Páginas

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Titia é o caralho.03

Música de suspense. Entra devagar, escondendo o rosto com um leque. Anda até o centro do palco, mostra o rosto, sorri e começa.
Vejam só quem voltou.
Sinaliza pedindo aplausos.
Estão felizes em me ver?
Pede mais aplausos.
Quem estiver feliz em ver levanta a mão.
Conta quatro pessoas na platéia apenas, acompanhando com os dedos para que a platéia perceba que são poucas as mãos levantadas. Um breve sorriso sem graça e retoma rapidamente a empolgação.
Geeente, que loucura! Que bagunça, que multidão! Bom, para quem não sabe quem eu sou e está se perguntando "meu Deus, de onde veio essa mulher sensacional?", meu nome é Titia!
Olha pra platéia.
É, Titia.
De novo, como quem não consegue ouvir.
Oi? Ti-ti-a!
Mais uma vez, irritando-se.
Qual o problema?
Despreza a platéia. Demonstra impaciência.
Já sei! Você vai me dizer "titia não é nome, titia é parentesco...", pois Titia é o meu nome! E não faria a menor diferença ter outro. Podia ser Zuleica, Solange, Dolores, mas é Titia.
Anda pelo palco, ajeita o cabelo, sorri e parece sonhar, como quem conta uma história repleta de boas lembranças.
Que não é o nome que a gente usa pra chamar a irmã da nossa mãe ou do nosso pai, mas pras mulheres bonitas, inteligentes, independentes...
Gagueja.
Be-e-em reeeesolvidas...
Retoma.
...bem sucedidas e bem vestidas (joga o cabelo com as mãos), que, por algum motivo, muitas vezes por opção mesmo, não se casaram.
Age como se a platéia risse e a desacreditasse.
Que que foi? Qual que é a graça?
Retoma o tom sério. Escolhe uma mulher na platéia pra servir de interlocurtora.
Todas as suas amigas com certeza já namoraram, casaram e só você sobrou. E é claro que, quando elas precisavam chorar suas pitangas, era você que elas procuravam.
Careta.
Então, se uma delas já tiver namorado um alcoólatra, você provavelmente tem pavor a homem que bebe. O mesmo com cigarro, futebol, carros antigos, religião, coleção de selos... o escambau!
Drama.
Só que esses sofrimentos alheios te calejaram demais!
Ar sério, como que concluindo algo importante.
E você ficou com preguiça de uns homens, medo de outros, e não chegou sequer a conhecer a maior parte deles. Eles chegam e você já olha com preconceito com base no que aconteceu com as outras e você acha que vai acontecer com você.
Senta-se.
Gente, tem nada mais gostoso que sofrer não.
Pausa. Olha pro teto, pensa, relembra.
Você passa dias em casa, trancada, com as cortinas fechadas, sem ver a luz do sol, andando da cozinha pro banheiro e do banheiro pro quarto, usando um pijama largo e velho, comendo como uma porca...
Sorri, gosta das lembranças, Fica de pé novamente.
E você chora, você sofre, você quer morrer. Você se identifica com as novelas... Todas as músicas falam de você... E tem coisa mais legal?
Acorda do transe.
Agora, você acha que, só porque as outras já sofreram, você deve aprender e não sofrer, você deve ser mais inteligente e se poupar, só que você sai é perdendo. Você pode odiar um homem se ele te magoar. Mas SÓ se ele te magoar. Deixa o pobrezinho te magoar, criatura! Dá essa chance pra ele, vai?
Outra pausa. Recupera o leque. Volta a andar e se abanar.
Outra coisa péssima que as amigas solteiras desenvolvem é a desconfiança. Você já ouviu histórias de traição das mais diversas.
Pergunta a alguém da platéia.
Me diz, você confia em algum homem?
Responde imediatamente.
Claaaro que não!
Aponta pra mulher a quem perguntou, como se a usasse como exemplo.
Aí, você está aí, jogada às traças, mal amada, mal vestida, mal penteada, abandonada... a própria encarnação da derrota, aparece alguém querendo te tirar desse buraco e isso é tão bom, mas tão bom...
Empolga. Alegra-se. Desanima de repente e anuncia com voz fúnebre.
... que é CLARO que não é verdade.
Volta à escolhida na platéia.
Ou é?
Andando. Gesticula, aparenta inquietação.
E você quer vigiar, você quer manter por perto, você quer descobrir a verdade.
Para de repente. Olha para todos e finge cochichar.
Na verdade, você quer é descobrir que É VERDADE, porque tem medo também de descobrir que não.
Retoma.
Aí, você fuça celular, você segue, você joga verde pros amigos dele pra ver o que consegue colher.
Para. Fúnebre novamente. Anuncia pausadamente.
E você controla os horários.
Tom sério, triste. Pra platéia.
Ele sai pra ir ao açougue, demora cinco minutos, e você entra em pânico.
Anda, gesticulando forte, aparentando nervosismo. Nega com as mãos e a cabeça, se descabela.
Porque NÃÃÃO. Ele NÃO encontrou um amigo no caminho. A fila NÃO tava grande, MUITO MENOS ele parou pra ajudar um velhinho! CLAAARO QUE NÃO, GENTE! Essas coisas não acontecem!
Satisfeita porque chegou aonde queria. Olha atentamente os rostinhos tensos e assustados na platéia, sorri cheia de razão e decreta.
Pode arrancar os cabelos, jogar fora a aliança, pode ligar o gás e fechar as janelas. E, principalmente, pode ligar pras amigas...
Diminui o ritmo, curte cada palavra.
... e contar que PEGOU ele te traindo com uma PICANHA e uma MAÇÃ DE PEITO, ao mesmo tempo, dentro do freezer. Porque ele NÃO-PRES-TA.
Senta-se, sorri. Tom cansado.
E você estava CANSAAADA de saber disso!

3 comentários:

  1. se eu estivesse na platéia, seria uma das poucas pessoas a levantar a mão... tava com saudade dela!
    adoooro a titia! hahaha

    ResponderExcluir
  2. Que medo. Você que escreve essas coisas?

    ResponderExcluir