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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Para não ser lido

Eu escolhi você pelo sorriso. Talvez isso não soe muito romântico, mas é a verdade. Eu queria esse sorriso pra mim. Pra ver, viver e admirar. Eu queria que fosse essa a primeira imagem que meus olhos vissem todos os dias pela manhã. E, assim, sem nunca sequer ter te visto, eu te escolhi. Elegi, em meio à multidão, aquele que mais me encantou, como quem compara lombadas nas estantes de uma imensa biblioteca.

As primeiras páginas foram perfeitas. Ou, talvez, eu não tenha prestado muita atenção, já que o efeito da capa me anestesiou por um tempo. O fato é que tenho boas lembranças. Da narrativa lenta e emocionada, de umas ênfases mal distribuídas, das frases longas... do choque que causavam alguns parágrafos avulsos e aparentemente destoantes, mas que se complementavam em perfeita coerência num contexto fantástico e envolvente.

A partir do segundo capítulo, as coisas mudaram bastante, eu sei. Passado o amor à primeira vista, restou a música eletrônica, o ar condicionado e todas as nossas - muitas - incompatibilidades. Mas eu virei essas páginas. Você ama baladas e o seu lugar preferido no mundo é uma boate que eu classifico como decadente por falta de termo mais específico. Virei a página outra vez. Você bebe muito, dirige sem carteira, sai de terça a domingo, tem mais de mil amigos no Facebook e a desagradável mania de falar deles como se eu os conhecesse. Só me faz pagar língua. Mas eu viro essas páginas, não importa. Página virada. Pronto! Nem do seu R, eu consigo reclamar. Pode me chamar de “meu amoR” (vai! chama!)...

O terceiro capítulo é tão decisivo quanto dizem ser o terceiro encontro. Aqui, a distância do primeiro faz o peso do segundo parecer imenso. O encanto parece menor. Os problemas parecem maiores. É o momento pré-clímax em que a narrativa questiona seu próprio enredo. O amor parece pouco. Na verdade, nem parece amor, parece um rascunho frustrado. Dá vontade de fechar e guardar. Amassar e jogar fora. É só o começo de uma história que não existiu.

A partir dali, as páginas estão em branco. Sem um ponto sequer a ser ligado, nem a formiga de Quintana passou para trazer vida. Nada. Não se sabe se são muitas ou poucas, se há gravuras, se vai ser bom. As páginas estão ali, em branco, esperando a nossa história, os nossos desejos, as nossas escolhas... os diversos caminhos que podemos traçar até o final, que não pode ser outro que não o feliz.

Eu vejo você assim, como um livro. Talvez porque eu tenha algo de escritor e, para esses, o objeto amado não pode ter outro formato.

Parece até piada, eu sei, mas a primeira coisa que você me disse foi que detesta ler.

Um comentário:

  1. Posso palpitar?? Virei leitora fiel de seus textos e passei a te admirar mais ainda. Você tem um lindo futuro Caio. Por isso nunca tenha medo de seguir em frente.
    Ah! também estou muito honrada com o meu novo seguidor.
    Bj.

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