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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Quente ou frio? MORNO.


“Eu tenho preguiça de quem não comete erros. Tenho profundo sono de quem prefere o morno. Eu gosto do risco. Dos que arriscam. Tenho admiração nata por quem segue o coração.”
(MELLO, Fernanda. Princesa de Rua. Editora Neutra, Belo Horizonte, 2009, 1ª edição, p. 15)

Pois então, Fernanda, eu não. Acho lindo o seu discurso e, nas várias vezes em que o li e ouvi, seja em outras vozes ou palavras, senti uma ponta grande de inveja. Queria ser como vocês. Juro. Queria não ter medo de nada, acreditar apenas em mim e não temer o futuro, mas não posso. Não posso, não consigo e não sou. É. Eu não sou assim. Estranho, né?! Eu sempre ponho defeito em tudo, comporto-me como se soubesse todas as respostas, digo ter preguiça das pessoas por serem todas tão previsíveis e, olha, não tenho coragem de arriscar. Morro de medo do futuro. Um medo bobo, eu sei, mas que me consome.
Medo de errar, medo de sofrer, medo de me arrepender. Eu sou bem essa pessoa morna de quem você não gosta. Aquele que não faz nada (por temer tudo) e, depois, se arrepende. E não aprende. Porque só o que eu faço é me arrepender do que eu não fiz e, até hoje, pouco fiz para mudar (e vivo me arrependendo por isso). As oportunidades aparecem, eu sinto medo, elas passam, eu me arrependo, e volto a esperar pela próxima, que vai passar da mesma forma...
Já tinha lido trechos dos seus textos no blog e no twitter da amiga que me apresentou ao seu livro. É ótimo. Estou encantado com a forma que o amor e as desilusões amorosas, principalmente, tomam vistas pelos seus olhos, que são tão diferentes dos meus. Mas confesso que me faz sofrer um pouco mais a cada texto. Não sei dizer ao certo o motivo. Às vezes, penso que realmente preciso quebrar essa casca, sair dessa pasmaceira e falar alto com a vida, “oi, tem alguém aqui, sabia?”, e, assim, voltar a acreditar em uma nova forma de viver, um outro mundo, uma realidade que só os valentões conseguem enxergar. Mas, por outro lado, vejo você, tão diferente de mim, sofrer pelos mesmos problemas, e, muitas vezes, da mesma forma. Já fui valente um dia, não nego. Lembro-me perfeitamente de uma conversa com essa mesma amiga, em que ela me disse “vai, Caio, já passou da hora de você ver como é esse negócio de amor! Vai, que, se der errado, eu prometo fazer brigadeiro e passar dias do lado da sua cama, pondo na sua boca, pra você não precisar parar de chorar nem pra comer!”. Eu fui. Amei como um louco, perdi – devagarzinho – todos os medos. Foi lento. Lento e muito doloroso. Mas eu consegui. Quando vi, estava entregue. A palavra é bem essa, e eu cheguei mesmo a dizer isso na época, “dizer eu te amo é dizer eu me entrego”. Deu errado. Aprendi da pior forma que o amor não depende só de mim. Estar aberto para ele é o primeiro passo, mas só o primeiro, de uma caminhada bastante longa.
Foi ótimo. Arrependo-me de pouco ou nada. Mas acabou. A coragem, que eu não sei de onde tirei, serviu pra que o amor ao menos começasse. Mas o fim veio em seguida, e meu medo repete isso a todo tempo agora. “Vai, vai fazendo graça. Mete mesmo a cara, seu babaca. Como se você não soubesse o final dessa história...”. E eu não vou mais. Nem tenho como ir! Ou tenho, não sei.
Só sei que não consigo. Minha vida é temer agora. Meu verbo é reclamar, meu pecado é a preguiça. Tenho preguiça das pessoas, preguiça de relacionamentos, preguiça de começar qualquer coisa – e me dedicar a isso, investir meu tempo, meus sentimentos e meu emocional (instável) – que eu sei que não vai dar certo. E eu sei também que eu “não sei” que não vai dar certo, é só uma suspeita. Mas eu confio demais nela, só pode. Passei a viver esperando o amor pronto. Que eu vou olhar e dizer “oba, só falta eu”. E ele existe? (Isso, eu SEI que não).
A verdade é que eu gosto de ter o controle. Gosto de saber o fim. Gosto de saber o que esperar. Não gosto de surpresa, nem de suspense. Não gosto de nada que não dependa de mim. Por isso abri mão do amor, não quero ver minha felicidade condicionada ao comportamento de alguém que não eu. Onde já se viu? Nesse mundo de gente egoísta e sem rumo, qual a chance de eu dar meu coração assim? Não, não. É meu. E, meu, quem cuida dele sou eu. Ainda que não pareça, assim, tão fácil... Por isso, escolhi essa vida morna. Preferi não arriscar, não sei lidar com expectativas. Não sei ouvir não, aí não ouço nada. Minha vida é esperar algo que eu sei que não virá, ou, se vier, será tudo, menos perfeito. Torço para que eu, ao menos, perceba. Porque acho que deixo de ver muita coisa. Mas não consigo mudar. Gato escaldado tem medo até do barulho da água. É só eu pensar em mergulhar outra vez, que a dor volta, as lembranças voltam, aquela roupa aparece de novo na gaveta, as fotos na parede. E eu não quero viver tudo isso outra vez. Meus contras dão sempre banho nos prós, meus custos nos benefícios. De todas as contas que faço, nenhuma resulta em “vale a pena”. Porque sofrer nunca vale a pena, e amar, pra mim, virou sinônimo de sofrimento. E medo é como cócegas, espalha. O medo de amar que eu tinha cresceu e, hoje, eu não passo de um grande medroso. Medo de amar, de perder os amigos, de ficar pra titio, de estar no curso errado, de não ser bem sucedido, de me expor, de passar despercebido. A insegurança me abraçou e eu me acomodei a essa vida no escuro. Acho que não posso mais mudar. Sei que não agüento.
Ou agüento.
Tá. Eu não sei. Confesso.
Tenho medo de pensar também.

2 comentários:

  1. pois é... sabia que o livro ia mexer com vc pq mexeu comigo. a cada palavra q eu lia do q essa mulher escreveu, se instalava em mim a maior inveja do mundo. vontade de sair correndo e comprar uma versão "guerreira" para mim tb. deixar a medrosa q eu sempre de lado e, simplsmente, mudar.
    só q eu sei q não é assim q as coisas funcionam, mas eu acho que o simples fato de vc conseguir ver vc, ver o q te incomoda, o q vc quer mudar, ajuda (e muito) a traçar seu caminho para a mudança. agora, calçar o sapato certo e andar pelas difíceis estradas é uma escolha sua. vc está preparado?

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  2. "Medo, era medo de errar
    Tarde, muito tarde
    pra consertar..."

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