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domingo, 5 de junho de 2011

Flor-de-Lis

O primeiro se apresentou sem trazer grandes expectativas. Bonito, sem dúvida, mas de uma beleza estranha, diferentemente incomum. Tudo nele buscava um padrão que, incrivelmente, estava longe de alcançar. Suas palavras, seus sorrisos, a mais perfeita pontuação. Os olhos grandes e sinceros diziam mais que a própria boca, que intercalava doçuras com farpas e a mais gostosa gargalhada.
Flor-de-Lis rapidamente se encantou. O melhor abraço do mundo era um afago em qualquer dia ruim. Beijos molhados, passeios divertidos e os mais lindos textos. Ele sabia o que dizer e era imbatível na escrita. O mais próximo do príncipe há tanto tempo esperado. Mas não. Faltava-lhe algo. Um príncipe imperfeito. A mais perfeita moldura para um quadro já conhecido. Um conto de fadas pronto e ensaiado, esperando apenas a encenação. Mas Flor-de-Lis queria se surpreender.
O segundo veio já na contramão. Roupas estranhas, um jeito largado e algo insistentemente doce coroando o mais cretino dos sorrisos. Como quem sai de um poema, trouxe rimas, cores e sensações. Todas as figuras de linguagem trabalhando juntas pra compor um ambiente de pura magia. Fazia tudo parecer interessante e tinha o dom de encantar. Olhava-a por cima, como se a quisesse ensinar.
E Flor-de-Lis queria mesmo aprender. Queria, para si, um pedaço de todo aquele brilho, uma fatia que fosse. Mentira. Flor-de-Lis era gulosa, queria-o inteiro, não sabia nem aceitava repartir. Mas o vagabundo gostava era de seduzir. Estava atento e aberto ao mundo e todas as suas possibilidades. A Flor, dedicava alguns minutos diários, intercalados da mais sincera indiferença. Flor-de-Lis queria ser prioridade, coitada, mas precisaria disputar com quase tudo o que se move.
Estava montada a tragédia. Eram dois e não era nenhum. Flor-de-Lis precisaria escolher entre amar e viver um amor. Entre a estabilidade e a emoção. E seu coração, confuso, deixou-se levar por pequenos sinais, que, claro, apontavam cada hora numa direção, até que se perdeu. Entre lembranças e comparações, entre desejos, medos e preconceitos. Em algum lugar entre o que é e o que se quer que seja, o coração de Flor parou de bater.
Coração é mesmo um músculo bobo...

Um comentário:

  1. sabe um texto PERFEITO? então, PER-FEI-TO! to sem palavras...

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