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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Cartas do Amor não Lido


Acabei de ganhar um caderno no mínimo estranho. Um amigo alugava uma casa há anos para uma família completamente desconhecida. Eis que, agora, a família mudou-se e devolveu o imóvel. Saudosista, ele voltou imediatamente ao quarto onde foi criado e, remexendo em suas gavetas, encontrou uma carta de amor endereçada a Rodrigo com data de 2004. Rodrigo é o mesmo nome escrito nas contas esquecidas na caixinha de correio.
Então devia ser esse o nome dele, Rodrigo...
Muitas declarações de amor, palavras bonitas e erros ortográficos escabrosos e imperdoáveis. Duas páginas do amor mais juvenil possível. Até que chega a assinatura, VINÍCIUS. Uai! Rodrigo e Vinícius? Hora da expedição! Fomos em três, abrimos a casa (escura e desabitada, como nos filmes – o que muito me apavorou), corremos pro quarto, mais diretamente para o guarda-roupa, e nos pusemos a folhear. Rodrigo recebia muitas cartas: Vinícius, Rafa, Vanessa... Vanessa principalmente. Em uma, ela, cheia de mel, assina como irmãzinha Vanessa.
De repente, um caderno. Capa preta, 96 folhas, alguns lembretes sobre número de oxidação, uma carta em inglês traduzida dezenas de vezes (parece Para Casa, só que dessas escolas mnemônicas) e muitas – MUITAS – cartas de amor para uma Vera. Cartas pesadíssimas, apaixonadíssimas. Todo o amor do mundo em palavras. E AMOR assim, em maiúsculas! Amor mesmo. Quase obsessivo. Mas como seria possível? Rodrigo namorou Vinícius em 2004 e amava Vera com toda essa intensidade em 2005? Falando em data, as cartas são todas de 2005, mas a disposição do caderno não segue a ordem cronológica. E como é possível escrever cartas num caderno sem ser em ordem cronológica? Você salta folhas e volta depois? E não são só cartas, há bilhetes, recortes de jornal, tudo! Parece mesmo um livro de algum psicopata que reunia informações desconexas sobre algum amor alheio.
Cheguei a pensar que a dona no caderno fosse a tal Vera, que reunia todas as cartas de amor, mas não faz sentido porque algumas das cartas foram anexadas, mas a maioria foi realmente escrita no próprio caderno. Rodrigo escrevia, por algum motivo, cartas freqüentes para sua amada Vera, mas não enviava nenhuma (ele nem arrancava as folhas da grande maioria). Que história bonita! Só que eu comecei de trás pra frente. Vamos pro começo do caderno então.
Capa preta, folha em branco, outra folha... WICCA. Opa! Uma folha em branco com essas cinco letras em caixa alta no centro da página. W I C C A.
Ai, gente, não mexe mais nisso, Rodrigo era Wicca e esse povo mexe com energia. Eu tenho medo!
Na página seguinte, conceitos wiccas transcritos. Deusa, mãe, demônio... Medo, medo, pavor! Algumas páginas em branco e as cartas. Em uma das primeiras, assinatura “da sua amada”.
Mas esse Rodrigo é esquisito demais. Será que era pseudônimo? Será que Rodrigo era um escritor? Mas escrevendo “agente”? Não, não é possível!
Poucas páginas adiante, na “minha primeira carta para meu primeiro amor”, destinatário repetido, mas remetente (finalmente) revelado: VANESSA.
Mas como, gente? A Vanessa que escrevia pro Rodrigo, que recebia cartas do Vinícius, é a mesma que escreveu tanto pra Vera? Mas quem morou aqui afinal? Que relações mantinham essas pessoas entre si? Será possível um mesmo guarda-roupa ter pertencido a um Rodrigo gay em 2004 e a uma Vanessa lésbica no ano seguinte?
Estou com bastante medo, confesso. O wicca me assustou muito e está sendo um esforço sobre-humano levar o caderno pra casa. Sim, ele está aqui comigo enquanto digito essas palavras apressadas no banco de trás do carro do meu amigo, que, se divertindo com meu indisfarçável interesse nas cartas, me presenteou com elas. Internamente, não para de me ocorrer a idéia de esse povo estar todo morto e assombrar minha casa, meu quarto e minha vida. Mas como jogar isso fora? Como fingi que não entrei nisso? Como ignorar tanto amor, ainda que alheio e desconhecido?
Outra preocupação é com a psicopatia latente impossível de ignorar. A única explicação possível, na minha cabeça dramática, é claro, é psicopatia. Obsessão pura e simples! Só que essas coisas passam, né?! Essas cartas vão roubar minha alma e eu vou ficar doente também. Vou ler e reler, emagrecer, chorar, e sair por aí, seguindo a Vera, pra que ela saiba de uma vez por todas o quanto fez sofrer a pobre Vanessa. Ou eu vou procurar a Vanessa e a convencer a lutar mais uma vez por esse amor, ainda que seis anos depois. E Vanessa era psicótica mesmo. Em alguns trechos, pede desculpas pelas insistentes mensagens, pelos telefonemas, pela falta de noção...
Ai, são tantas perguntas! Tudo o que sei é que já tenho uma nova paixão. O amor entre Vanessa e Vera é, agora, meu também. Vou desvendar e viver esse amor como num filme. E vou fazer um filme depois, ou livro talvez. Uma história assim merece. E merece também um final emocionante (se é que já não houve, sei lá, um assassinato ou suicídio...).
Na verdade, eu queria era encontrar a Vanessa. Queria olhar pra ela. Queria falar...
Ai, meu Deus! Tá vendo? Já comecei a pirar...

3 comentários:

  1. O que mais me apavora nessa história não é o Wicca, nem mesmo esse quadrilátero amoroso que você descreveu.
    O que me apavora MESMO é o fato de você conseguir escrever tão bem, formular um texto tão envolvente, sentado num banco de trás de um carro.

    Sério, Caio. Sai da internet e vai escrever um livro.
    =)

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  2. Terceiro voto! Tardio mas acho que ainda válido, né?!
    Seu texto definitivamente me envolve!

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