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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Enchanted

Encantada é o filme em que a Disney tenta se desculpar com a gente por todos os traumas criados e alimentados, por toda essa geração de gente mal amada que aprendeu a acreditar no amor e viver à espera de ser feliz para sempre. Giselle é uma legítima princesa da Disney. Ela canta, costura, conversa com os animais e sonha com o príncipe encantado com quem possa trocar um beijo de amor verdadeiro.

Ameaçada por um ogro, Giselle é salva por Edward, o príncipe, e eles decidem se casar no dia seguinte. A Rainha má, madrasta de Edward, inconformada em perder a sua coroa, manda Giselle para “um lugar onde não existe o felizes para sempre”. Em Nova York, aqui no mundo real, Giselle conhece Robert, namorado de Nancy e pai de Morgan, e o triângulo amoroso é formado.

Giselle é o retrato potencializado, caricato e crítico da nossa geração mulherzinha. É a Disney debochando da sua própria criação. É a mulher média, de quem se espera um mínimo de discernimento, mas espera por um príncipe que cante, acredita no amor, confia nas pessoas, quer ser feliz para sempre e costura seus próprios vestidos com os tecidos das cortinas e tapetes. Nancy, sua rival, representa a “mulher moderna”, que trabalha, namora, fica noiva e busca um relacionamento estável, ainda que sem serenatas.

Giselle chega de repente à realidade e, lentamente, descobre que os contos de fada só existem mesmo nos livros. Na verdade, mais ou menos, porque, quando tudo caminha para que ela aprenda de uma vez por todas, as coisas se ajustam novamente, o enredo muda, e outro beijo de amor verdadeiro acontece. Porque é assim com as princesas. Dá certo até quando dá errado. E Nancy, nossa última esperança de bom senso, o que resta da mulher depois que acorda desses contos de fadas, no final, prova que não aprendeu nada com a vida e larga tudo para ser princesa no outro mundo.

Edward, o príncipe encantado, tem todos os atributos que o seu papel exige. É bonito, forte, atlético... canta, dança e vive aventuras em busca de seu amor, a princesa perdida. Ironicamente, entretanto, tem características bem pouco raras na verdade. Burro como uma porteira, é egocêntrico e vaidoso e, como quase todo homem bonito, sente-se protagonista do mundo, início, fim e motivo de tudo. Enquanto Robert, o plebeu que não acredita no amor, é divorciado, tem uma filha e namora há 5 anos alguém de quem não gosta, tudo em busca da estabilidade. É divertido ver como a Disney transforma o pai solteiro, abandonado e desiludido, em príncipe real e volta a alimentar as esperanças que ironiza. Se, no século XXI, o mundo (finalmente) percebeu que não existem príncipes encantados como Edward, a Disney diz que existem sim, mas estão disfarçados de Robert.

Esqueçam os cavalos brancos, pobres princesinhas aprisionadas em Melissas, sobrepeso e progressiva, e dêem mais atenção aos carrinhos de bebê. Não procurem por homens que cantem e dancem, sejam mais tolerantes com quem leva os filhos à escola, trabalha 12 horas por dia e nunca diz que te ama. Esqueçam o clichê e apenas esperem, que bom é quando ele vem de onde a gente menos espera. O mundo é um lugar lindo, o amor verdadeiro existe e acontece, é só você ficar esperando. Costure um vestido pro tempo passar mais rápido...

A vida com a Disney parece tão mais fácil. Ou, vai ver, é fácil mesmo e a gente não vê porque não quer, né?!

Não!

Um comentário:

  1. Caio, mais uma vez seu texto está perfeito.
    Mas sabe qual é o problema? A nossa geração é rotulada de "moderna". A gente sabe que principe encantado nãao existe, e parecemos aceitar muito bem essa condição.
    Só que não.
    A gente fala que sabe que não existe, mas há SEMPRE a pontinha de esperança que ele apareça. Se me pedirem para fazer um discurso anti conto de fadas, farei da melhor maneira possível. Mas no fundo haverá uma voz fraquinha me dizendo enquanto eu discurso: "Isso é igual papai noel. Não existe pra quem não acredita".

    Resumindo, por isso estou solteira.

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