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terça-feira, 29 de maio de 2012

A Doida do Ônibus


- A senhora já pensou em fazer terapia?
- Oi?
- TERAPIA? A senhora precisa fazer terapia!
- Eu já fiz. Minha terapia agora é essa.
- Ah, mas a senhora devia é se tratar. Cantar no ônibus não resolve nada não, só incomoda!
- Olha, eu não vou fazer terapia. Eu paguei minha passagem, pedi licença ao motorista e estou aqui sem incomodar ninguém. O mesmo direito que você tem, eu tenho também.
- Tá me incomodando sim. Tá incomodando todo mundo.
- Tem quarenta anos que eu faço isso. Todo mundo me conhece. Não faço mal a ninguém.
- Tá todo mundo cansado, trabalhou o dia inteiro. Ninguém é obrigado a ouvir essa cantoria não. A senhora nem sabe cantar.
- Desce e pega outro ônibus. Eu nem to na sua cadeira, to cantando aqui na minha.
- Isso é uma bolsa, sabia? Não é um teclado não!
- É uma bolsa. E daí? Eu sei. Deixa a minha bolsa aqui e vai cuidar da sua vida. É melhor cantar que pensar em violência. Deixa eu cantar e cuidar da minha vida, vira pra frente e cuida da sua.
- Impossível não pensar em violência com a senhora cantando nessa altura dentro de um ônibus cheio!
E ela retomou o refrão, gritando com ainda mais força. Todo mundo caiu na gargalhada enquanto eu batia palmas sozinho, sendo visivelmente repreendido pelos demais. A voz era horrível, a música completamente desconhecida. E a situação, no mínimo, desconcertante. Cantou mais duas estrofes de uma música qualquer e, três ou quatro pontos depois, se levantou cantando e, acenando, desceu pela porta do meio. Agora sim, uma salva de palmas à altura de seu talento, interrompida apenas pelo meu grito de “liga pra esse povo não, que é tudo doido” e uma nova onda de risadas. De fora, ela sorria e me olhava com os mesmos olhinhos de inocência e gratidão. Eu era seu único público.
A primeira é jovem, deve estar perto dos trinta e aparentava um certo cansaço mesmo. Indignada com a cantoria, viajou com o rosto virado pra trás, olhando feio pra “cantora”. Às vezes, cansada, girava a cabeça e encarava um por um, farejando cólera e buscando adeptos ao barraco que pretendia iniciar. Chegou a ranger os dentes na minha direção quando bati palmas e pés acompanhando o refrão de Só vou gostar de quem gosta de mim. Até que, com desnecessária agressividade, iniciou a confusão, apoiada, ao fundo, por uma adolescente que apenas gritava “pelo menos baixe o tom” de trinta em trinta segundos.
A segunda já passou dos cinquenta. É conhecida mesmo, uma lenda no bairro. Pega o mesmo ônibus todos os dias, senta-se no mesmo lugar, fecha os olhos e, como quem toca piano na bolsa, canta até chegar em casa. As músicas, geralmente, são antigas e totalmente desconhecidas, mas isso não é uma regra. Hoje, por exemplo, teve até Caetano. Entre uma canção e outra, abre os olhos, faz umas contas nos dedos e logo volta a cantar. É a primeira vez que a vejo ser interrompida em um show e confesso que se saiu muito bem. Eu estava pronto para intervir em sua defesa, mas ela não precisou. E, com a simpatia que só os “anormais” têm, encerrou sua apresentação com ainda mais emoção.
Uma delas é conhecida como “a doida do ônibus”. E vocês acreditam que é a segunda?

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