Páginas

terça-feira, 20 de julho de 2010

Vinte e um!


É, vinte e um! Não achei que chegaria tão longe. É estranho dizer isso assim, eu sei, mas é a verdade. Quando criança, eu não me imaginava adulto. Tinha uma previsão mais ou menos de como eu seria fisicamente e o que faria da vida aos 15, aos 20, mas só. Não passava disso. E é assim até hoje. Não faço idéia do que esperar dos 30. Só que, naquela época, eu achava que isso era um sinal de que eu não viveria muito, que morreria jovem. Hoje, eu não digo que não seja, mas também não acho que vem a ser. Aceitei simplesmente não saber. E aceitar não saber é um (mau) sinal de velhice.
Outra coisa legal é que eu não me sinto velho. Sempre quis envelhecer, e condeno demais quem não aceita a idade, mas, hoje, vejo que eu também não aceito. Sabe quando a gente diz algo sem pensar, e, a partir daquilo, se conhece um pouco melhor? Minha mãe reclamou, dia desses, de algo, não me lembro exatamente o quê, que eu não fazia nunca, porque eu não era “gentil”. E eu nem levantei a cabeça pra soltar o mais comprometedor “ah, mãe, dá um desconto que eu sou criança, né?!”. Meu inconsciente, em uníssono com ela, não demorou nem meio segundo para responder “é?”. E, é, não sou. Né?! Pelo menos, não mais.
Embora eu me sinta jovem, tenha medo de escuro, não goste de calça comprida, tenha alergia a barbeador e horror a gravata, eu já tenho 21 anos. E 21, como diz uma amiga 28 dias mais sábia que eu, está bem mais perto dos 30 que dos 10... Ai, meu Deus!
Dizem que, se você não deixa morrer a criança que há em você, o envelhecimento não vem, e você continua “novo” pra sempre. Embora eu só confirme a teoria do faça o que eu digo, não o que eu faço, preciso dizer que discordo. Se você não supera essa infância e não deixa morrer o que tem mais é que morrer mesmo, não permanece criança, só fica ridículo. BABACA em seu sentido mais deplorável. A vida é uma seqüência de fases e cada uma delas tem seu encanto. Só porque a primeira foi boa, não quer dizer que as outras não serão. E, para conhecer essas outras, principalmente, você precisa concluir a passagem pela primeira. E é nisso que venho me concentrando.
Não fui uma criança normal. Não gostava de brincar, não fazia amigos, estava sempre quietinho, vendo TV ou dormindo. Até que aprendi a ler, e lembro do meu pai dizer que minha cabeça fundiria se minha mãe não me obrigasse a brincar um pouco pra me tirar de dentro dos livros. Mas, como eu disse, não achava que viveria muito, então nunca fui de muitas ambições. Lembro de uma cena de uma novela em que a personagem da Alessandra Negrini dizia que queria morrer jovem, pra morrer bonita, e do tanto que isso representou pra mim. Pode não parecer sério escrito assim, mas é a mais pura verdade. Eu era conformado à idéia já. Morreria jovem, mas morreria bonito.
E, talvez por isso, tinha muito menos medos que hoje. Ao mesmo tempo que sabia que a morte aconteceria a qualquer momento (eu não vivia esperando morrer, mas eu também não queria ser pego tão de surpresa assim...), eu me achava legal demais pra morrer de qualquer jeito. Não tinha medo de rua, de dormir sozinho, de palhaço... de nada que crianças costumam ter. Deus queria que eu vivesse mais, que eu acrescentasse algo ao mundo antes de morrer. Então, eu podia esperar pela morte, mas sabendo que, antes, algo bem legal aconteceria.
E eu já quis morrer mesmo. Acho que toda criança entrando na adolescência pensa nisso. Ainda mais quando enfrenta conflitos internos. Já quis suicidar, já escrevi carta póstuma, já quis fugir de casa... essa fase eu vivi intensamente. Mas aprendi a acreditar, e esse foi o mais confortante e mais ingrato passo que dei em todo esse tempo. Porque veio daqui toda a força possível, mas toda a espera também. E esperar é um verbo passivo, por mais que a gramática diga o contrário. Enquanto acredito (e eu continuo acreditando, porque me reservo o direito de ter aprendido muito pouco ou quase nada com meus erros), apenas ESPERO que as coisas aconteçam. Não só isso, espero que pessoas surjam, oportunidades, boas notícias, grandes conquistas. Fazer, eu não faço muito não. Mas esperar... tô eu, aqui, esperando...
