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sábado, 26 de maio de 2012

Fracasso de público e crítica


Era aniversário da minha amiga, ex-colega de trabalho, e a comemoração seria numa churrascaria. O pessoal do trabalho chegaria mais tarde, mas eu tinha aula e precisaria sair mais cedo. Abrimos o bar. Conversa vai, conversa vem, e eu nem reparei quando um casal ocupou a mesa ao lado. Foram dois olhares apenas, e o filme começou. Take 01.
Ele era estranho. Bonitinho, com uma mancha no rosto e cara de bonzinho, mas estranho. Parecia inquieto. Ela estava desconsolada. Eram amigos saindo pra conversar. Provavelmente, ele tentava, sem êxito, consolá-la por alguma coisa. Mas ela não estava chorando, só parecia triste. Talvez ela fosse triste mesmo. E ele tinha, decididamente, perdido o foco da conversa quando me viu.
Os minutos se arrastavam entre aqueles olhares tímidos. O que eu faço com as mãos? Será que eu to mexendo demais no cabelo? Será que ele tá olhando... Opa! Ele tava! Será que eu to olhando demais?. Ainda pairava uma certa insegurança, que só um olhar mais longo fez cessar. Deve ter durado uns quatro segundos, não mais que isso, mas terminou com um sorriso. Um sorriso lindo e tímido, o mais sincero que os dois tinham dado até então naquela noite. E o caminho estava aberto pro amor.
É assim nos filmes, não é? Eles se olham, se reconhecem, se apaixonam e, rapidinho, já se casam. Eu já estava esperando o casamento. A cada novo sorriso, ele parecia mais bonito. A manchinha já parecia charme. Será que isso é hereditário? Será que meu filho vai ser meio dálmata? Aquilo na mão dele é um cigarro? Ai, meu Deus! Ele fuma! Ele fuma!. Os conflitos amorosos, as brigas, tudo pronto na cabeça já. O enredo escrito e ensaiado, faltando só encenar. Não, o cigarro é dela, ele só pegou um. Deve ser desses que “fumam quando bebem”. Ele não fuma. Meu príncipe não fuma, é claro que não.
Quero ir ao banheiro. Será que ele vai achar que eu to CHAMANDO ele? Será que vai soar vulgar? Vou esperar. Ai, mas eu quero muito, eu to apertado... MEU DEUS! Ele tá indo ao banheiro. Não posso ir agora, não posso! Ele vai achar que eu to indo atrás, que sou esse tipo de gente que agarra desconhecidos nos banheiros dos bares. Não vou. Não vou. Posso esperar. (...) Minha Nossa Senhora, ele tá demorando. Será que ele tá me esperando? Será que era pra ter ido atrás dele? Universo, por que eu não sei paquerar? O que eu faço?
- Gente, vou ao banheiro.
- Eu vou com você.
E fomos. Não ele e eu, mas um primo da aniversariante. Baiano, falante, cheio de assunto... Chegamos ao banheiro e, no timing perfeito, digno de ensaio, o baiano me mostrou meu cadarço solto, eu me abaixei para amarrar e ele saiu pela porta e passou por mim sorrindo. Eu sorrio? Eu levanto? Eu puxo papo? Será que ele tá vendo meu cofrinho? E lá se foi, escada a baixo. Sorrindo e rindo, provavelmente da minha cara, do meu cofrinho, da minha falta de talento... de mim e da interrogação que flutuava acima dos meus olhos, bem no meio da minha testa. Da piada que eu sou.
- Pessoal, eu tenho que ir. Eu vim mais cedo porque sabia que teria que sair antes do pessoal chegar.
Uma pena! Uma pena! Ficou rindo, rindo, rindo e, agora, eu vou embora. Será que ele é doido? Será que é mais tímido que eu? O que será que ele tá pensando dessa mesa cheia de gente velha? Depois de mim, o mais novo deve ter quarenta? Será que foi isso que o assustou?
Distraído com meus conflitos internos, não vi que ele sumiu. Su-miu. Abracei a aniversariante, me despedi de um por um dos convidados e, como um atirador de elite, vasculhei todo o bar. A amiga triste agora me olhava com interesse. Ele contou pra ela que me ama. Mas cadê ele, gente? Que pegadinha é essa? Alguma coisa dentro de mim insiste em acreditar que coisas legais acontecem. É isso. “Quando menos se espera, o impossível vira realidade”, e era o que estava acontecendo ali, naquele momento. A gente nem se conhecia, mas tinha alguma coisa no ar. Uma sintonia. Eu tinha finalmente encontrado o amor. Era o meu filme, era a minha história.
Tudo em vão. Aquele encontro, os planos... ele nem estava mais no bar. Ele devia tá rindo de mim em algum lugar, lembrando da minha carinha de impressionado... Meu Deus! É ele! Ai, socorro! Ai, socorro! Quê que eu falo? Quê que eu faço? Ele tá me esperando na esquina! Ele saiu do bar pra me esperar! Ele vai falar comigo. Ou eu falo com ele? Ai, ele tá rindo. Ai, eu to chegando...
- Oi.
- Ah... É... Oi!
- Você já tem mesmo que ir embora?
- É... Tenho. Tenho... Tenho aula.
Retardado! Não gagueje. Ele está apenas conversando com você, pareça normal. Pareça normal!
- Poxa! Que pena! E como eu faço para ver você outra vez?
Não ria! Não chore! Não demonstre excessiva emoção. Não fixe os olhos na mancha. NÃO! Não faz isso, anta! Fala seu nome e vai embora. Sai correndo. Você tá muito perto de estragar tudo isso.
E foi assim. Foi assim e por isso que eu passei os últimos três dias online nas redes sociais. Foi por isso que eu desmarquei tudo o que tinha pra sexta. Foi por isso que eu fiz a barba e testei uma franja nova. O meu filme começou. O encontro, as borboletinhas no estômago, a ansiedade apaixonada e apaixonante...
E foi assim também que acabou. Ele não quis mais me ver. Nossas conversas não duraram mais que dois “ois” e uma carinha feliz. Ou talvez durem ainda, já que foi ele quem parou de responder. O príncipe fugiu com o cavalo branco e eu fiquei aqui, em casa na sexta. Eu, meus planos e a nossa história que não vai mais acontecer.
Meu filme de amor durou menos que um trailer.
E essa história só é baseada em fatos reais porque um final fodido assim foge até à minha criatividade.

Um comentário:

  1. Just morta! Eu bem vi vc nessa historia! Sua cara, sem tirar nem por!

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