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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Costureira

"Muitas vezes, a pessoa se forma, mas não exerce a profissão em que se formou. Eu mesmo conheço um caso de um rapaz que se formou em Direito, mas não se deu bem com as leis. Preferia 'design', queria ser estilista. Aí, abriu um atelier em São João Del Rey e, hoje, é uma exímia costureira...".

Ele é juiz do trabalho há anos. Está na lista tríplice do Tribunal para escolha do novo Desembargador por MERECIMENTO. É professor universitário e dá aulas na famosa e conclamada Universidade Federal de Minas Gerais. E falou isso em sala hoje, enquanto ria e balançava a cabeça.

A turma não soube como reagir. Uma parte riu sem graça. Um aluno deu uma gargalhada. Mas a maioria apenas se olhou de um jeito estranho. Estão todos acostumados às barbaridades que ele diz, mas, hoje, foi diferente. Esse tipo de piada já não tem mais tanta graça. Não sei se por culpa ou (algum resquício de) consciência, as pessoas não se sentem tão à vontade para rir disso hoje em dia. O fato é que a turma se olhava e esperava uma explicação, uma correção, um pedido de desculpas que fosse. Eu esperava um abraço. Alguém pra me dizer "calma, vai passar". Ou a janela do meu quarto me provando que foi um sonho ruim e nada mais.

A realidade é esse monstro escondido no armário que sai, às vezes, para nos assustar. A gente sabe que ele existe e sente muito medo, mas, se fica uns dias sem ver, prefere acreditar que ele morreu, que foi embora, que não oferece mais nenhum perigo. Aí, uma noite, o monstro abre a porta, põe a cabeça pra fora, te faz sentir medo como nunca, e volta pro seu esconderijo, deixando apenas aquela imagem assombrosa e as lembranças que duram até quase a sua nova aparição.

Assim também é o preconceito. A gente sabe muito bem que ele existe, mas insiste em acreditar que mora na casa ao lado, nos bairros distantes, na cabeça dos outros… e não! O preconceito não tem endereço, não tem classe social. Não vive no alto do morro nem em uma determinada faixa etária. Ele sabe se esconder muito bem, mas aparece sempre que nos distraímos, pra que não nos esqueçamos nunca da sua existência.

Parece que não temos para onde fugir. Ele está na universidade, no poder público, na nossa família e, talvez, até na nossa cabeça. Vem de onde menos e mais esperamos e se manifesta das mais variadas (e, às vezes, assustadoras) maneiras. Um olhar, uma piada, um cometário infeliz… O preconceito está sempre atento à nossa falta de atenção. Dá recados, manda lembranças. O preconceito faz questão de se mostrar invencível e consegue. É um inimigo muito difícil de vencer.

Tanto, que, em alguns momentos, dá vontade até de desistir. Esse é um deles.

Um comentário:

  1. Não vale a pena desistir por gente que não vale nada.

    Nossa geração passa mais apertada. É a fase de transição, eu acho, dos que foram criados por pessoas quadradas mas que, em algum momento, puderam duvidar. As medidas mudaram e as réguas do bom senso (e não mais do senso comum) variam de soleira para soleira, mas de todo modo duvidamos.

    Certo, há os resistentes, que continuam a repetir barbaridades, e o fazem por nada: para machucar, para causar, para ver se conseguem fazer o mundo voltar às trevas da ignorância...

    A questão toda é que desistir seria fazer com que eles ganhassem, já que nós precisamos estar aqui, firmes, para ensinar aos nossos filhos, aos filhos dos nossos colegas, aos nossos alunos, ao nosso futuro de modo geral, que gente assim não vale nada. Se eu não ensinar pro meu filho que gente assim não pode ser Desembargador, talvez eles (Desembargadores) continuem sendo fabricados nesses moldes de gente vil e cruel.

    Essa não é uma luta de um homem só, Caio. Eu sei que às vezes parece que você tá sozinho, mas eu sei que se vc olhar para o lado - de pessoas constrangidas a revoltados do twitter - você vai saber dizer quem segue com você. E não precisa ser homem, mulher, gay, lésbica, amigo ou não amigo. Pra seguir com você, só é preciso um pouco de fé na nossa geração, e fé na docência.

    Força.

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