Nesses 21 anos, desenvolvi hábitos estranhos, alguns já até esquecidos. Rôo unhas, ranjo dentes, só pego no sono encolhido, faço biquinho pra pensar, só desço da cama pisando primeiro com o direito, mexo no cabelo quando quero que o tempo passe... e escrevo sempre que não sei o que fazer. É uma fuga quando nenhum lugar parece seguro, um abrigo quando todos parecem ocupados, uma solução quando as boas idéias desaparecem, e, principalmente, um apoio, uma ajuda, quando tudo está confuso demais e eu preciso pôr no papel para organizar e entender. E eu me entendo assim geralmente. Quando escrevo algo, comumente em momentos de crise e angústia, e releio, tudo parece tão simples. Sou meu melhor terapeuta. Transcritos, os problemas parecem bem menores, e as soluções saltam aos olhos de tão óbvias. Eu me cito às vezes. Quando vivi algo parecido certa vez, eu descobri, e até escrevi isso no meu blog, que..., chega a ser engraçado. Ainda mais porque eu sinto vergonha dos textos dentro de dois ou três dias. Alguns, eu nem reconheço. Já aconteceu algumas vezes de eu ler textos meus, gostar, criticar e propor mudanças mentalmente, e só depois querer saber quem escreveu, e SURPRESA. Quando eu escrevi isso? Por que, meu Deus? Onde eu tava com a cabeça? Até porque esse blog já tem três anos, e é só o sétimo de uma longa vida de insatisfação e conflitos internos.
O que observo, agora, é que eu sempre busco culpados inconscientemente. Na minha cabeça, a culpa pelos meus problemas é do mundo e suas injustiças, das pessoas e seus egoísmos, do destino e suas ironias... Nos meus textos, a culpa é minha, que não sei lidar com nada disso. Buscar culpados é um passo importante. Pena ser só o primeiro... E minhas diferenças comigo avançam ainda um pouco mais. O problema é que eu sou sempre o mesmo e acho que não gosto disso. Um Caio velho, chato, que reclama de tudo e se dedica a ver só o lado ruim das coisas. Um Caio que não gosta de gente, não gosta de barulho, não gosta de surpresas... Que precisa ter tudo sob controle, precisa saber, entender, dominar. Um Caio besta, que está deixando a vida passar e tem total consciência disso. E, principalmente, um Caio inconstante e inconformado, que inventa novos Caios toda semana. Que fica vaidoso, simpático, gentil. Corta o cabelo, faz regime. Inventa e promete muitas mudanças, porque sempre acha em si algo em que pôr a responsabilidade por mazelas que nem são suas – ou são, e daí?. Mas volta sempre a ser o mesmo. O Caio de sempre. Velho, chato e inseguro. O Caio de que os Caios não gostam. E o Caio que eu não queria ser. Mas sou. E, contra isso, o que é que se há de fazer?
A única parte boa de toda essa idade (haha), é que, enfim, me sinto algo próximo de pronto. Não sei pra quê, mas sinto. Fiz teatro porque achava que queria ser ator, dança quando achei que queria dançar, até música... Já achei que queria namorar e, depois, achei que não queria mais. Já quis ter emprego, já quis só estudar, quis até ser estagiário (como se isso pudesse ser um desejo). Quis ser juiz, advogado, promotor. Penalista, civilista, jornalista e arquiteto. Quis viajar, quis fugir, quis tantas coisas diferentes, e pude provar, na medida do possível, um pouquinho de cada uma delas. Agora, enfim, acho que posso ser o que escolher. Sem meus pais reclamarem da minha indecisão, sem vergonha de largar tudo pela metade. Na verdade, acho que, agora, eu já DEVO tomar uma postura na vida, querer ou poder já não se aplicam mais tão bem. Agora é hora de dever e cumprir.
Eu pude ser adulto quando criança, porque isso era só uma questão de postura. E pude ser quando adolescente também, por uma questão de maturidade. Agora, entretanto, já não há mais essa escolha. Chegou a hora em que eu tenho que ser adulto, porque já sou, e não dá mais pra fugir, nem há outra opção. E o mesmo verbo “ser” assume vários sentidos numa mesma frase. Um mais assustador que o outro. Eu posso querer ser criança, posso querer ser adolescente, posso querer ser qualquer coisa, e consigo ser, se me empenhar. Mas o que eu sou mesmo, o que eu já sou, independente disso ou daquilo, é um adulto. E como é que isso pôde acontecer comigo? Onde eu estava quando todo esse tempo passou? Eu já estou pronto? Eu sou metade do adulto que achei que seria?
Desenterramos, no quintal aqui de casa, dia desses, umas cartinhas que escrevemos em 2001 e que deveriam ser lidas só em 2011, dizendo como imaginávamos que estaríamos dez anos depois. E eu só não me frustrei mais porque meu plano é, hoje, tão impossível, que nem se eu quisesse ou tentasse.
O mais difícil vai ser não poder mais fazer planos pra quando eu crescer. Posso fazer pra quando formar, quando casar, até quando criar vergonha na cara, tanto faz. Porque, crescer, eu já cresci. E isso, agora eu percebo, é fácil de ver, mas (bem) difícil de acreditar...

2 comentários:

  1. 21!
    Hora de pensar que a vida está começando a ficar interessante, estamos na fase equivalente à pré-adolescencia, só que no mundo adulto.
    Hora de pensar que você é o roteirista, não o ator.
    (estou tentando aplicar isso na minha vida também!)

    ResponderExcluir
  2. impressionante.
    "Todos iguais e tão desiguais, uns mais iguais que os outros..."

    ResponderExcluir