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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Dó-ré-mi-foi

Hoje, eu voltei de Goiânia a BH dirigindo. Não dirigi o tempo todo, é claro, éramos dois dividindo o volante, mas também não é isso o que importa. O legal da viagem é que, estudando o trajeto no mapa, eu descobri que passaria por uma cidade muitíssimo comentada num passado não muito distante. Centro de várias e várias discussões, objeto do meu desejo e do meu sofrimento também. Ah, como eu sentia saudades de alguém que ia sempre pra lá. Ah, como eu sentia raiva por saber que, um dia, esse alguém iria pra sempre, e me deixaria aqui sozinho. Ah, como eu imaginava a cidade pequena, bonita, toda verdinha. E, ah, como ela é feia e mal planejada. Tem cor de terra e cheiro de fumaça. Nada do pedaço de céu na terra que eu imaginava, com certeza.
Só sei que passei o dia inteiro me preparando pra esse momento. Não que fosse importante, já faz tanto tempo... A questão é que isso tudo era irônico demais pra minha cabecinha. Passar, rapidamente, pelo lugar onde eu tanto quis poder ir – e, ao mesmo tempo, mais quis que uma tsunami destruísse. Se é difícil explicar, vocês não imaginam o quanto é difícil sentir e entender. Liguei o IPod no aleatório e, imediatamente, me imaginei cruzando as ruas da cidade que eu imaginava bonita ao som de alguma das músicas daquela época, algum dos hinos das minhas choradeiras ou dos nossos passeios. Seria meio difícil, eu acho. Não sei.
Não andei nem 10 km, e tocou Hot. Lembra de Hot? A música que, para mim, foi nosso principal tema de amor. Não é nenhum clássico, eu sei. Na verdade, é Avril Lavigne, né?! Depõe contra mim reconhecer isso, mas era difícil, naquela época, encontrar alguma página do meu caderno onde eu não tivesse rabiscado you’re so good to me. Ufa! Dessa, eu já estava livre. E a viagem foi bem longa, cerca de 10 HORAS. Eu sabia que ainda corria outros riscos. Um pouco adiante, Zeca Baleiro cantou Proibida pra Mim, do Charlie Brown Junior, com aquele refrão pretensioso (e lindo! e ótimo!): se não eu, quem vai fazer você feliz?, que banha de felicidade e orgulho qualquer coração despedaçado por um pé na bunda!
Segue, Caio, segue que a estrada é longa.
Dias de Sol, do Cheiro de Amor. Lembra daquele dia no CEU? Das fotos lindas, da chuva, daquele ciúme bobo e divertido que eu não levava a sério (e era, né?!)? Pois é, eu também me lembrei de tudo como se fosse ontem. E tem tanto tempo...
Como nem só de boas lembranças vive um fim de namoro, teve Muito Pouco também. E não tem nada que me remeta mais ao fim que essa música. A gente terminou uma vez por causa dela, lembra? Se muito, pra você, é pouco, e eu não tô podendo te dar nada, é melhor a gente ficar por aqui. Ainda do mesmo CD da Maria Rita, alguns muitos quilômetros depois, eu cantei e dancei Mal Intento com direito a batuque no volante e tudo. Música linda, que eu adoro e sempre dediquei a você, embora você nunca tenha sabido. Lembra mais as brigas pós-termino que o término em si ou o namoro. Quando você dizia que eu parecia muito melhor solteiro, que estava mais bonito, mais confiante, visivelmente mais feliz. E eu estava mesmo, mas era tudo disfarce. Porque eu chorava e sofria o dia inteiro. Mas não dava o braço a torcer, e passava horas me arrumando todos os dias. Nunca fui tão bonito, realmente. Ninguém poderia supor que eu não estivesse bem. Nem você. Isso porque ninguém sabia que o meu canto não era nada mais que um mal intento...
As placas indicavam a proximidade da cidade, meu coração apertava cada vez mais, esperando a surpresa que o IPod me reservaria, e o Zeca Baleiro voltou com Telegrama. Juro. Lembrei da Bia, da briga na escada, da última trufa holandesa, de tudo. E ri muito, pra não chorar, e porque, agora, é engraçado. Ainda que, hoje, eu me envergonhe de toda aquela infantilidade. A minha e a sua. Mas, gente, o que é que estava faltando agora? E chuta? A música acabou, a cidade chegou, eu abri as janelas (porque eu queria VER enfim) e, porque a vida é irônica e não se cansa de rir de mim, tocou Single Ladies.
E a cidade, como eu já disse, não era nada do que eu imaginava, exceto pelo tamanho. Era mesmo pequena. Minúscula. Não fossem os muitos quebra-molas (que as placas indicam como “saliências”), não teria durado nem o primeiro refrão. E eu entendi o recado, Deus. Cause if you liked it, then you should have put a ring on it. Não que eu ainda tivesse alguma dúvida, mas a didática (e insistência) divina sempre me diverte e ajuda.
Estava acabado, enfim, o tormento. Não tinha mais o que temer, só muitos quilômetros ainda restantes.
E ainda tocou Cabide e Sem Radar. Mas Cabide me lembra as aulas de samba nas divertidas e cansativas aulas de sábado, naquela mesma época. E Sem Radar lembra uma noite que eu passei em Brasília, rindo, dançando e cantando num karaokê, dois ou três dias antes apenas. Porque a vida tinha que seguir, e seguiu. E as músicas vão sempre me fazer lembrar algo. Ainda que a história seja outra já...

3 comentários:

  1. Pude sentir sua agonia ao entrar na cidade.
    É sempre assim, precisamos rever algo para percebermos que não é tuudo aquilo que a gente idealizava.

    =)

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  2. Os dramas têm sempre as melhores trilhas sonoras...

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  3. achei que seu orgulho nunca o permitiria escrever um texto assim, mesmo sendo sobre fatos tããão remotos.
    indícios de um novo caio?

    saudade de vc! ♥

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