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sábado, 30 de outubro de 2010

Pro-Coração




PROCURAÇÃO
Pelo presente instrumento particular de Procuração, e após todos esses anos de solidão e sofrimento, sendo apontada e ridicularizada nas festinhas familiares, lutando feito uma leoa pra pegar buquês em casamentos de amigas e primas (porque todas elas se casaram, menos eu), entrando na igreja como dama de honra, madrinha, convidada e até coroinha – NUNCA como noiva, chorando com finais românticos de novelas, assistindo sozinha a todas as comédias românticas lançadas pelo cinema e farta de esperar esse ordinário desse príncipe encantado, montado num jumento branco empacado e preguiçoso, que nunca conseguiu chegar nem perto de mim, eu, pobre solteira mal amada, cinqüentona já desiludida, ex-namorada e ex-mulher da vida de dúzias de filhos da puta, nunca sequer noiva, nunca sequer levada a sério, nomeio e constituo qualquer um, brasileiro ou não, casado ou solteiro, homem ou mulher, rico, pobre, preto, alto, baixo, gordo, feio ou militante, que só precisa ser maior e ter documentos, pra preencher esse quadrinho aí embaixo (tem que estar preenchido, não se esqueça), conferindo-lhe poderes para me representar junto ao Oficial de Registro Civil das Pessoas Naturais e Tabelião de Notas de qualquer distrito, município e comarca onde essa garrafa parar, levada por essas águas que eu não sei nem para onde vão, com o único e específico fim de, em meu nome, assinar uma porcaria de habilitação para o casamento civil com qualquer homem da face da Terra que possua um RG e um endereço e saiba, pelo menos, o nome dos seus pais (doravante queridos sogros!), e que não tenha o que fazer pelos próximos trinta ou quarenta minutos e se digne a perder esse tempo no Cartório em troca do meu coração cheio de amor.
Eu sei que não precisava ser assim. Sei que “não devemos desistir e que o importante é acreditar”, mas, olha, a gente só pensa assim até os trinta. Não há esperança que sobreviva a um botox. E, além do mais, por que pôr tanta expectativa em cima de um homem que, eu sei, vai deitar no sofá da sala vestindo uma samba-canção suada e gritar meu nome pedindo cerveja. Cena deplorável que vi tantas vezes em filme e tanto sonhei protagonizar. Boa parte desse lirismo (quase ele todo, eu diria) vem das cabeças ocas de algumas mulheres. O casamento não passa de um “vínculo jurídico entre o homem e a mulher que visa ao auxílio mútuo material e espiritual", como diz uma tal Maria Helena Diniz por aí, que, provavelmente, não se casou também, e por isso define o casamento desse jeito insosso. Descrito dessa forma, é até difícil entender como a falta de algo que não passa de um mero vínculo pode doer e marcar tanto uma mulher. Tem um conceito melhor, de um Álvaro Villaça de não sei o quê, como sendo o elo espiritual, que une os esposos, sob a égide da moralidade e do direito. Um pouco melhor, eu acho. Quando era só a Igreja quem cuidava dessas coisas, o casamento era uma comunhão da vida toda, a união do homem e da mulher, que se associam para toda a vida, a comunhão do direito divino e do direito humano. Mas ainda prefiro acreditar no casamento como a união de dois formando um só. Simples, objetivo e romântico.
Sei que, apesar de juridicamente reduzido, dessa forma, a um ato burocrático e rotineiro, é também uma festa bonita, um momento esperado, de muita alegria e emoção, em que costumam comparecer os dois corações apaixonados. Mas, na impossibilidade disso se concretizar, como é o nosso caso, meu amor, o ordenamento jurídico brasileiro (mais exatamente no art. 1542 do Código Civil) nos permite essa alternativa. Graças a Deus, não é mesmo? E há quem diga, ainda, que nossas leis são incompletas... Está certo que esse não é o melhor começo para nenhum relacionamento, e um tal Venosa já diz isso, mas o amor é surpreendente, e esse Venosa já não bate muito bem também. Pode existir história de amor mais emocionante que a que começa com uma Procuração dentro de uma garrafa jogada num rio e já dá logo em casamento? Claro que não, meu amor! Nosso amor tem esse começo lindo exatamente porque sabemos que não terá fim.
Se for o caso, pode, também, o mandatário apresentar, juntar e retirar documentos, pagar qualquer taxa que apareça (não vai ficar caro, o custo-benefício compensa, eu garanto), assinar declarações de estilo, bem como qualquer outro documento que esse povo invente para que esse casamento possa ser realizado, sendo necessário somente que esse bendito e libertador Termo seja assinado perante o MM. Juiz de Casamento.
