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sábado, 7 de janeiro de 2012

Todo mundo tá feliz?

Conversava, mais cedo, com amigos que estudam Medicina, sobre as áreas em que eles pretendem atuar quando formados. Desencorajei qualquer investimento em Oncologia, porque é muito triste. Nefrologia é muito triste também. Pensei em sugerir Obstetrícia, porque nada pode ser mais feliz que trazer crianças à vida, mas, imediatamente, me veio à mente a imagem de um cordão umbilical enrolado no pescoço, de uma mãe desesperada, de enfermeiros e médicos correndo de um lado pro outro e... e isso é muito triste!

Passei um tempo refletindo sobre o que pode ser feliz na Medicina e só descobri que, no Direito, não há nada. Pior: eu descobri que a única área que me interessa é exatamente a mais triste de todas – porque o Direito Penal, em sua mais triste manifestação, trata da morte; o Direito de Família discute os interesses de pessoas vivas, que precisarão lidar com aquilo ainda por algum tempo. Porque a morte, para o morto pelo menos, é uma libertação. A vida não. A vida segue e não existe para seguir, existe para ser vivida. Qualquer verbo diferente de viver já indica que algo deu errado.

Chegando em casa, li uma crônica sobre decoração e felicidade, falando sobre a importância de a decoração dos nossos lares nos fazer felizes. Olhei em volta e meu quarto não consegue. Definitivamente. De frente pra minha cama, uma esteira denuncia minha falta de força de vontade. Meus quadros de fotos têm espaços vazios que só fazem relembrar todo mundo que eu, um dia, decidi esquecer. Voltei a refletir sobre a (real) possibilidade de ser feliz na minha casa e descobri que sou triste em todo lugar.

Meus móveis não me trazem boas lembranças, minha “carreira” não me traz boas expectativas, meu trabalho não me dá sequer coragem pra sair da cama de manhã e minha família só me causa medo e vergonha ultimamente. Que porcaria de vida seria essa então, já que nós devemos buscar a felicidade em tudo o que fazemos? É nessa reflexão que eu me encontro agora, com brigadeiro, Adele e nenhuma vontade de viver.

A gente não tem que ser feliz o tempo inteiro, tem? Digam que não, por favor! É justo trabalhar oito horas em algo que te faz infeliz se isso te der o dinheiro suficiente para poder (porque é apenas uma possibilidade, percebam) ser feliz nas outras dezesseis, não é? É uma troca justa, eu acho. É justo, compreensível e normal eu olhar pros meus móveis e enxergar apenas móveis, não é? Tem que ser. Não posso sentir por cada cadeira, vaso de planta ou lustre. Não cabe (nem eu quero) tanta alegria no meu dia. Não é a felicidade um estado permanente – ou passou a ser e eu não soube? A normalidade é triste. O equilíbrio. O estado entre-emoções que marca a maior parte das nossas vidas é naturalmente mais perto da tristeza. Caso contrário, a felicidade nem faria sentido.

Eu não sou triste e vocês felizes. Eu sou normal, só isso. Vocês é que devem ser bestas...

Um comentário:

  1. acho que esse sentimento diante da existência é o que nos une, caio...

    escrevi dia desses:

    "tenho pena de pessoas que acham que tristeza é algo a se evitar e que, em sua limitação, creditam-na sempre a fatores externos. para tais, é sempre necessário que alguém ou algo cause a tristeza, que não pode nunca ser produto natural da existência..."

    talvez isso combine com a sua afirmação: "A normalidade é triste"

    tava com saudade de lê-lo!

    :)

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