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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Ei, moço!

Achei um telefone na rua hoje. Não exatamente na rua, na agência do Banco do Brasil perto do meu trabalho. É um aparelho velho, todo arranhado e sem grandes informações. A foto da tela é de um bebê (bem como todas as salvas na memória), a agenda é minúscula e as mensagens e ligações são de e para números não listados na agenda. Como se o dono soubesse tudo de cor ou tivesse outra agenda e usasse o telefone apenas para fazer as ligações.
Suspeitei mesmo que fosse um desses chips cheios de bônus, mas a última ligação foi a cobrar, então...
Já sei que o dono chama Filipe (com i) e tem uma mãe muito nervosa e, juro, gaga! Tão gaga, mas tão gaga (e tão nervosa quando me ligou, porque ele não dava notícia já há algum tempo), que eu pedi que ele me ligasse depois porque era impossível entender o que ela dizia. O Silencioso dele chama "Na Moita" e isso é babaca, mas me fez rir um pouco.
Sei que vou entregar o celular pra ele, virar as costas e ir embora. Tenho uma amiga de ponto de ônibus e isso já é suficiente. Não vou conversar, contar casos nem fazer amizade... Mas confesso que adoro saber muito sobre pessoas desconhecidas - talvez mais que sobre as que conheço mesmo.
Imaginar é tão melhor que descobrir. Já sei que ele se chama Filipe, como disse, que vai emprestar seus materiais da Faculdade prum amigo, que tem um flerte com um número "desconhecido", mas "se amarra" nos peitos da "menina da aula de química"! Sei que ele não tem o telefone de casa nos contatos, nem da mãe, mas anotou o da Paróquia São José.
Daqui a pouco, ele vai me ligar, vamos marcar um lugar, um horário e eu direi a roupa que estarei usando. Tipo em filme mesmo. Nosso encontro não deve durar mais que dez segundos. Ele vai vir até mim, pegar o telefone, agradecer duas ou três vezes e, por trás de um sorriso congelado e aquela cara de "não foi nada", algo dentro de mim, às gargalhadas, vai analisar cada centímetro dele com base nas informações coletadas. Pode parecer que não tem graça, mas tem. Talvez eu só não saiba explicar.
É como conhecer alguém pelo caminho inverso. Que, claro, só comprova as falhas do tradicional...

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