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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Ter a pia–porque lavar louça ainda é o melhor remédio

Tive um problema com um amigo que nos separou para sempre. Amizade não tem que ser eterna e todo mundo tem o direito de se magoar e não perdoar. Acontece que eu prometi nunca falar sobre isso com ele, nunca lavar a roupa suja, nunca acertar os pontos. Doeu quando aconteceu, foi difícil, mas o diálogo é a melhor forma de acertar coisas que têm algum conserto. Quando não tem, falar só remexe a ferida e, geralmente, dá margem a novos desentendimentos.

Soube, várias vezes e por várias fontes, que ele queria conversar. Ok. O mesmo direito que eu tenho de não querer conversar, ele tem de querer. E nenhum dos dois pode impor absolutamente nada ao outro, porque conversa é como relacionamento, precisa de dois. E, mesmo quando os dois estão ali, dispostos, costuma não acontecer.

Eis que, na semana passada, aconteceu. Ele me cercou, insistiu, provocou, perguntou, até que eu falei, falei, falei... como represa quando estoura. Não me sinto nem um pouco melhor e, pelo que me lembro de ter dito, duvido muito que ele sinta. Mas conversamos enfim. Ele venceu.

O interessante é que, enquanto eu tentava desaparecer - e ah!, como eu tentei! -, ele dizia algo como “eu to fazendo análise, eu preciso conversar”, ao que eu respondia com gritos de “eu não faço nada, não preciso conversar e não quero te ver”.

Rindo disso, hoje, lembrei de quando minha mãe fez terapia. Ela não durou muito tempo, porque disse que a psicóloga, a partir de um certo ponto, começou a “interferir demais” na vida dela, afirmação que eu nunca entendi. Mas me lembro muito bem do quanto ela ficou insuportável. Em qualquer discussão que fosse, o grito de guerra era “a minha psicóloga me disse que eu preciso falar o que eu penso e não devo guardar nada para mim”, seguido, sempre, dos maiores e mais indizíveis desaforos. Alguma coisa naquelas consultas despertou o que minha mãe tinha de pior dentro de si. Porque todos nós pensamos coisas ruins, mas nem sempre falamos.

Qual é o sentido de se falar tudo o que pensa? Na verdade, antes do sentido, eu gostaria de saber quem deu a vocês, pacientes em recuperação, o direito de falar o que pensam? Porque, até onde eu saiba, com terapia ou não, eu tenho o direito de não querer ouvir. Conversas, como eu disse, exigem duas pessoas, e isso é uma coisa que os terapeutas deveriam ensinar na primeira sessão.

Minha mãe me disse coisas que eu, sinceramente, não precisava nem nunca quis ouvir, porque, segundo sua psicóloga, era importante falar. Meu ex-amigo me cercou (com a ajuda de outros amigos, o que indica ter sido tudo planejado) porque seu analista disse que ele precisava conversar. Quando é que esses profissionais vão me consultar a respeito da minha opinião? Porque eu não quero conversar, gente. Não quero que ninguém morra por aí, exploda ou se mate. Eu só não quero conversar. E acho que tenho esse direito.

Se fazer terapia desse a alguém o direito de impor sua vontade de forma tão egoísta a todos, eu também faria. E conversaria com todo mundo que eu me sentisse no direito de incomodar, como se os meus problemas não fossem apenas meus e ponto final.

Mentira! Na verdade, se fosse fácil assim, eu faria é boxe. Treinaria todos os dias e quebraria a cara de um tanto de gente por aí, porque meu treinador me disse que engolir sapo engorda e eu preciso te bater pra me curar.

2 comentários:

  1. Você escreve muito bem. Agora deu vontade de ler o blog todo.

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  2. Não é sem razão que ele é o fã nº zero da Martha Medeiros. Aproveito e sugiro que leia o Rubem Alves e a Lya Luft, Caio Preta! Nunca o vi comentando sobre.

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