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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Compreensão e pronto

Minha avó tem 86 anos, é uma pessoa antiga, não está preparada para essas modernidades que, querendo ou não, eu acabo representando e está ficando gagá, coitada. Por isso, ela pode dizer o que quiser e eu, pessoa madura que sou, tenho que compreender. Daí, se ela rasga a foto que tem comigo na estante da sala ou insinua que depende do coração bom de cada um quando se refere a mim, sem eu ter feito absolutamente nada, eu posso sorrir, passar por cima e entender que a cabeça dela já não funciona mais tão bem. Eu sei, eu sou maduro, eu não ligo pra essas coisas.
Minha mãe ainda tem muita dificuldade em lidar com o crescimento dos filhos, principalmente com o meu. Isso, é claro, dá a ela o direito de ler as mensagens do meu celular, remexer nas minhas coisas, bicar minhas conversas e instaurar verdadeiros inquéritos cada vez que eu vou sair. Passar a noite em claro, chorar e fazer drama também são atitudes normais. Ela é mãe, ora bolas. Eu é que, como filho, e pessoa madura que sou, tenho que compreender. Quando ela gritar, quando ela chorar, quando ela me mandar e-mails caçando confusão, eu só preciso respirar fundo, lembrar que ela é uma pobre mãe preocupada e seguir em frente. Porque essas coisas não me incomodam, não é mesmo?
E o meu irmão? Pobrezinho. É mais novo, complexado. Tem muitos conflitos internos e ainda não cresceu o suficiente. Está vivendo o primeiro amor e aprendendo ainda a lidar com isso, bem como com as pessoas e, claro, comigo. Ele não é propriamente um mentiroso de marca maior, apenas enxerga os fatos sob outra ótica, só dele, e interpreta tudo de forma diferente. Não é maldade, é imaturidade. Ele disse recentemente que me odeia, que cansou de sofrer nas minhas mãos e que nunca mais falaria comigo. Cumpriu bem a promessa. Ficou meses sem olhar na minha cara. Nem bom dia, nem licença, nada! Nunca me explicou o porquê e, claro, também não respondeu quando eu perguntei. Só rompeu as relações e mostrou que consegue viver sem mim. Até meus pais intervirem e condicionarem o uso do carro à amizade com o terrível irmão mais velho. Agora, ele é meu amigo. Quase íntimo. De um dia pro outro. Faz piadinhas, me abraça. Quem vê de longe e não conhece acha até que ele me ama. E eu, claro, pessoa madura que sou, tenho que compreender e aceitar isso. Aquilo foi apenas uma fase. Agora não, agora é pra valer. Da mesma forma que ele rompeu unilateralmente, ele pode querer reatar unilateralmente também, não é? E eu tenho que aceitar, oras, porque eu sou mais velho e ele tem problemas. Não é possível que, quando tudo volta ao normal, eu invento uma crise e atrapalho o restabelecimento da boa convivência no lar. Não, jamais! O meu papel é esse. Ficar aqui esperando. Conversando quando ele quer conversar, e trombando quando ele não quer. Porque eu não sou uma pessoa, sou um saco de farinha. Uma estante, uma cadeira velha. Que ora você usa e adora, e ora não quer mais e joga fora.
Agora, e eu? Eu também tenho problemas, gente. Também tenho sentimentos, inseguranças e sofro muito por coisas realmente pequenas (nisso, vocês têm toda razão). Não tenho 86 anos, nem 18, muito menos filhos, mas acho que posso ter motivos pra isso também. Ou não? Será que eu estou mesmo condenado a compreender para sempre? Será que ninguém pensa que eu também preciso ser compreendido? Ou será que eu não preciso mesmo e tudo não passa de drama e frescura dessa cabeça desocupada de menino rebelde?
Triste pensar que o que todos querem de mim é exatamente o que ninguém me dá. Pior, é o que eu não tenho nem pra mim, quanto mais pros outros. Talvez eu não seja essa pessoa madura, sabe? Ainda que isso não seja compreensível...

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