Mas também não quero que pensem fazer nenhum favor a minha pessoa! Tenho lá meus predicados, ora bolas. Sempre fui a melhor aluna da sala, me formei cheia de prêmios, tive e tenho um bom emprego, muito reconhecimento. Leio muito e já escrevi uns romances também (nenhum que tenha vendido ou você possa conhecer). Sou uma mulher inteligente, interessante e muito “bem resolvida”, que é o nome fantasia de quem não liga para o fato de não ter conseguido se casar. Por isso, fiquei sozinha. Ponho medo nos homens, não preciso deles... ou, pelo menos, de tanto ouvir minhas amigas e falar com minha terapeuta, aprendi a acreditar nisso finalmente. Enfim... Além de ganhar essa mulher maravilhosa, e esse coração imenso, jamais habitado, você ainda se tornará meu único herdeiro, meu bem! Sou dona de uma singela quantia em dinheiro, fruto de economias e muito trabalho, e resultado direto dessa vida vazia e amargurada. Uma poupança cheia de rendimentos e dinheiro poupado pras viagens românticas que não fizemos, pros estudos dos filhos que não tivemos, para a compra e a reforma da casa grande e aconchegante em que não vivemos nem vamos viver, bem como todo o meu enxoval, que já está pronto, é claro, há uns trinta anos, mas embrulhadinho e novinho, e os gastos da festa, que não precisaremos fazer, já que sequer nos conhecemos. E não possuo herdeiros (como os teria?), só você, amor! E, para que tudo seja seu, já que não sabemos o que é feito quando uma mulher morre sem deixar ninguém, quero que o ato se dê sob o regime da comunhão universal de bens.
“Eu vou gostar de juntar seu sobrenome ao meu”, já dizia aquela canção (que tantas vezes cantei sozinha em karaokês, tomando cerveja, comendo fritas e esperando você aparecer, pedir um assento ao meu lado e me convidar para um dueto de “Pra você eu digo sim” ou “I say a little prayer for you”), por isso acrescento aqui esse poder. Tenham, por favor, apenas o cuidado de me informar assim que possível, só para fins de registro e orgulho – meu endereço para correspondência está no verso, bem como os dados do meu seguro de vida e uma poesia que fiz, aos 15, chamada “Para o meu amor”, que eu jurei ler como meus votos quando o grande dia chegasse, e só hoje em dia reconheço que não vai chegar.
Enfim, pode o portador desse documento, mandatário aqui embaixo devidamente indicado, requerer e assinar qualquer coisa necessária, e eu sei que a burocracia é criativa!, para que, por esse papel, eu me desfaça da cruz que carrego e não parta dessa vida sem ter experimentado as agruras e os prazeres um casamento. Vocês sabem como é essa sociedade! Papai e mamãe não merecem essa filha solteirona!
Aproveito essas últimas linhas para agradecer a você, mandatário, pela realização desse sonho. Mais que isso, pela libertação dessa alma atormentada de uma vida de recusas, condenações, frustrações e sofrimentos. Dessa humilhação eterna, a que estive submetida. Graças a você, posso acreditar de novo no amor, na felicidade. Não tenho mais um coração vazio. Se você for uma mulher, saberá entender a emoção que vivencio. Mas você pode ser um homem também, a lei não impede, e é o mais perto de um casamento gay que já podemos vislumbrar nesse país. Você encontrou (ou vai encontrar) alguém com quem eu possa dividir meus sonhos e planos. E meu sobrenome também. Seja meu padrinho ou madrinha, por favor. Honra maior não haveria. Espero que isso seja tão libertador pra você quanto pra mim. Poderei descansar em paz quando chegar a hora. E já me basta, por enquanto, a dignidade de poder encarar as mulheres casadas (grupo no qual você me incluirá) nas ruas de toda a cidade.

O(a) outorgado estará presente no dia da realização do casamento. A presente procuração terá validade por noventa (90) dias a contar desta data, conforme Artigo nº 1.542, Parágrafo 3º do Código Civil Brasileiro.


Obs.: não sei se chega a ser uma necessidade, mas é meio recomendável que meu amor compareça pessoalmente ou mande um procurador diferente de você em seu lugar. O Direito ainda não é pacífico sobre isso e, para que nenhum juiz, depois, destrua esse momento mágico, é melhor não arriscar!

____________________, ___ de ______________ de 20__
Com amor,

______________________________
De quem cansou de PROCURAR!


Texto postado aqui, e escrito para um trabalho acadêmico da disciplina de Direito Civil III (Contratos em espécie), em outubro de 2010.

Um comentário:

  1. super criativo, genial!
    adorei!

    vc só esqueceu de colocar o nome de quem realmente escreveu o texto né?
    nosa querida TITIA!

    hahaha
    bjs

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