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domingo, 12 de setembro de 2010

Mantenha fora do alcance da criança (aqui)

Existem três coisas que eu não aceito em uma pessoa. E, por “não aceitar”, entendam “não conseguir conviver”. Não ligo pra falsidade, não tenho medo de mau humor, não me incomodo com preguiça. O que me mata é bem mais específico.
#1: Machismo
Machismo não é o melhor termo, eu reconheço, por não abranger tudo o que realmente representa. Porque, na verdade, o que eu não agüento é qualquer conservadorismo obsoleto. Eu sou conservador. Acredito no amor, no casamento e até na fidelidade – o que, hoje, é ultrapassado. Mas não parei no tempo. Acho que cada um tem que se casar com quem quiser, seja homem ou mulher, não importa. E o amor pode acontecer várias vezes também. Aquele amor único, eterno e sofrido é coisa de livro, a vida é mais dinâmica que isso. Há coisas que eu conservo, instituições que eu ainda prego e busco concretizar. Mas mulher não tem que cozinhar, homem não tem que ser galinha e filho não tem que concordar com tudo. Sou contra essa idéia de proibir os pais de baterem nos filhos, acho que o castigo físico (CLARO que com limites) faz parte da educação, mas também acho que as crianças e jovens devem discutir com seus pais. Concordar não faz ninguém crescer, é o diálogo que acrescenta. E ver uma mãe contar orgulhosa que viu sangue no lençol do filho depois de uma visita da namoradinha ou um homem dizer que “traição a gente paga é com a morte” e “mulher minha vota em quem eu votar” faz meu coração sangrar aos poucos. É saudável manter o formato da história, mas, o texto das páginas novas, a gente tem que atualizar.
#2: Ignorância
Ignorância é uma palavra cheia de significados, pelo menos para mim. A ignorância por falta de informação não me incomoda tanto. A gente vive no Brasil. Eu olho pro lado e enxergo. Sei que a informação é restrita, que os meios de comunicação são dominados e, principalmente, que nem todos têm as mesmas oportunidades, e isso é absolutamente compreensível num país tão grande e desorganizado. Mas eu acho que qualquer pessoa, por mais ignorante que seja, que se dispõe a aprender algo, não importa o quê, merece uma estrelinha. E a ignorância, portanto, é não se dispor. Não há nada pior (chato, deprimente e revoltante) que discutir com alguém que tem certeza. O aprendizado é algo construído, e a discussão é o melhor meio de se chegar a uma boa idéia, que ainda está longe de ser o certo. Para discutir e fazer disso uma experiência válida, você precisa estar aberto à discussão. Mais que isso, você precisa ter coragem de mudar a sua opinião a partir do que aprender por meio das palavras que ouvir. Agora, se você já começa a discutir com o único objetivo de mostrar ao outro o quão enganado e iludido ele é e sempre foi, não dá, não rende.
#3: Felicidade
Gente feliz me mata. Gente que dá BOM DIA no elevador, que puxa papo na fila do banco, que entra na sua conversa porque “não teve como deixar de ouvir”. Gente íntima, sabe? Que “faz amizade fácil”. O fato de você estar na mesma caixa que eu, mudando de andar dentro de um prédio não faz de você meu amigo. Muito menos dividirmos um banco de ônibus. Esses poucos instantes (que você faz parecerem uma eternidade) que passamos juntos são um acaso, um acontecimento sem a menor importância. Tenha certeza de que se a minha vontade fosse relevante nesse tipo de coisa, você não sentiria nem o meu cheiro. A vida não é um lugar legal, meu amigo. Vê se acorda e presta atenção.
E tem gente que consegue juntar TUDO isso (e muito mais)...

5 comentários:

  1. Quanto você cobra para ser meu analista? Você fala cada coisa.. aquelas coisas beem certeiras.

    Seu blog (ou seria site?) está ótimo, seus textos dispensam comentários. E o que há por trás deles merece ser discutido.

