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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Ariadna Thalia



Muita polêmica se formou em torno da décima primeira (!) edição do Big Brother Brasil pela presença de uma transexual na seleção desse ano. Ariadna Thalia, até onde se sabe, foi expulsa de casa pela família aos 14 anos, quando ainda atendia por Thiago, e apelou à prostituição para sobreviver nas ruas. Juntou algum dinheiro, implantou silicone, saiu do país e, por algum tempo, foi travesti na Itália, onde conseguiu reunir o que precisava para custear a cirurgia de mudança de sexo, sonho de toda a sua vida. Agora, de volta ao Brasil e vivendo como cabeleireira no Realengo, caiu, de repente, na tela das nossas TVs – e na boca do povo, é claro. A personagem mais comentada da história do programa foi eliminada ontem, no primeiro paredão (com quase 50% dos votos, o que indica uma significativa rejeição do público). E, em todos os círculos por que passeei, uma opinião prevalecia: ela devia ter contado! Parecia que o Brasil não a estava rejeitando por sua história ou condição, “não somos um país preconceituoso”, mas ela não contou! Ela devia ter contado!
Esperar que Ariadna começasse o jogo “contando logo o seu segredo” já é tratá-la com discriminação. Discriminar, no dicionário, é diferenciar. E o que seria isso se não uma diferenciação? O que fazia a Ariadna tão diferente das outras mulheres a ponto de precisar dar ao Brasil alguma satisfação assim, tão imediatamente? Por que ela precisava tanto dizer isso aos colegas de confinamento se ela não disse um tanto de outras coisas talvez tão relevantes quanto ou mais? Segredos, todos tinham. Ou a Maria chegou contando que fez filmes pornôs? O Rodrigo já disse que saiu pelado na capa da G Magazine? As gostosonas já contaram o que têm de natural e o que a medicina cuidou de providenciar? A Diana contou que é lésbica? Sim, ela contou, ontem, depois do discurso de eliminação da Ariadna, que falava sobre os tais segredos e a necessidade de os revelar, afinal eles já estão tão expostos, não é? Quem liga pra individualidade? Quem se lembra do que é isso?
Pessoas interessantes têm segredos. Não tem segredo a Janaína, que já deixou todo mundo saber logo que é “toda aquela animação” (e só), o Diogo, evidente e indiscutivelmente babaca, vai esconder o quê? É o mesmo que esperar que as pessoas contem que são gays. Oi, eu sou gay! Prazer. Por quê? Pra quê? Por que elas têm que contar? Alguém se apresenta como “oi, eu sou o Alberto, heterossexual, 30 anos, nascido e crescido com pinto, sem cirurgias plásticas”? O que isso importa para os outros? O que cada um precisa saber sobre nós?
O segredo dela era algum pecado? Por que ela estava “enganando” os outros então? O transexualismo era apenas um dos inúmeros dramas (talvez o último) de uma vida marcada pela, perdoem a palavra tão pesada, desgraça. Antes disso, houve a pobreza, a violência doméstica (já que seu próprio irmão admitiu ter batido muito no então Thiago por conta de sua orientação), a rejeição da família, a prostituição... A novidade dessa edição não tinha a alegria da Rogéria e isso é compreensível, fruto de um passado terrível.
Ariadna era, antes de tudo, uma mulher triste. E gay tem a obrigação de ser feliz no Brasil! Não foi assim que o Serginho conquistou o público na última edição do programa? Usando shorts, sorrindo, contando piada. A Nany People faz o quê? Stand up comedy! As comédias estão cheias deles, assim como os programas de humor. Talvez, se ela tivesse usado de seus conflitos para divertir os brothers, durasse mais tempo no programa – e sairia direto pro Zorra Total. Mas não. Ariadna não tinha um pingo da “alegria de viver” que o público espera de um integrante LGBT, como bem disse o Tony Goes na Folha. Os gays só são perdoados se utilizam sua sensibilidade a mais para divertir. Que absurdo ela ser transexual e não contar pra ninguém! Que absurdo ela ser transexual e passar horas e horas sentada, com cara de triste, olhando pro nada e se alimentando de sua própria melancolia. Melancolia, gente! Como assim? Que absurdo ela ser transexual e levar aquela vida normal, como se fosse uma pessoa comum!
Dizem, agora, que ela mentiu para se proteger. E essa é, provavelmente, a melhor interpretação que sua participação poderá ter. Agora, imaginem se ela tivesse feito o contrário. A partir do momento que se assumisse transexual, todos os olhares a ela lançados seriam diferentes. Por curiosidade ou preconceito, tanto faz, as pessoas passariam a medir, calcular e examinar atentamente seus movimentos e seu corpo. Todo e qualquer passo seria minuciosamente acompanhado, e isso é natural quando se trata de seres humanos. Eu mesmo teria centenas de perguntas a fazer a uma transexual. Ariadna estaria perdida se me desse uma gotinha de intimidade. Sério. É diferente, mas no sentido de incomum. Causa interesse, não espanto.
