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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011

Talvez pela primeira vez na vida, eu termino um ano satisfeito. Nenhuma fração do tempo, por menor que seja, é perfeita, eu sei. Mas algumas conseguem ser o melhor que podem, e isso já é ótimo. 2010 foi assim.
Começou com um ano atípico. O tradicional período das férias, que eu dedicava sempre a refletir sobre a minha conduta e fazer planos pro próximo ano, foi todo gasto com guerrinhas de bola de neve, muito trabalho no ski rental e todas as excentricidades que compunham minha rotina nos EUA. Durante janeiro, fevereiro e boa parte de março, eu dividi casa, lindas fotos e muitos momentos bons com nove desconhecidos, vindos dos lugares mais diferentes do Brasil e, é claro, a convivência não foi tão fácil assim. Mas provavelmente foi esse o meu maior crescimento no ano. O que eu só perceberia em seguida, como estagiário numa repartição pública e, depois, servidor em outra. 2010 foi o ano da convivência.
Perdidas as férias, cheguei ao Brasil depois do carnaval, quando as coisas, há muito, já estavam acontecendo! Sem descanso, sem reflexão, meu 2010 começou atrasado, e precisei correr – muito – atrás do tempo perdido. Cheguei a dizer, várias vezes, que 2010, para mim, estava sendo um ano cansado. Emendei a agitação de 2009 (o pior ano da minha vida, como vivo dizendo) com o corre-corre de 2010 usando o período de transição numa – excelente – experiência que ainda me cansou mais. A vida aqui me exigiu muita atenção e disposição, o que foi muito difícil em grande parte das vezes, mas o resultado foi bem positivo. Um amigo me perguntou essa semana se eu já vivi algum dia de paz, porque a impressão que passo é de que tudo comigo é pra ontem e acontece ao mesmo tempo. E é isso mesmo, ou, pelo menos, foi assim esse ano. Não tive um dia sequer de paz, não fui dormir nenhuma noite com a tranqüilidade de não ter nada pendente pro dia seguinte. 2010 foi o ano da correria.
Meu objetivo diário – e ninguém acredita quando eu digo isso – foi um só: quebrar preconceitos. O objetivo maior da minha vida sempre foi o mesmo, experimentar de tudo, conhecer tudo! Mas, para 2010, especialmente, eu prometi vencer um preconceito todos os dias, e agradecer a Deus por isso antes de dormir, já que meu puritanismo me incomodava um pouco. E não contabilizo 365, nem poderia, mas muitas coisas importantes aconteceram graças a isso. Sem os meus preconceitos de sempre, dediquei especial atenção às pessoas. Permiti que se aproximassem, forcei-me a ouvir o que elas tinham a dizer antes de as rotular e esquecer. É óbvio que não gostei de todas elas, mas conheci muita gente legal desse jeito, e isso já valeu a pena. Cada novo amigo do twitter representa um passo a frente na minha busca pela tolerância. Cada e-mail trocado com algum desconhecido também, cada almoço com a filósofa, cada passeio com o perdido, cada hora de silêncio na companhia quase ausente da mal humorada. Talvez eu tenha aprendido a buscar o lado bom de cada pessoa, e dar menos atenção pro ruim. Porque ninguém é como eu quero, mas todo mundo tem alguma coisa legal pra me oferecer. É só estar atento! 2010 foi o ano da tolerância.
Abandonei a, antes tão prezada, idéia de uma boa reputação esse ano. Se, nos últimos 20, eu me esforcei em construir a imagem de um menino perfeito, no último ano, não movi um músculo para que ela fosse mantida. E ouvi, de quase todos os meus amigos, coisas como “nunca imaginei que veria você fazer isso”, “você não, não acredito!” e “onde está o Caio que eu conhecia?”, e a resposta é simples “você conhecia mesmo o Caio?”