    Caio, seu potencial é imenso. Entenda como quiser.

    =)

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  2. Bom...
    O machismo eu concodo plenamente;
    A ignorância também, aliás "discutir com alguém que tem certeza" é dar murro em ponta de faca.

    Agora com a #felicidade... puxa vida! Talvez a mania de olhar para onde o senso comum não olha me torna um sujeito que não chega a puxar conversa no elevador, mas não dispenso trocar uma idéia rapidinho na 'caixa que muda de andar' nem acho isso chato.

    Eu adoro conversar com as pessoas rapidamente naquela conversa única com gente que nunca mais vou ver. Aí vale a fila do cinema, o elevador, a fila do banco, o banco da rodoviária... se tem um lugar que acho chato demais é sala de embarque de aeroporto: cada um concentrado no seu mundo que pode ruir se a bateria (do smartphone ou notebook) acabar disfarçando a tensão de voar.
    Por vezes é este sujeito que ao dizer algo que varia do fútil ao curioso que me faz ter uma idéia ou pensar e tentar ver as coisas com outros olhos.

    É que gosto muito de gente - de pessoas - de quem história pra contar. E TODO MUNDO tem história pra contar. Eu gosto de ouvir. Seríamos melhores se compartilhássemos nossas histórias e vivências.

    Uma pessoa puxar assunto no elevador não quer dizer que ela seja feliz, talvez, naquele momento ela esteja exercendo uma vontade que tem de lhe dizer algo e nós, que somos 'quase livres' nos sentimos bem quando fazemos algo que temos vontade.

    Se é felicidade, melhor ainda: que graça tem felicidade se não for compartilhada (uma corruptela da frase de Christopher Johnson McCandless).

    Sejamos menos amargos.

    =)

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  3. Ah, não, Everaldo! Aí, eu vou ter que interferir! hahaha
    Ter um olhar diferente do senso comum é uma coisa, e querer dividir isso com os outros é outra. O que me incomoda nesses diálogos é exatamente isso. Eles são a própria manifestação do senso comum quando, na verdade, o que queremos, muitas vezes, é apenas um instante de introspecção.
    Sou muito observador e estou sempre remoendo alguma lembrança. Mas sou egoísta também. Quem conversa comigo no ônibus interrompe os meus pensamentos para dividir comigo os seus, e nada ganha em troca. Quando muito, um aceno de cabeça.
    Ok, ranzinza, deselegante e desnecessário. Mas é automático, eu juro.
    Quanto à felicidade que transcende e torna necessária a partilha, eu não acredito. Na verdade, acredito, mas não dou tanta razão assim. Uma pessoa feliz é visivelmente feliz. Ela não precisa falar, não precisa sorrir. Ela é feliz por si só - e consigo apenas. O "bom dia" do elevador, assim como o "menino, e esse vento?" da fila do caixa não passam de conversa de protocolo. Não sei se apenas carência humana - ou se, a isso, podemos somar uma ânsia por "simpatia" -, mas algo que não necessariamente se faz a partir de um motivo, de um sentimento ou de um fato. Algo que se faz porque alguém acha que é preciso fazer. Protocolo.
    E eu, infelizmente, vou ter que contrariar seu McCandless e dizer que, para mim, felicidade nunca é suficiente. Eu quero tudo e não divido. Mas cada um pode ficar com a sua!

    hahahaha

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  4. Everaldo "assustado"... rsrsrs

    Pensamos de forma diferente. =)

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  5. Isso que você chamou de felicidade é o Thays graciosamente chama de alegrice.
    Também não suporto.
    Muitos podem achar que têm direito de compartilhar o que quiserem, mas onde fica o meu direito de não querer saber?
    E até onde eu sei, o direito de cada um termina quando começa a cercear o direito do outro, não é isso?
    Todos temos direito de querer dormir/rezar/estudar no ônibus e, o que é melhor, sem atrapalhar os coleguinhas.
    Agora, quanto a dividir a alegrice, há controvérsias...

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