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quarta-feira, 28 de julho de 2010

"You're so vaaaain..."

Você nunca vai me entender, Caio. Você é muito novo. Você sai, tem seus amigos, vai pra balada. Vive um mundo muito diferente. Eu não. As minhas amigas já casaram, algumas já até separaram, outras têm filhos... Eu sobrei. Eu formei, arrumei emprego, e, quando vi, estava sem nada pra fazer. Eu não gosto de sair. Eu tenho umas amigas, amigas não, conhecidas, que gostam, e eu até ia com elas uma época. Mas só arrumam cafajestes. Os homens acham que as mulheres da minha idade estão desesperadas e têm que aceitar qualquer coisa. E eu não. Aí, eu fui ficando muito sozinha, o tempo foi passando... e eu resolvi correr. No começo, era muito difícil, né?! Eu não era mais novinha, já tinha 40 anos. Corria um pouquinho e, no dia seguinte, não conseguia nem andar. Dá ácido láctico. Morria de dor, sofria... mas é tudo treino. Hoje, eu ainda sinto muita dor, mas aquela medalha mesmo que eu te mostrei é de uma meia-maratona. Eu já agüento correr. E, nossa, ninguém entende quando eu digo, porque ninguém viveu essa experiência, mas é tão bom correr. É bom viajar, sabe? O pessoal é legal, a viagem é divertida, eu me sinto tão bem com eles. Você não entende, não adianta. Mas é ótimo. É uma sensação ótima. Eu adoro. E isso me distrai muito.
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Ai, Caio, às vezes, eu me sinto muito estranha, quase um peixe fora d’água. E eu preciso conversar, sabe? Não tenho muitos amigos, só o povo aqui da sala mesmo, e um ou outro na Faculdade. Minha irmã foi morar com o pai do filho dela, minhas amigas da Faculdade seguiram as vidas delas... E tem coisa que eu não posso conversar com a minha mãe. Se ela souber que meu namorado dorme aqui em casa de vez em quando, vai me pregar na cruz e pingar sal nas feridas, meu Deus do céu! E eu ando tão nervosa com ele. Ele não entende que, às vezes, eu quero ficar sozinha. Eu saí de casa pra isso. Tem dias em que eu só quero ler um livro, sabe? Ficar deitada na minha cama sozinha, ver filme... e ele é grudento, fica me cercando. Desculpa desabafar com você desse jeito. Mas eu tô precisando conversar ou vou fazer uma bobagem. Não agüento mais isso. Agora mesmo, ele tá lá roncando na minha cama. O desgraçado ainda ronca, Caio. Eu penso até em terminar, mas tenho muito medo de ficar sozinha. Tô com 35 já, né?! E, aí, eu fico presa a isso, é uma merda! Uma merda!
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Vim pra casa, hoje, remoendo tudo o que escrevi e pensei nos últimos dias e posts. Tomei banho ouvindo música, vesti pijama quentinho, pedi sanduíche pelo telefone e fui assistir a um filme. Tudo muito bom. Até a entrega, que dura quase uma vida geralmente, demorou um sexto do tempo normal apenas, parece que o coração do motoqueiro se sensibilizou com o pedido de UM X-Tudo pra uma casa tão grande e tão escura. Estou mais melancólico nesses últimos dias. Vejo menos meus amigos nas férias, meus pais viajaram, meu irmão não fala comigo. Não tenho muito com o que me ocupar.
Venho trabalhando meu fracasso afetivo já há muito tempo, mas parece que ele pesa mais agora. Pelo menos, um pouco mais, com certeza. Acho que por conta do meu último “casinho”. Sabe quando tem tudo pra dar certo e não dá? Aquela pessoa perfeita, por quem você procurou pela vida inteira, e, de repente, quando aparece, parece que você não quer mais. É estranho. Porque eu queria, ou deveria querer – já que sempre quis. Só que não quero. Meu verbo não encaixou no presente do indicativo, tá vendo? Passeou por toda a conjugação e passou direto por aqui. Não quis. E, é claro, se eu monto um ideal de amor e, depois, dispenso