. Porque eu talvez não tenha me deixado conhecer antes. Talvez eu tenha me projetado tanto nas expectativas de todos, que acabei soterrando o Caio de verdade. Os desejos do Caio, seus medos... tudo maquiado na imagem do menino estudioso, tímido e educado. E eu acho que finalmente mudei a imagem que as pessoas tinham de mim – ou a embolei tanto, que ela talvez não exista mais, mas ainda careça de outra em substituição. Em 2010, eu fiz (quase) tudo o que quis fazer. Só que esse quase, pela primeira vez em muito tempo, é mais resultado do acaso que do meu comportamento mesmo. Posso me orgulhar por ter me permitido ser grosso, brincalhão, mal educado, ingênuo, apático, prestativo, antipático, eufórico, insensível... tudo o que eu sou realmente, sem me preocupar se isso afastaria ou não as pessoas. E ainda não me arrependo de nada. Afastei muita gente sim, mas aproximei outras, o que prova que não posso estar de todo errado. Esse ano, eu fui eu mesmo todos os dias, mesmo quando o Caio de hoje não teve nada a ver com o de ontem. Eu mesmo sou muitos. E nem eu mesmo conheço todos. 2010 foi o ano do autoconhecimento.
Se o que sempre me fez sofrer foram os fracassos da vida afetiva, em 2010, eu me descobri um bom solteiro. E não no sentido de “conformado” ou “indiferente”. Eu descobri é que não sei ser outra coisa que não solteiro, não consigo ser bom de outra forma. Descobri que o que me faz sofrer não é a falta de alguém, mas o quanto essa falta é cômoda na minha vida. Fiquei tanto tempo sozinho que é como se não quisesse abrir mão da liberdade conquistada. Eu me entendo tão bem, aceito minhas inconstâncias, tenho paciência nas crises, sei me esperar... E, principalmente, sei conciliar meu tempo (às vezes tão escasso) comigo. Em 2010, conheci pessoas maravilhosas, tive várias e muito boas oportunidades de namorar – e trocar correria e solidão por horas a fio ao telefone e passeios água com açúcar – e deixei passarem todas por puro egoísmo. Reconheci que não estou disposto a dar parte da minha vida a alguém, não estou aberto a esse tipo de coisa. Meus planos pro fim de semana geralmente incluem cama, sorvete, blog e todo o acumulado da faculdade... coisas que eu não posso (e, na verdade, não quero) trocar por um cineminha, uma pizza ou um passeio de mãozinhas dadas. Eu acho que quero meus dias inteiros, minha atenção inteira. Ninguém é capaz de cuidar de mim como eu. 2010 foi, decididamente, o ano do egoísmo.
Como não poderia deixar de ser (e é sempre), durante todo o ano, busquei centenas de coisas com que me ocupar. E o resultado já se refletiu na minha saúde, eu sei. Só que não posso terminar o ano sem reconhecer que consegui. Consegui fazer tudo aquilo a que me propus – com maior ou menor êxito, é claro. Trabalhei, viajei, comprei, (re)encontrei, sonhei, conquistei,conheci, falei, resolvi, beijei... E esse tipo de constatação é muito importante para quem se sacrificou tanto e por tanto tempo. 2010 foi o ano das realizações.
Nunca entendi esses votos de fim de ano: “feliz ano novo!”, “bom 2011”, porque, para mim, os anos são sempre iguais. O certo deveria desejar que você seja feliz em 2011, que você tenha sucesso no ano que se inicia, essas coisas... Porque o ano que vem é só mais um amontoado de meses e dias, igualzinho ao que se encerra. Não dá pra pôr nele a responsabilidade por ser melhor ou pior. Por isso, para 2011, eu só quero mais que em 2010. Mais convivência, mais correria, mais tolerância, mais autoconhecimento, mais egoísmo e muito mais realizações. Quero mais saúde também (que, em 2010, andou falhando), mais sossego, mais descanso, mais sol, mais vento, mais amigos por perto, mais fotos lindas, mais momentos inesquecíveis, mais inspiração, mais coração aberto, mais amor pra dar... E quero menos: menos distância, menos tristeza, menos pudores. Menos confusão na minha cabeça. Menos insegurança, menos medo, menos falsidade, menos preocupação.
Se 2011 for igual a 2010, já será ótimo. Mas eu tenho certeza de que será MUITO MELHOR!
Toda a felicidade do mundo pra nós!

Um comentário:

  1. É tão bom ver você falando assim!
    Que em 2011 essa felicidade continue!

    =)

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