente em qual desses perfis eu me encaixo. Sei que não sou frio (não mesmo), me esforço para não ferver e tento fugir do morno, do mais ou menos. Mas acho que meu posicionamento varia de pessoa pra pessoa, e ainda depende muito do contexto. E isso talvez ameace bastante a construção de uma PERSONALIDADE, eu acho. Ou não.

Separar as pessoas assim, dessa forma egoísta e simplista, como o é todo julgamento, me ajuda a conviver, eu acho. Na verdade, CONVIVER, para mim, é a missão mais difícil que já recebi. Mas me sinto mais SEGURO quando sei o que esperar de cada um. Sempre disse que prefiro surpresas a frustrações e essa é uma forma de não me decepcionar tanto, de saber com quem devo insistir, até onde posso ir, e, por que não?, quando é hora de voltar atrás.

A propósito, não sei por que estou falando sobre isso. Na verdade, eu acho que preciso parar de passar tardes sozinho, ou de ter conversas filosóficas sobre pessoas, relacionamentos e etc. com qualquer um por aí, que esteja sofrendo da mesma nostalgia que eu.

E, antes que os ferventes gritem e os apenas quentes tenham vitiligo elaborando teorias, esse texto não fala sobre ninguém em especial. Não mesmo. São só algumas considerações sobre tudo o que aprendi nesses 20 anos quebrando a cara. Não seja frio, por favor, às minhas reflexões, mas também não se sinta agredido, não é pra tanto. Não aceite carapuças e, mais que tudo, não me culpe por nada depois. Leia o que eu disse, sem se preocupar se eu “quis dizer” alguma coisa ou não. Porque eu não quis. Indireta é coisa de gente morna!

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