assim, sem nenhuma satisfação, alguém estava um pouco equivocado, o ideal criado ou eu. “A pessoa certa na hora errada” é covardia, não se encaixa! Pessoas certas fazem o que querem com as horas. O problema todo é a minha fuga, eu sei. Meu medo de ficar sozinho é tão grande, que eu fantasio. A montagem desses ideais é só uma forma de me justificar. Quando encontrar alguém assim, vai dar certo. Aí, escolho características bem difíceis de juntar, todas as qualidades do mundo, e sai do forno, ainda soltando fumaça, um alguém que não existe (e nem nunca vai existir). Só na minha cabeça – e nas minhas desculpas. Aí, vem o destino, me dá quase tudo o que eu queria, e eu digo NÃO, corro pra casa, compro umas caixas de chocolate, escrevo uns textos e pronto. Back to black. Num ciclo sem fim de medo e expectativas. Porque, no fundo, eu não quero. Eu nunca quero.
E eu sei que é cedo para sofrer por uma velhice solitária. Eu só tenho 21. Mas é que ela parece tão inevitável, que não consigo agir como se não ligasse. Porque eu ligo. Ligo muito. O filme que vi hoje, pela milésima vez, foi Como perder um homem em 10 dias. Já não choro mais, porque decorei as falas. Sei até cantar as musiquinhas. Mas ver Andie Anderson é sempre bom. Me faz sofrer uma dorzinha tão gostosa. Porque ela faz parecer divertida uma realidade que não tem a menor graça. Ela é linda, inteligente, divertida e bem sucedida, e, misteriosamente, solteira. Até que, por acaso, conhece o amor de sua vida e tem que fazer ele se afastar. Quando consegue, se arrepende, é claro, e escreve uma declaração de amor que ele lê numa matéria de revista. Contei o final, pronto. Simples, né?!
Porque o amor é simples, gente. Ele existe, está onde nós menos esperamos e acontece de vez em quando. Se der algo errado, como costuma dar, é só escrever e publicar em algum lugar que tudo se resolve. Não estou eu, aqui, escrevendo sobre amores que existiram, amores que não existem e, principalmente, amores que eu quero que existam um dia há três anos?
E é isso mesmo que eu já faço. Novinho, sem entender desabafos de solteironas, e já tão desiludido. O que eu faço é escrever. E numa quantidade absurda em dias de fossa como esses. Porque eu tenho sempre a mania de escolher um problema para justificar todos os outros – e a carência afetiva é a melhor desculpa, já que é a mais difícil de corrigir. Então, enquanto for mal amado, posso ser triste, posso ser chato, posso ter preguiça de tudo, posso não gostar de gente. Eu sou mal amado e ponto. O mundo que se vire e me entenda. Eu vou é pra minha casa escrever!
Uns correm, outros lêem, tem gente até que inventa namoros. Eu escrevo. E entendo aquele bem estar, aquela sensação gostosa exclusiva de quem viveu a experiência. Escrevo e, por alguns minutos ou linhas, sou feliz como ninguém mais. E entendo quem não entende também.
Escrever... pelo menos, já sei o que quero fazer pelas próximas décadas...

3 comentários:

  1. Escrever é bom, é uma fuga boa.
    Tentar racionalizar sentimento é que não dá certo.
    Mas, Caio.. você tem a sua solução na ponta da língua (ou do lápis).. só não quer falar alto. A coerência dos seus textos mostram isso... admitir a solução, às vezes, é mais difícil que os próprios problemas.

    ps: Se você continuar a escrever bem assim pelas próximas décadas, será uma contribuição para o mundo! hehe

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  2. Jura que você acha que encontrar o amor da sua vida vai te fazer parar de ser chato, ter preguiça de tudo e não gostar de gente? Por favor!

    Já dizia Clarice Lispector: "Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro!"

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