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quarta-feira, 2 de março de 2011

Bruna Surfistinha

Quem não viu Bruna Surfistinha ainda, eu aconselho a correr pro cinema o quanto antes. Estreou na semana passada, eu sei, mas sou craque em esperar até o filme sair de cartaz e não ver... Não é o melhor filme da temporada – nem de longe –, mas tem um quê de imperdível sim. Além de ser um filme nacional diferente da maior parte do que vem sendo feito por aqui. Deborah Secco, sozinha, já vale o ingresso e torna cada cena especial. Um pouco por passar quase o filme inteiro só de calcinha (e arrancar suspiros dos rapazinhos das sempre cheias salas de cinema), e, principalmente, pela interpretação sensacional. A atriz compensa as fraquezas do roteiro e faz, de cada passagem, um filme novo.
Além da história instigante da menina de classe média que larga tudo e se torna garota de programa, fui especialmente atraído por uma crítica de divulgação que li na seção Cinema do portal Uai. Segundo o texto, que trazia passagens de entrevistas da atriz e do diretor, o filme não era pornográfico, não era sobre sexo, nem exatamente sobre prostituição. A intenção era, a princípio, ainda que por meio do sexo e da prostituição, contar a história da busca de uma menina por si mesma, de uma adolescente perdida tentando se encontrar. E esse é sempre o meu tema favorito. Tentar se encontrar é o nosso enredo mais comum...
Um dos cartazes do filme (são 5 no total, um melhor que o outro) diz algo como “traga seu namorado, sua mãe e seus amigos, só não traga preconceitos” e é essa mesmo a imagem que fica. Deborah Secco, que eu não me canso de chamar de “brilhante”, disse ser essa a sua verdadeira estréia no cinema. E que, com a Bruna, aprendeu a não “julgar”. Não sei como se chama aquele prêmio brasileiro de cinema, mas ela já é, sem dúvida, a minha favorita. O filme, não. É um filme bom, tem passagens divertidas e momentos de emoção, faz rir, chorar e pensar, como todo filme bom. Tem muitas e fortes cenas de sexo, de inquestionável qualidade, que se tornam imprescindíveis pra construção do universo da Bruna profissional.
A minha questão com o roteiro é mera quebra de expectativa. Talvez pela crítica lida ou pela admiração já nutrida pela atriz principal (uma das melhores dessa “nova” geração, na minha opinião), fui ao cinema esperando justamente por uma viagem psicológica. Um filme intimista que mostrasse a Bruna menina, a Bruna sozinha, a Bruna melancólica. E isso aparece, é claro, mas não como eu esperava e acho que poderia ser feito. E o que eu mais gosto na atriz é exatamente a capacidade que ela tem de ser angelical e devassa ao mesmo tempo e ir de um ao outro em instantes, com uma rodada de cabelo e um sorriso diferente.
Não sei explicar o efeito causado, mas é como se o sentimento do filme não tivesse me envolvido. A Deborah envolveu o tempo inteiro, mas a cena mudava e terminava o transe. Eu voltava à estaca zero, vinha outra seqüência, outra emoção, outra entrega, e tudo acabava outra vez. Quando falo em envolvimento, quero falar de Cisne Negro, por exemplo, filme que terminei de assistir com a respiração ofegante e todo arranhado, que me deixou tenso e cada vez mais tenso, sem relaxar nem por um instante. Bruna Surfistinha me deixou distrair às vezes, perdeu minha atenção, não conseguiu me roubar de mim – e eu fui pra me emprestar...
O drama da Raquel, a menina que larga tudo e se torna Bruna, não pode ser jamais resumido como a “busca de uma menina por si mesma”. É muito mais que isso. Buscando a nós mesmos, todos estamos, dia após dia. A gente corta o cabelo, a gente muda de turma, chora, grita, viaja, cria um blog... mas a gente está sempre se protegendo. O vazio que ela sentia é, no mínimo, muito maior que esse, que o meu e que o seu. Ou o juízo dela faltou e foi isso. Porque a impressão que fica é de que o que ela quer é se expor, se arriscar. Quer se sentir bonita e desejada, ter dinheiro, mas por meio da exposição, da comercialização do corpo, da sujeição às mais diversas e difíceis situações. Ela quer se tratar no choque. Assusta-se e nos assusta com sua segurança e firmeza. E se mostra uma menina forte e determinada. Por muito menos, muitos de nós voltariam atrás. É fria, racional, e o filme não conseguiu intercalar isso com a doçura que o ursinho de pelúcia representava. A menina assustada e carente e a mulher decidida e melancólica não se alternaram bem.
E uma história cheia de sensações e sentimentos manteve tudo isso do lado de dentro da tela. Pouca coisa extrapolou e chegou à platéia. Não dividiram com a gente o barulho. Ninguém pôde viver a Bruna como a Deborah...

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