Páginas

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Eu também tive um derrame de percepção

Rômulo Lacerda e Caio Pedra
Não é nada normal que uma pessoa não tenha palavra nenhuma sobre si na boca. Não é nada do que devemos esperar, pelo menos. Neste caso, na verdade, é bem o nada mesmo que esperamos de alguém assim. Nem que seja para a sua defesa, todo mundo tem que ter a dizer. Não importa se alguém a está acusando. Ou defendendo. Não importa se a pergunta é difícil, ou se o raciocínio está fraco. Não ter palavras é um crime contra si mesmo. Contra o próximo. E contra a situação, certamente.
Sinto-me feliz por saber dizer algo. Saber e poder, é claro. Mais que isso, eu diria: saber, poder e não abrir mão. Porque poucas coisas me fazem calar. Nem que seja uma pequena besteira. Uma palavra - forte - de auto-crítica, ou de consolo. Uma lamúria, um resmungo. A vida não tem tanta graça em silêncio. Saber falar é um grande poder. E o que nos diferencia de muitos outros seres, eu acho. Talvez eles também falem e se comuniquem. Talvez não. O certo é que nós falamos, disso eu tenho certeza, podemos nos comunicar e devemos mesmo o fazer. Concentrar mil globos energéticos no meio do peito e os transformar em sons. Um conjunto de símbolos fonéticos formando um sentido completo. Um som qualquer que, por alguma convenção - e com certa boa vontade -, ainda que de forma rudimentar, se faz entendido pelos que estão a nossa volta. Até os que não compreendem. E nem estou falando cientificamente. Palavras que podem ser soltas tão facilmente no ar, ou fazer todo o trajeto carregando toneladas de coragem. Está aí algo desesperadamente necessário para o viver e o falar, a Coragem. E talvez seja exatamente isso o que falta a so many people por aí. Afinal, é preciso coragem até para existir. Ainda mais para expressar vontades, expor idéias, impor. E é exatamente por meio das palavras que impomos e confortamos, que maldizemos e elogiamos. É esse o elo entre tudo o que expressamos? As palavras, as mesmíssimas palavras, que podem ser doces ou rudes, ofensivas ou românticas. As palavras mágicas, os segredos, as regras, os recados... tudo. A forma como nos comunicamos - e comunicar é dividir, extravasar, dar aos outros um pouco de si - com o mundo e as pessoas.
E toda e qualquer palavra se apresenta mais forte quando revestida de coragem. Porque não há nada mais fácil que repetir o certo, que defender aquilo que se sabe. Provar com bons argumentos é moleza. Difícil é blefar. Preencher com coragem todas as lacunas que deixa a incerteza. Completar esses espaços e sustentar o dito como algo comprovado ou comprovável, mesmo quando não se sabe nem do que se trata. Dizer algo e sustentar só com o olhar. Aquele olhar atrevido que é só dos corajosos...
Falar. Escolher. Aceitar. Viver. Reconhecer. E respeitar. É o que venho tentando. Uma frase para concluir o texto? A palavra deveria vir antes e depois da imagem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário