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quarta-feira, 2 de março de 2011

Meu pai e meu... tio!

Meu pai sempre quis que eu fosse mais independente. Minha mãe, por sua vez, queria a total e completa dependência, porque acho que é quase “natural” das mães querer manter as crias sempre por perto. Então, quando eu queria algo de “gente grande”, pedia diretamente para o meu pai. Quando era ser mimado e indefeso o objetivo, recorria à mamãe. “Pai, me deixa”, “pai, me esquece”, “pai, to indo!”; e “mãe, me busca”, “mãe, me leva”, “mãe, me dá!”...
O papel do bom filho é adequar os pedidos à autoridade mais conveniente. Isso se chama “negociação” e é uma arte. Martha Medeiros diz, em seu texto “Tirania Familiar”, que “divisão de tarefas é repartir nosso lado tirano”. Há sempre um mais tirano que o outro. E o que nos obriga a conviver com isso é, unicamente, o reconhecimento da importância dessas figuras e papéis no nosso desenvolvimento.
Não acho que isso seja importante pros pais, mas, para a criança, com certeza, é muito. Eu, por exemplo, cresci acreditando que meu pai era tirano e, minha mãe, um anjinho, e era engano. Na verdade, os dois eram monstros terríveis, mas dividiam entre si as competências. Meu pai era o tirano das coisas grandes. Não me deixou fazer teatro, não me deixou pôr piercing (nem pintar o cabelo de verde, numa época em que eu decidi querer ter o cabelo verde), não me deixou viajar para os Estados Unidos sozinho. E, pra mãe, restavam as coisas menores e (muito) mais recorrentes: dormir sem tomar banho, matar aula, trocar o almoço pela sobremesa. Por isso, ela, coitada!, dizia mais “nãos” que ele (eu sei o quanto!) , mas sempre com aquele jeitinho doce de quem “só quer o meu bem” e vai impedir antes que meu injusto pai impeça aos gritos.
Outra coisa que contribui muito pra isso é o quanto os pais conhecem seus filhos. Meu pai deixava o dia-a-dia pra minha mãe, porque não sabe discutir e me viu crescer batendo boca. Minha mãe corria das “decisões sérias” porque sabia que proibir não era tão simples assim – pelo menos, não no meu caso. Então, tentava ganhar tempo enquanto eu (não) discutia com meu pai, enumerando argumentos frente sempre ao mesmo “não”.
Agora, em pleno século XXI, caminhamos a passos largos em direção à legalização do casamento gay e da adoção homoparental. Quando acontecer, finalmente, será, sem dúvida, uma evolução necessária e benéfica na legislação brasileira que, antes tarde do que nunca, começa a reconhecer que a estrutura familiar evoluiu e o Direito não fez o menor esforço para acompanhar. Mas, do ponto de vista de um filho teimoso, deixa dúvidas imensas e aparentemente sem solução.
O que me assusta num casamento gay é exatamente a questão da autoridade. Um filho de casal homoparental já é naturalmente “confuso” pela ausência da figura materna ou paterna. Talvez isso seja senso comum, mas acho (mesmo) que há, em toda mãe, um acolhimento natural, um cheirinho de compreensão, um colo macio e aconchegante. Enquanto isso, cada pai traz, na sua aparente falta de jeito, uma boa dose de segurança, confiança e proteção. Essas crianças terão, em vez das duas coisas, equilibrando-se dentro do possível, duas de cada, que precisarão se amenizar e desdobrar para preencher o vazio deixado pela outra.
Agora, imagina se, por exemplo, um pai for legal e, o outro, um “filho da puta”? A criança vai querer, em um certo momento, ser filha de um deles apenas. Eu tive pai e mãe e, várias vezes, quis que um deles desaparecesse!
Vamos, pai. Deixa esse mala sem alça aí e vamos embora, arrumar uma mãe bem legal pra mim!
Imagina uma casa com duas crianças e dois pais. Um que jogue futebol na sala (peeenalti!!!), quebre os porta-retratos com as bolas de meia (ninguém pisa descalço aqui, papai vai sumir com esses caquinhos rapidinho), ache “engraçado” crianças gangorrarem nas cortinas (esse é o meu Tarzan!), e outro, um pouco mais centrado, que preze coisas chatas como refeições a mesa (NUNCA no sofá!), quartos arrumados (que tanto de brinquedo é esse aqui no chão?), cooperação na limpeza (a senhorita está esperando seu prato voar até a pia?), ou, sei lá, apego a formalidades como horário para ver TV e pra fazer as lições de casa (que saco, pai!). Como viver numa família assim? Como chamar os dois de pai?
Como posso ter dois pais e eles serem tão diferentes?
Pai, me compra uma mãe?

6 comentários:

  1. Tsc tsc...
    Se você pensar bem, esse conceito de crescer sem uma das figuras não é exclusivo dos casais homossexuais. Olha meu caso, por exemplo. Nunca tive a figura paterna. Minha mãe teve que ser os dois. Ao mesmo tempo em que ela era amorosa e acolhedora, tinha que ser firme e falar os 'nãos' que caberia a um pai.
    Isso deu um nó na minha mente? Claro que não! A criança é acostumada com aquilo que ela tem. E pode ter certeza que, por mais que o pai que joga bola na sala possa ser mais legal, a criança também vai precisar e sentir falta do pai 'pulso firme'.

    Resumindo, eu e mais meio mundo somos o exemplo vivo de que não é necessário ter o homem e a mulher dentro de casa para que a criação dê certo.
    ;)

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  2. Ei, Flávia! Você sabe que eu adoro seus (sempre presentes e importantes) comentários aqui e nunca respondo nada porque geralmente assino embaixo. Dessa vez, entretanto, eu quero me explicar. Não foi minha intenção associar “pai e mãe” a “família estruturada”. Nem poderia ser, porque, como você, conheço centenas de pessoas que tiveram um só e não permitiram que isso lhes prejudicasse o desenvolvimento. Enquanto outros tiveram pai, mãe, avós, irmãos, babás e tudo mais sem, no entanto, tirar proveito mínimo de toda essa “estrutura”.
    Nem acho que um casal gay não seja capaz de dar um lar para uma criança. Conheço casais gays muito mais aptos à adoção que muitos casais héteros, você também deve conhecer. O que eu quis dizer, e, talvez, não tenha explicado bem, é que, inquestionavelmente, na minha opinião pelo menos, isso embaralha a cabeça da criança. Claro que não pra sempre, nem de forma irreversível, mas um pouco com certeza. Não exatamente pelo fato de serem dois pais ou duas mães, mas, principalmente, pelo tanto que são descartáveis, hoje em dia, as relações afetivas. Veja quantos padrastos e madrastas uma criança costuma ter hoje em dia. Antes mesmo que elas possam criar afeto por um, já vem outro e começa tudo de novo.
    Outro ponto importante é a expectativa. Se eu não tivesse mãe, aposto que depositaria nisso a responsabilidade por todas as minhas mazelas. É isso o que a gente faz. A gente se apega ao que não tem pra justificar o que queria ter.
    A “brincadeira” do texto seria essa “vontade de trocar” típica das crianças espertinhas, como nós fomos. Eu vivia pedindo pra minha mãe me dar outro pai. Se eu tivesse dois pais, por exemplo, e visse, fora da minha casa, o quanto esse “cargo” é instável, com certeza pediria uma mãe. Não por acreditar que resolveria alguma coisa, mas por investir na mudança, investir no “quem sabe”. Quem sabe uma mulher não botaria ordem nessa espelunca... hahahaha

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  3. Oi, Caio! Que coisa boa você ter respondido!
    É, e pra ser sincera, eu entendi um pouco diferente o texto.
    Olhando pelo ponto de vista que você acabou de colocar, realmente pode haver esse tipo de "cobrança" por parte das crianças. Principalmente pelo fato de que, no caso de um casal de homens, por exemplo, a figura materna existiu em algum momento. O menino não veio do ovo, certo? E, sejamos realistas, a figura materna faz mais falta que a paterna, pelo menos na teoria.
    Mas acho que todo casal que está prestes a ter um filho, sendo o casal hetero ou não, tem dúvidas quanto a criação. E acredito que a criança é um espelho do que ela tem em casa. Claro que as dúvidas existem, mas o principal de tudo é não transmiti-las para o filho. Se a criança perceber que o pai tem medo da falta que a mãe pode fazer, ela irá sentir esse medo também. Percebe meu ponto de vista? Temos que, de alguma forma, passar essa segurança ao filho.
    E deixar claro, desde sempre, quem é o pai, quem é a mãe, ou quem são os pais e as mães. "Olha, meu filho, aquele que veio aqui em casa ontem é um amigo, tá? Mesmo não morando aqui mais, seu pai é o fulano!" hehe brincadeiras à parte, é isso que eu tô falando. Se o casal for bem estruturado emocionalmente, invariavelmente a criança será também. E as cobranças serão menores. As crises de identidade serão menores. E os questionamentos, nem se fala.

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  4. Pra variar um pouco, eu concordo em "gênero número ingual" com você! hauhauahuahuhuahauhau

    E, resumindo muito, acho que o "segredo" talvez seja o que um amigo meu, o Everaldo aqui dos blogs relacionados, vive dizendo: agir com naturalidade.
    O filho, nesse caso, vai achar tão mais "estranha" a sua família quanto mais estranha ela agir em relação a isso. A gente não se espanta com o que é espontâneo.
    Se os dois pais e as duas mães não se explicarem, talvbez a criança não queira explicação. Se não se desculparem, talvez ela não as culpe. Se não se preocuparem com isso, talvez, bem talvez mesmo, não exista motivos para isso..

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  5. É exatamente isso! Não mudo uma vírgula.
    "Agir com naturalidade" resumiria esses 5 comentários aqui!

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  6. Pena que 'agir com naturalidade' não é tão simples quanto parece.
    Exercício diário, repetitivo e constante para conseguir um pouco disso. Eu, sigo tentando desde que me entendo por gente.

    Agora, vai explicar isso pro mundo... =(

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