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domingo, 28 de novembro de 2010

Boy Culture



Boy Culture é um filme de temática gay inspirado num livro (de mesmo nome) do autor Matthew Rettenmund, escrito em forma de diário por X, um garoto de programa bastante bem sucedido. X divide um apartamento com dois amigos, também gays: Joey, o mais novo e menos ajuizado, que não quer saber de estudar e reparte seu tempo entre boates, drogas e sexo com desconhecidos; e Andrew, o bom filho, bom irmão e bom moço, que, entretanto, cultiva (até demais) a “liberdade” em seus relacionamentos. Um garoto de programa, um desajustado e um “livre” vivendo juntos... as três únicas opções de futuro na cabeça de qualquer mãe de adolescente homossexual.
Resumindo muito a história, porque não é sobre isso que eu quero falar, como não poderia deixar de ser, numa casa repleta de homens – e, ainda, homens que gostam de homens – boa parte da trama gira em torno do triângulo amoroso formado pelos protagonistas. Joey sonha em ficar com X; X, por sua vez, nutre uma paixão secreta por Andrew; e Andrew, é claro, sente algo por X mas, adivinha!, transa com Joey. Como todo velho e bom enredo. Apesar do clichê, o filme é muito bom. Não é nenhum clássico, nem é tão bem feito, mas traz diálogos muitíssimo bem construídos, que conseguem pôr, de forma leve, temas pesados em discussão. Um exemplo disso é uma cena em que Joey massageia as costas de X e, entre braços, pernas e idéias, comenta rapidamente sobre as fases em que se divide a vida do homossexual moderno. A cena é legal exatamente por isso. O tema é jogado de forma rápida e pontual num contexto em que, a princípio, nenhuma reflexão seria importante. Já estão lá os três atores jovens, bonitos e descamisados, quem vai se ater aos detalhes? Parece ser essa a estratégia.
A frase, contudo, chamou tanto a minha atenção, que eu já nem sei mais se ela realmente existiu, nem quais palavras foram utilizadas. Só sei que embalei no raciocínio e não parei mais. Segundo Joey (ou eu!), a vida do gay divide-se em três fases apenas, contadas a partir da aceitação (que é a mais difícil e, às vezes, a mais longa).
A primeira e mais complicada é a imediatamente posterior ao fim de todas as crises existenciais, quando o jovem (nem sempre tão jovem assim) aceita que é daquele jeito – e não há nada que possa ser feito em relação a isso – e se põe a reformular seus sonhos e planos em busca da mesma felicidade de sempre, agora, num contexto só um pouco diferente. A mídia dá, todos os dias, exemplos de casais gays bem sucedidos, e ele passa a acreditar nessa possibilidade. Vê gente enfrentar e vencer o preconceito, vê a aceitação da família nas novelas... E, claro, se torna refém daqueles sonhos (que também são seus – e de todos). Porque ilusões e contos de fadas são sempre ilusões e contos de fadas, não faz diferença alguma o sexo dos envolvidos. O jovem, nessa fase, tem certeza de que encontrará o amor, e o procura em qualquer um que se aproxime. O amor da sua vida pode estar ali, em qualquer lugar, só a espera da atuação do acaso.
Depois de muito esperar, muito sofrer, e, principalmente, muito se decepcionar com as pessoas (e o mundo, e o amor...), ele escorrega pra fase dois. Não é uma evolução nem retrocesso, é um tombo. Uma hora, ele abaixa a cabeça pra chorar e descobre um mundo novo bem debaixo do seu nariz. Um mundo de festas, de boates, de muita gente desiludida bonita e desimpedida, louca pra distribuir e experimentar o amor em todas as suas formas... o mundo de Joey. É quando ele aprende a não criar tantas expectativas e a não esperar, das pessoas, nada além do que aquilo que elas podem/querem oferecer. Ele entende que nem todo mundo que te beija te ama, e que alguns beijos sem amor são quase tão bons quanto os com! Não necessariamente é a fase da promiscuidade, talvez seja só do desapego.
A terceira, finalmente, começa dentro da segunda, quando, de repente, numa festa qualquer, numa boate qualquer, num beijo qualquer, ele encontra algo específico. Algo diferente de tudo aquilo até então. E, de um hora pra outra, está de volta à primeira. Fica bobo outra vez, recupera seus sonhos (porque acredita ter encontrado, finalmente, alguém com quem os dividir), seus planos, e descobre que sempre esteve certo em acreditar no amor, mas precisou desacreditar pra perceber.
É claro que as fases podem se misturar e não necessariamente respeitam essa ordem. É possível pular uma e, principalmente, é possível estacionar também. Não sair do lugar.
Analisando assim, parece frio e seco, quase fácil de tão previsível. Será que isso é mesmo uma característica dos gays? Não é dos seres humanos não? Talvez esse processo seja mais visível entre aqueles pela própria separação social que os põe em destaque, mas o problema mesmo esteja na dificuldade que temos de lidar uns com os outros. É claro que o filme não dá nenhuma resposta e eu também não vou contar o final, mesmo porque não vejo muitas explicações para as relações humanas. Mas quanta gente não vemos por aí, perdida entre suas fases, se iludindo e decepcionando diariamente? E o que é que dizemos a elas? “Espere”, “dê tempo ao tempo”, “as coisas só acontecem quando a gente menos espera”, “isso é só uma fase... vai passar!”. Não posso discordar de Joey. A vida é mesmo um conjunto de fases, e essas três resumem bem o processo. E, sabendo disso, a gente só tem que viver! E esperar...
Ah, não! Quem ainda agüenta esperar?

Um comentário:

  1. O problema é que o verbo "esperar" não acaba, né? Ele é infinito. Não termina por si só. Se dependermos dele (o verbo), a vida será sempre uma espera: espera pelo momento certo; espera pela pessoa certa; espera pelo 'felizes para sempre'.
    Quem dá um ponto final nesse verbo somos nós.
    Então, amigo... aperta o 'continue' e be happy. =)

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