Páginas

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Quartinho

O porteiro do prédio onde minha mãe trabalha é meu vizinho. Deve ter uns quarenta anos e dois filhos. A mais velha deve ter a minha idade (e não é filha legítima dele, só da esposa, de um casamento anterior) e sofre, desde a infância, de uma doença degenerativa. Vive na cama, não anda, não fala, não enxerga e não entende nada. Está viva só porque respira, porque não recebe nenhuma influência nem tem nenhum contato com o mundo. E um outro filho, mais novo, uma gracinha. Super brincalhão e um pouco carente, por conta da dedicação da família à irmã.
A esposa não trabalha, porque a menina exige atenção em tempo integral. São muitos remédios e muitos cuidados, já que ela não se move sozinha, usa fraldas e etc. O único rendimento da família é o salário dele, de porteiro. Pros remédios da menina e os gastos de todos eles.
Daí, esse ano, eles resolveram construir um quartinho em cima do barracão onde vivem. Ainda não entendi a obra, não faz muito sentido. É só um quartinho numa espécie de “segundo andar”. Nem sei se é pra menina ou pro menino. História comum no Brasil, é claro, mas, ainda assim, muito triste, não é?! Dá vontade de ajudar, eu sei...
Pensando nisso, talvez, é que a empresa dele concordou com uma idéia inusitada – e, infelizmente, muito comum também – que eu não sei de quem foi: ele foi demitido, se inscreveu para receber o seguro desemprego, e continua trabalhando, sem carteira assinada. É como se ele não tivesse emprego e usasse o seguro para se sustentar. Só que, na verdade, ele tem sim, e usa o seguro para terminar a obra do quartinho. Quando acabar o seguro, ele será recontratado pela mesma empresa, que assinará outra vez sua carteira.
Pois é. Agora, eu tenho algumas perguntas:
Até onde só o que é certo é certo e em que ponto o errado também pode vir a ser?
É esse o governo que queremos pro nosso país?

Nenhum comentário:

Postar um comentário