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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Educação

Falta de educação me chateia. Há quem diga que eu não sou educado, mas isso é mentira. Sei que posso não ser muito doce, não ter muitas cerimônias e, às vezes, dizer coisas meio ácidas, mas educado eu sempre fui. São coisas diferentes. Até as pessoas desagradáveis podem (e devem) ser educadas, educação é o mínimo exigido pela convivência humana. Acho que vem antes até do respeito – porque sou educado até com quem não consigo respeitar. E me chateia muito a falta de educação de alguns.
Hoje, por exemplo, meus colegas de trabalho trocaram presentes de natal. Não foi nenhum amigo oculto, nada elaborado, mas cada um trouxe lembrancinhas para aqueles de quem mais gostam. Como não sou o preferido de ninguém, não ganhei nada, e isso é compreensível. Mas, em um certo momento, saíram todos pra almoçar. Passaram na porta da minha sala, um a um, e ninguém disse nada. Ei, Caio, você aí, com esses fones no ouvido fingindo não nos ouvir, venha aqui, por favor. Nada! Nenhuma palavra! Trabalhamos juntos há pouco tempo, não temos laços firmes ainda... compreensível? Sei (e não foi difícil perceber) que a maioria deles também não é amiga uns dos outros. E, ainda assim, saem juntos, por uma questão de convivência, uma questão de educação. Mas uma educação bem mínima, que parece não poder sequer ser repartida com alguém mais.
No banco, há alguns dias, eu era o segundo da fila quando dois caixas eletrônicos ficaram vagos ao mesmo tempo. Eu até poderia ter esperado o mongol à minha frente se mover para, só então, me dirigir a um deles, mas não precisava, precisava? Virei o corpo e iniciei o trajeto e ele me pegou pelo braço: olha, eu tô na sua fren... Não terminou porque viu os dois caixas vazios, entendeu o absurdo da sua atitude e – espero – se sentiu constrangido pelo meu olhar de fúria (compartilhado por uma meia dúzia mais de enfileirados). Quinto dia útil do mês, aquele tempo todo na fila... compreensível?
No ônibus, de manhã, uma barriguda estava de pé ao meu lado. Pensei um pouco, olhei bem, pensei mais um pouquinho, tornei a olhar e cedi meu lugar. É sempre tenso diagnosticar uma gravidez porque sempre pode ser apenas gordura e um equívoco assim é imperdoável. Ela parecia velha demais pra esperar um filho, mas a barriga era redondinha demais para ser apenas chope. Na dúvida, levantei. Devo ter me enganado e isso a ofendeu, porque ela se sentou e não se ofereceu pra carregar a minha mochila. Quando alguém cede a você o seu lugar (e aceita ficar em pé em um ônibus cheio para que você possa se sentar), o mínimo a ser feito em troca é se oferecer pra carregar as coisas dessa pessoa, não? Tem sido assim ao longo de toda a minha vida. E, especialmente neste dia, minha mochila estava pesada, e eu realmente gostaria que alguém a carregasse. Ela nem se abalou. De manhã, ônibus cheio, grávidas são emocionalmente instáveis... compreensível? Passou meio minuto, parou uma mulher ao meu lado e ela se ofereceu pra carregar sua bolsa. A bolsa de 250g de uma desconhecida, ela quis carregar. A mochila grande e pesada daquele que lhe ofereceu seu próprio assento, não, obrigada.
Ontem a noite, também no ônibus, mas, dessa vez, do lado de fora, fui surpreendido por outra delicada senhorita. Essa passou o braço na minha frente, de longe, tentando me afastar da entrada com os cotovelos, enquanto fazia cara de paisagem. Nós dois em pé de igualdade, esperando pelas nossas vezes do lado de fora do ônibus, até que ela decidiu ser a primeira e me empurrou. Tarde da noite, todo mundo cansado, um dia inteiro de trabalho... compreensível? E eu percebi o quanto esse tipo de coisa me incomoda quando me peguei comemorando, internamente, o fato de ela ser tão feia que jamais se casará. Como se isso resolvesse ou se feiura fosse pior que falta de educação.
Mas essas situações me tiram mesmo do sério. Eu fico nervoso, desejo o mal das pessoas. Suspeito, todos os dias, que seja capaz de tirar a vida de alguém num momento assim. Quero descer do ônibus, quero perseguir a pessoa na rua, quebrar suas costelas, cuspir na sua cara e gritar muito (bem doido de filme mesmo) enquanto isso. Educá-la, sabe? E é muito ruim saber que é assim. Desanima muito a certeza de que a tendência é apenas piorar. Dia após dia, as pessoas são menos educadas, menos atentas, menos pacientes. E a gente acaba acompanhando isso também, é inevitável. Além de muito triste, ainda que necessário. Não consigo acreditar que preciso ser grosso pra conseguir meu lugar e o respeito dos outros. Na verdade, eu consigo sim, eu só não quero. Só que eu não quero tanto, com tanta força, que é como se eu não conseguisse mesmo.

3 comentários:

  1. Tem situação que é revoltante mesmo, né?
    Minha irmã diz que Deus é muito sábio em não permitir que ela ande armada, justamente por causa de situações como essas.

    E adorei você pensar que a mulher é feia e nunca vai se casar. Hahahaha

    :*

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  2. Já passei por situações como essa dentro de onibus, é muito revoltante. Ainda bem que não sofro mais desse mal...

    Por isso eu sempre digo: Dai-me(MUITA) paciência, porque se me der força eu bato até matar!

    P.s.:As melhores partes são suas observações psicológicas!

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  3. muitíssimo bom esse texto, caio! gostei bastante... ;)

    ah, bora almoçar?

    hoho

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