Páginas

sábado, 19 de março de 2011

Believe

Uma vez, disse a um amigo que, se, um dia, talvez, eu decidisse tatuar algo no corpo, seria a palavra “Believe”. Assim mesmo, em inglês, como se “acreditar”, em português, já não fosse suficientemente barango. Não vi seus olhos, mas imagino uma expressão de mínimo espanto, absolutamente justificável. A conversa foi breve e eu não pude explicar, e nem o saberia fazer se precisasse, mas acho que, na verdade, esse apego a essa palavra é herança de uma outra amiga.
Certa vez, ela desistiu de tudo, deitou na cama e decidiu não mais se levantar. Ninguém entendeu – e eu não entendo até hoje –, mas, por alguns muitos motivos acumulados, ela chegou à conclusão de que não agüentava mais e não quis insistir. Entrou pro quarto, fechou a porta, deitou e ficou esperando. Fui visitá-la e ela sequer descobriu o rosto para me ver. Em poucas palavras, disse que não queria mais nada, que estava cansada e tinha desistido, e que ficaria ali deitada “até que tudo acabasse”.
Conversamos por horas e horas. Por mais bonita, inteligente e abençoada que ela seja (e sabemos que é), nada disso é suficiente numa hora dessas, nem serve de argumentação. Ela estava decidida e eu não sabia o que dizer. Fui embora desiludido, sem muitas esperanças, bolando planos mirabolantes para uma segunda e desesperada tentativa. Em casa, descobri que ela havia se levantado. Tomou um banho, vestiu-se, tirou uma foto daquele momento (que eu tenho gravada na memória e da qual sempre me lembro) e, num post lindo, decisivo e mais que suficiente, escreveu apenas “a gente tem que acreditar!”. São dela a frase e um dos meus blogs prediletos.
É isso o que me levanta da cama todos os dias desde então. A frase é curta, mas tão profunda, que são inúmeros os efeitos e interpretações que me causa. A gente tem que acreditar. Só isso. E é isso o que eu faço, eu acredito.
Voltando de Niterói, no carnaval desse ano, li um texto sobre crenças e fé e questionei esse meu “acreditar”. Afinal, só o que faço é acreditar, mas em que é que eu acredito? Nunca tinha levado em conta esse ponto, essa transitividade do verbo. Meu “acreditar” era o dela, o intransitivo, a obrigação, o dever para comigo e com a vida.
Não acredito em vida extraterrestre, nunca acreditei. Sei que muita gente não acredita e isso não será espanto pra ninguém, mas é que, como comecei falando de amigos, tenho um em especial que acredita. Viaja pra “procurar” ETs, lê sobre isso... E o assunto é pauta constante nos nossos muitos e divertidos encontros. Se existe vida em outro planeta, eu nunca saberei, mas, sinceramente, pouco me importa. Sejam felizes por lá, que tentaremos  ser felizes aqui. Não me preocupo com eles e acho que eles também não se preocupam com a gente. Torço pra que essa necessidade de controlar e saber tudo seja característica apenas dos humanos.
Não acredito em espíritos, diferentemente de duas grandes amigas e muitos parentes. Acredito em reencarnação, não acho que nascemos, morremos e acabou. Mas, na minha limitação, imagino dois mundos, o dos vivos e o dos mortos, sem nenhuma interseção ou ponto de encontro, amém. Não me permito acreditar que eles andem entre nós, visitem nossas casas, mandem recados ou persigam um ou outro, menos forte ou mais aberto. Por ouvir coisas a respeito, tenho um pouquinho de medo (de escuro, de barulhos, de passos, de casas abandonadas...), mas nada fora do normal. E respeito as crenças e possessões individuais. Sou um incrédulo medroso. Se chegar a uma mesa e alguém disser que há um espírito numa das cadeiras, fico em pé, mas não me sento. Não acredito de jeito nenhum, mas também não faço graça!
A principal crença que me falta, talvez, seja nos vivos. Não acredito nos homens. Parece drama, mas não acredito nem no amor. Não acho que sejamos monogâmicos, fiéis, nem mesmo leais. Não consigo me entregar e confiar, acreditar cegamente em ninguém. Nunca consegui. E, a quem diz que o amor transforma, respondo que ele sequer existe, e, ainda que existisse, não acredito em mudança também. As pessoas não mudam, nunca. Elas mascaram coisas, destacam outras, se adaptam. Mas permanecem intactas por dentro, só esperando uma brechinha pra voltarem a ser como antes (e como sempre).
Talvez eu só acredite em mim mesmo. E em cada um, desde que este também acredite em si. Eu acredito é na força. E não a força do amor, nem da humanidade. A gente tem que acreditar... na força da (nossa) vontade!


3 comentários:

  1. Cara! A sua prosa é muito boa de ler! Nem se sente as linhas passando. =)

    ResponderExcluir
  2. Quando tiver oportunidade e vontade, assista o filme Edukators (Os Educadores); é um filme alemão.
    Vi no cinema há muito tempo. Tenho o DVD. Lembrei dele por causa de uma frase desse seu post. Não vou dizer qual a frase pra não atrapalhar, caso assista o filme.

    Não crie expectativas em torno do filme por causa disso, apenas assista.
    abraço.

    ResponderExcluir
  3. Mais um post excelente. Daquele que nos faz pensar.
    E faltou colocar o link pro tal blog, né?!

    ResponderExcluir