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domingo, 4 de setembro de 2011

Ai, Delícia.

“Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Tomei coragem e comecei a falar
Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego
Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego...”


Esse é o refrão de uma das músicas mais executadas atualmente nas rádios do nosso país. Copiei a letra do site do Terra, onde, por acaso, ela é a música mais acessada também. “Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego”.
Não sei se é possível interpretar, mas, ao que parece, é a história de um rapaz que se encanta por uma moça e tenta conquistá-la dizendo isso a ela. Não prestei atenção na letra nas dez primeiras vezes que ouvi, mas, um dia, cometi esse erro terrível.
Perdoei o fato de ele ter dito “balada”, gíria mais mongol que conheço - até galera eu fingi não ouvir -, e dei alguma confiança quando ele anunciou que começaria a falar. Achei metalingüístico, achei corajoso, confesso que criei certa expectativa. E ele disse “ai, se eu te pego”. Não! Foi pior! Ele repetiu isso algumas vezes e ainda chamou a moça de “delícia”. De-lí-cia.
Embora isso pareça apenas mais uma música imbecil dentre as muitas presentes no nosso cancioneiro popular, na verdade, representa um pouco mais que isso. É o retrato de um problema social que eu imaginava já estar superado, mas não: vivemos num mundo em que homens (AINDA) mexem com mulheres.
Avançam as pesquisas mundiais em nanotecnologia, vários países produzem bombas atômicas e inúmeras doenças encontram-se, hoje, erradicadas. Mas, em pleno século XXI, se uma mocinha bonita passa na rua, ainda é permitido que os rapazes digam coisas assim. “Assim você me mata”, “delícia”.
As culpadas são vocês, mulheres, que se sentem lisonjeadas com esse tipo de coisa. E vocês se sentem mesmo, o pior é isso! Vocês dão corda, vocês alimentam essa prática. O pegador do meu antigo trabalho ensinava, a quem quisesse aprender, o “segredo pra pegar mulher”: “eu fico sentado no balcão, no caminho que as mulheres passam pra ir ao banheiro, e, quando passa alguma que eu gosto, digo ‘opa! tá de parabéns, hein? que isso...’”. Pa-ra-béns!
É, mulher! Você passou horas se arrumando. Secou a raiz do cabelo e cacheou as pontas com a chapinha, contando as frações de segundos pra não parecer ressecado. Combinou a sombra com o batom e as jóias com a sandália. Está, há anos, ensaiando esse andar. Não há mesmo nada que você espere e mereça ouvir mais que PARABÉNS, há?
Enquanto isso, Hollywood enche suas telas e cabeças ocas com um novo modelo de príncipe encantado. O bom mocinho saiu de moda. Agora, quanto mais cafajeste, melhor. Eles são grosseiros, nada românticos e, geralmente, mulherengos e imbecis. Mas, em menos de 90 minutos, tornam-se o par perfeito, o sonho de todas as suas vidas. Mulher é um bicho estranho mesmo.
Maldade é o mundo resolver se aproveitar disso...
Nossa! Nossa! Assim, você me mata…

Um comentário:

  1. Em algum texto sobre cancerianos por aí:
    "Em hipótese alguma ela dá aquelas cantadas do tipo 'e aí, gostosa...', mas, só com seu olhar, ele deixa entender que achou você realmente gostosa, mas que é uma dama e merece toda sua atenção e respeito."

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