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domingo, 13 de maio de 2012

... como se fosse o último


E assim Emma Morley voltou para casa sob a luz daquele final de tarde, deixando uma trilha de desilusão no caminho. O dia estava esfriando, ela tremia e sentia algo no ar, um inesperado arrepio de ansiedade percorrendo a espinha, tão intenso que a fez parar por um momento. Medo do futuro, pensou. Estava no imponente cruzamento da George Street com a Hanover Street, e ao seu redor pessoas apressadas voltavam do trabalho ou iam se encontrar com amigos ou amantes, todos com um objetivo e uma direção. E lá estava ela, vinte e dois anos e sem planos, voltando para um esquálido apartamento, mais uma vez derrotada.
“O que você vai fazer com sua vida?” De uma forma ou de outra, parecia que as pessoas estavam sempre fazendo aquela pergunta – os professores, os pais, os amigos às três da manhã –, mas a questão nunca tinha parecido tão premente, e ela estava longe de obter uma resposta. O futuro se estendia à sua frente, uma sucessão de dias vazios, cada um mais desanimador e incompreensível que o outro. Como iria preencher todos eles?
Retomou a caminhada para o sul, em direção a The Mound. “Viver cada dia como se fosse o último” – esse era o conselho convencional, mas na verdade quem tinha energia para isso? E se chovesse ou você estivesse de mau humor? Simplesmente não era prático. Era bem melhor tentar ser boa, corajosa, audaciosa e se esforçar para fazer a diferença. Não exatamente mudar o mundo, mas um pouquinho ao redor. Seguir em frente, com paixão e uma máquina de escrever elétrica e trabalhar duro em... alguma coisa. Mudar a vida das pessoas através da arte, talvez. Alegrar os amigos, permanecer fiel aos próprios princípios, viver com paixão, bem e plenamente. Experimentar coisas novas. Amar e ser amada, se houver oportunidade.

NICHOLLS, David – Um Dia.

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