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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Oi.

É inquestionavelmente difícil dizer eu te amo. Amar não, amar é até fácil. Difícil é reconhecer isso e transformar em palavras, porque dizer eu te amo (e eu já falei disso aqui) é dizer eu me entrego. É reconhecer outra pessoa como parte importante de você, imprescindível para a sua felicidade. É tirar seu coração de dentro do peito e o dar a alguém, que, a partir desse momento, pode fazer dele o que quiser – até mesmo nada. Declarar seu amor a alguém é reconhecer-se incompleto, insuficiente, dependente de outro... Pode haver algo mais difícil que isso?

Desistir parece fácil, mas também não é. Na verdade, pode ser, quando desistimos rapidamente de algo que nem chegamos a tentar com vontade. Eu vivo desistindo de sair, desistindo de entender. Toda semana, eu desisto de esperar – e, em seguida, desisto de desistir. Mas não é sempre assim. É muito difícil dizer eu desisto e abrir mão, por exemplo, de um casamento planejado e sonhado. Porque desistir é isso, é abrir mão, é não querer mais, agradecer e passar adiante. Desistir do amor é, antes de tudo, encontrá-lo, reconhecê-lo e o admitir, para, então, renunciar a ele. Desistir de uma carreira, de uma vaga na faculdade, de uma viagem. Se amar é se entregar, desistir é se recolher. Ao estabelecer um objetivo, depositamos expectativas e, assim, nos mantemos motivados. Desistir é abdicar de tudo isso e voltar à estaca zero. Pode haver algo mais difícil que isso?

Pode. Num mundo de polissílabos incandescentes e estrangeirismos que mais confundem que esclarecem, não há nada mais difícil de dizer que oi. São duas letrinhas apenas, talvez a menor frase repleta de sentido do nosso idioma. Oi. Uma sílaba abarrotada de significados e capaz de adquirir as mais diversas formas e intenções. O oi triste e sem palavras que você diz ao amigo que acabou de perder alguém; o oi nervoso e cheio de expectativas que dizemos num primeiro encontro; o oi curto e inseguro que tenta parecer frio, profissional e objetivo numa entrevista de emprego; o oi da vingança, que é lento, sonoro e saboroso, mais quentinho que um abraço. Oi! A primeira palavra, que acaba sendo a única em diálogos que não a conseguem transpor. Uma saudação, um chamado, uma confirmação, até uma ameaça...

Se não sabemos como começar, dizemos oi e apenas isso. Há momentos em que um oi exige tanta força, que não nos resta mais que o silêncio. O oi que é surpresa, que é saudade, que é sentido e que também é tchau, e que é só um oi. O oi que é alívio. Nada além disso. Dizer oi é abrir o seu mundo, a sua vida, o seu eu. É dizer seja bem vindo, é se expor, se escancarar, se permitir receber, se entregar e abrir mão de você mesmo, tudo ao mesmo tempo.

E, não!, não há nada mais difícil que isso.

2 comentários:

  1. Eu achei um barato a descrição dos vários tipos de 'oi'.

    Sobre o dizer... é difícil mesmo. Difícil demais. É preciso se entregar, como você bem disse, e não estamos, num primeiro momento, tão dispostos a isso.
    Nosso egoísmo atrapalha, nossa vaidade põe uma cortina de fumaça.
    Queremos isso dos outros, mas não queremos isso para os outros.

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  2. caio, por que você escolheu o direito mesmo? rs

    muito bom!

    :)

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