Mas acho que o que ela pretendia, antes de tudo, era conquistar o carinho das pessoas como Ariadna Thalia e ponto final. A mulher triste e desbocada, agitada e melancólica, e não simplesmente a transexual dessa edição. O que ela quis foi mostrar, antes da transexualidade, a sua doçura, a sua fragilidade. A pessoa que precisa de carinho – e merece tanto! Por isso, as perguntas do tipo “você faria sexo comigo?” ou “o que você pensa de mim?”, que tanta gente não entendeu. Ariadna quis mostrar seu presente antes de contar o passado de que tanto se envergonha. Quis ter o transexualismo como característica e não definição, rótulo. Ser a Ariadna transexual e não a transexual Ariadna. Títulos (e isso se aplica a “viúva”, “gorda”, “viado”) pressupõem (com ênfase no “pré”) comportamentos e interpretações quando postos a frente do nome daquele de quem se fala. Frases iniciadas por termos assim já preparam o ouvinte para o que virá, seja o que for. E, coitada, esse foi seu erro, porque é disso que o Brasil gosta! Infelizmente, para se manter e chegar perto da final, ela teria que se apresentar como Thiago, fazer brincadeiras com o Ronaldinho, contar bastante putaria do passado quando bêbada nas festas e se jogar em cima dos homens. Tudo isso, claro, entre muitos sorrisos, simpatia e risadas. Um híbrido de Bruna Surfistinha com Vera Verão. O Brasil queria choque.
Mas não. Ela quis ser ela mesma, achou que poderia... Bial disse, e todos sabemos, que transexual é aquele que se crê de outro sexo. É o homem que se sente mulher, a mulher que se sente homem. O Thiago que se sente Ariadna e, de tanto se sentir assim, talvez não veja necessidade de contar sua história, explicar seu passado. O Thiago que sempre foi Ariadna e, hoje, mais do que nunca, se sente preparado pra viver dessa forma, sem reviver nada.
Marcelo Arantes, ex-bbb e médico psiquiatra, disse, em seu perfil no twitter, que o Brasil eliminaria aquela que, talvez, maior transformação positiva pudesse tirar do programa. Tirou da minha boca, mas eu digo mais, o Brasil eliminou, ontem, foi a sua própria e melhor chance de crescer como país. De acompanhar, passo a passo, o dia-a-dia de um homem que virou mulher e, quem sabe, perceber, no fim desses três meses, que não era nada do que esperava. Não é o fim dos tempos! Ela não faz xixi em pé, não tem pêlos no peito, não devora criancinhas, nada do que se espera das aberrações. Ela gosta de festa, dorme até tarde, fica bem mais bonita quando maquiada, sente saudades de uns, carinho por outros e indiferença por um tanto de gente. Que comum... Quase sem graça! Parece até uma mulher de verdade.
Ariadna perdeu o premio milionário. O Brasil, junto, perdeu o workshop de igualdade, o banho de tolerância, a oportunidade de aceitar (já que entender é difícil, sabemos) mais um grupo de seres humanos. E só quem saiu ganhando foram os outros participantes. Eles mesmos, os outros 16 confinados, que, desconfiando ou não, viveram a experiência que eu queria que os brasileiros vivessem. Os “enganados” que caíram na “mentira” da “transexual secreta” e conviveram, por uma semana, com uma mulher qualquer sem saber o turbilhão que ela representava. Eles, que tiveram que gostar ou não dela por características que não a história do seu corpo. Que foram privados da oportunidade de formular pré-conceitos. Que a viram dormir e acordar, cozinhar, comer, falar, sorrir e ser triste. E, talvez dessa forma, tenham aprendido a ver os seres humanos com outros olhos. Eles que conheceram a Ariadna que nós não quisemos conhecer. E que, espero, levem isso para suas vidas.
Todos nós deveríamos ter uma Ariadna por perto!

2 comentários:

  1. Concordo com o texto inteiro. Ali era o único lugar em que ela poderia tentar ser quem ela realmente é, sem ter que se explicar sobre o passado. Mas é uma cobrança tão grande para confessar, como se ela nos devesse explicações.
    Realmente, um grande vacilo a eliminação. Vamos agora com mais 3 meses de programa com mulher bonita e homem sarado, discutindo sobre o nada. Porque isso é que é normal, né?
    =(

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  2. Não sei nem o querdizer ate porque voce disse tudo... sou pai de familia e O brasil precisava de Ariadna... ja estou esperando a casa de vidro e vou leva minha familia la... para votar nela e mostra para o brasil quer ela igual a quer pessoas.

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