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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

I Born This Way

My mama told me when I was young
We are all born superstars… - Lady Gaga
A minha não, Lady Gaga. O que a minha mãe me ensinou, desde cedo, foi que nascemos todos iguais, mas alguns, os maus, decidem ser diferentes depois de grandes. Que alguns não têm estrutura familiar e, por isso, entregam-se às drogas. Outros, doentes e pervertidos, que cultivam a dor e não têm amor próprio nem se dão ao respeito, têm relações sexuais (e alguns até vivem!) com pessoas do mesmo sexo. Há, ainda, os que não aprenderam princípios e, hoje, estão presos ou são procurados pela Polícia... E, claro, os piores de todos, a raça mais nojenta, pecaminosa e perigosa que existe, os que a gente deve evitar ao máximo e não ter por perto nem por obrigação: os que não se importam com nada disso. Minha mãe me ensinou que esses menos iguais a gente deve ignorar. Não podemos destratar, humilhar nem nada disso, mesmo porque a vida deles já é desgraçada que baste. Mas não devemos trazer pro nosso convívio. São pessoas doentes, coitadas, não as devemos culpar jamais. Só não podemos é compactuar com esse tipo de coisa.
Aprendi que devo sentir muito por essas pessoas, muito mesmo, mas só isso. Aquele compadecimento distante, sabe? Eu aqui, você aí. Mas meu coração cheio de pena, porque é só pena o que os desviados devem despertar nos iguais. E, se você quiser mudar sua vida, sair desse inferno e buscar um mínimo de dignidade, eu devo ajudar. Esse é o preço pra você se aproximar, querer mudar. Reconhecer-se inferior e buscar a igualdade (e a pureza) com os iguais. Caso contrário, distância!
E distancia também de quem aceita isso. Quem concorda, quem tolera, quem tem mais com que se preocupar. Porque o diferente é um doente, coitado, mas os demais não. Agora, o normal que convive bem com isso, de certo não presta! Esse deve ser punido com a mesma segregação. Diga-me com quem andas, e eu te direi quem és. Quem, aos porcos se mistura, de farelo se lambuza. Se Deus te deu a glória de nascer igual, você deveria usar esse dom pra converter os outros e não se misturar a eles. É muito egoísmo seu deixar que eles sejam como são, como querem ser. O seu dever é ajudar. Ou se afastar.
Meu pai tinha opiniões parecidas, mas preconceitos mais variados, eu acho. Reclamava por eu andar com meninos ricos. Tinha que ser lé com lé, cré com cré. Estudei em boas escolas e boa parte dos meus colegas sempre teve melhor condição financeira que eu, o que meu pai não conseguia aceitar. Dizia que eu devia andar com pessoas da minha classe, ainda que eu precisasse procurar por elas. Deveria localizar os mais pobres, pesquisar a renda dos pais das crianças. Os gays, ele sempre apreciou. Diz que são bons em tudo o que fazem porque são gays e precisam compensar essa falha de algum modo pra sociedade. Uma forma doce e admirada de discriminar. Eles não são simples defeituosos que corrompem nossa sociedade. Eles têm, pelo menos, consciência da vergonha que representam e buscam, sempre que possível, compensar isso de alguma forma. Meu pai também era bastante machista, mas minha mãe sempre foi mais...
Não sei, Gaga, se o mundo é feito mais de mães como a sua ou a minha. Pela quantidade de adolescentes que suicidam todos os dias e de crimes de violência cometidos contra os que nasceram diferentes, receio que a minha esteja ganhando, mas confio em você pra mudarmos essa realidade nas próximas gerações. Não acho que seja esse o novo hino gay como você prometeu e a mídia ventilou, mas, sem dúvida, mais que uma boa música dançante, é um passo na construção dessa igualdade com que sonhamos, desse mundo onde as pessoas possam nascer e ser como realmente são – o que seria lindo se fosse mesmo redundante! Quem sabe cantando, as pessoas não assimilam a sua mensagem...
You are on the right track, Baby.

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