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terça-feira, 14 de junho de 2011

Qualquer Mulherzinha Vira-Lata

Revi algumas amigas, numa visita especial, mas a breve conversa que tive com uma delas é o que me traz aqui hoje. Atenciosa e muito valente, em um determinado ponto da nossa caminhada, ela fez a fatídica pergunta: “como está seu coração?”. Não lembro exatamente o que respondi porque a reação dela me embaralhou demais as idéias. Só lembro que falei, falei, falei e falei mais um pouquinho. Esperei apoio, esperei interferências, esperei interjeições... e ela ouviu a tudo imóvel, mas nitidamente envolvida.
Quando, por fim, desacelerei o discurso e dei a ela o espaço apropriado pra me consolar, ela sorriu, me olhou fundo e diagnosticou: “Caio, você é uma mulherzinha”. Só. Não desenvolveu, não explicou, parece que nem se abalou. Disse isso e voltou a caminhar, como se meu raciocínio não tivesse derretido inteiro ali naquele momento.
Passei o dia pensando no que poderia fazer de mim uma mulherzinha, já que isso não é exatamente uma coisa boa, e talvez tenha chegado a algumas conclusões, que atribuo, claro, ao meu signo de câncer com ascendente em peixes. Mas sei que não é só isso.
Mais tarde, fui ao cinema assistir ao excelente Qualquer Gato Vira-Lata, novo filme nacional, e minhas piores suspeitas tornaram-se terríveis constatações. O filme é uma comédia romântica repleta de clichês, dessas em que o final salta aos olhos dos espectadores antes mesmo da terceira cena. Não traz nada de novo pras nossas vidas, mas nos obriga a admitir certezas antigas que fingimos não possuir.
As atuações dos protagonistas não são nada satisfatórias. Cléo Pires tem ótimas cenas intercaladas a grandes oportunidades perdidas. Sua personagem Tati vive momentos extremamente divertidos que ora são retratados com brilhantismo, ora com total desleixo. Dá vontade de interromper tudo e pedir pra repetir. Malvino Salvador, como o professor de biologia (Conrado) é um professor muito bonito, nada mais que isso. E, não sei se isso chega a ser uma surpresa, quem desponta nesse sentido é o não tão conhecido Dudu Azevedo, que vive Marcelo, o cara rico e mimado, que pinta e borda com o coração da mocinha. São dele a maior parte das melhores cenas do filme.
A história é bem simples e o trailer já conta o final. Tati está completamente apaixonada pelo namorado Marcelo, um perfeito bon vivant, que age como um solteiro em busca de todas as mulheres do mundo. O resultado é uma frustração imensa para a moça, é claro, só superada pela companhia constante de Conrado, um professor de biologia que desenvolve a tese de que o problema dos relacionamentos é o excesso de cobrança feminina com base na teoria evolucionista. Tati se oferece como cobaia da experiência de Conrado e eles passam, juntos, a traçar estratégias para reconquistar o amor de Marcelo.
História simples, cenas bem feitas, enredo previsível, mas tudo muito divertido. O encanto do filme, entretanto, acontece do lado de fora da tela. Tati vive, uma a uma, várias das situações mais ridículas que os apaixonados experimentam. As ligações em excesso, a dúvida pra se vestir, os ciúmes, a perseguição... Enquanto Marcelo age como o mais perfeito babaca – que é o que somos também, às vezes. E o cinema fica lindo, dividido desde cedo em dois grandes grupos, os que riem dela e os que riem dele, com base, imagino, naquilo com que mais se identificam.
É muito divertido ver como o amor deixa a gente bobo. Principalmente quando os nossos erros, vivenciados por outros, parecem banais e inaceitáveis. Era tão claro pra mim ver o quão absurdo era aquele tanto de ligações de um para o outro, que nem parece que eu já cansei de fazer o mesmo. A passagem em que ela é orientada a sorrir para ele e parecer “bem” no meio de um ataque de nervos trouxe de volta uma longa e inesquecível fase da minha vida, quando eu queria explodir todo esse mundo e, em vez disso, cortei cabelo, comprei roupas novas, emagreci de tanto chorar, e fui mais bonito do que nunca, segundo fontes confiáveis. Conrado ensina que ele não pode ver a reação que causa nela. O mesmo que me dizia meu orgulho.
A magia do filme está toda em esfregar na nossa cara o quanto somos bobos quando gostamos de alguém. Conrado não ensina a Tati nada que qualquer um de nós não esteja cansado de saber. Nós só não conseguimos pôr em prática tudo isso. A teoria é clara e faz muito sentido. Mas a gente precisa ver os nossos erros encenados por outras pessoas pra acharmos graça neles. E achamos.
Ri muito com o Marcelo. Eu também já quis ser solteiro, já achei que tinha pessoas à mão e já aprendi a dar valor a alguém que perdi (geralmente tarde demais). Mas, talvez, a minha amiga tenha razão e eu seja um pouco mulherzinha, porque foi a Tati quem me levou ao desespero. As ligações, a necessidade de repetir um mesmo recado de várias formas, para evitar um possível “mal entendido”, as tentativas de justificar uma indiferença injustificável, as roupas no chão do quarto, o choro, as flores... tudo. Todo o excesso de sentimento que ela tentou demonstrar e só serviu para assustar e afastar Marcelo.
Ver meus erros repetidos e, principalmente, as risadas que eles me causavam me fez repensar e entender muita coisa. A experiência foi inenarrável. E o aprendizado também.
Não que eu vá fazer tudo diferente a partir de amanhã. Pelo contrário. O que eu aprendi com o filme, na verdade, foi a rir disso desde já. E estou rindo até agora!

Um comentário:

  1. Caio, todos nós somos mulherzinhas. A diferença é: uns sabem e assumem, outros sabem e não assumem, e outros nem sabem. Tem gente orgulhosa demais pra assumir que sofre, que liga, que se importa. Mas todos nós passamos por isso e temos vontade de surtar. Mas quase ninguém confessa isso (eu, por exemplo).

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