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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Fuleiragem


“Vocês vão ter que se levantar”, ela disse, sorrindo, enquanto se posicionava no centro do espaço vago à frente das cadeiras. “Levantar é o caral...”, tentou responder-lhe um dos rapazes da primeira fileira, mas ela já não estava mais olhando. Foi com essas palavras que uma mocinha, agora há pouco, levantou-se da sua cadeira e se instalou na frente de todo um teatro.
Ela não foi a única. Antes mesmo de a cantora entrar no palco, assim que baixaram as luzes, dezenas de pessoas levantaram-se de suas cadeiras distantes e se puseram de pé na frente do palco, bloqueando a visão dos que tentaram permanecer sentados. Os rapazes até tentaram resistir e, para aumentar o espanto dos presentes, já bastante incomodados, sucederam-se gritos, ofensas, empurrões e até alguns sopapos. A mocinha (e seus amigos) simplesmente não conseguia entender que, de pé, na frente do palco, ela atrapalhava a visão de todos aqueles que haviam comprado ingressos para assistir sentados ao show.
Não interessa se você não conseguiu comprar pela internet, se não deu tempo de chegar cedo à fila. Por maior que seja a sua vontade de aproveitar um determinado espetáculo, você deve fazer isso da sua cadeira. Não é tão difícil entender. Ou deve ser, porque, hoje, todos os lugares da segunda metade do teatro ficaram vazios. Amontoado e se empurrando, o público ocupou os corredores do teatro e TODOS os presentes foram obrigados a ficar de pé, na tentativa de ver uma pontinha da artista. Na segunda fileira, fingindo não perceber a iminente pancadaria, eu precisei me levantar e comprometer significativamente a visibilidade de uma família da terceira, logo atrás de mim e, infelizmente, bem mais baixa que eu.
Os amigos chegaram para apartar e a menina instalou-se de vez onde queria. Não satisfeita, ela dançou, fez piada, mandou beijos e viveu cada segundo como se comemorasse uma vitória. E foi mesmo, a vitória da baixaria. O respeito foi derrotado ali hoje, mais uma vez. A educação, a urbanidade. A alegria no seu rosto mostrava a importância da briga, do combate na vida (com certeza) vazia e inútil daquela garota. Ela provavelmente está, agora, em algum bar da cidade, vangloriando-se de seu grande êxito. Conseguiu incomodar dezenas de pessoas. Elas “tiveram que se levantar”, como ela disse que teriam – e, claro, porque ela quis ver mais de perto. Empurrou, agrediu, perturbou e venceu todo mundo que se opôs ao seu desejo, tão digno, de assistir ao show na frente da primeira fileira.
Gaby Amarantos, a cantora, é o maior nome do tecnobrega atual, ritmo oriundo do norte do país que ganha cada vez mais admiradores e sua “fuleiragem” (como ela mesma de refere ao seu trabalho) ganha cada vez mais espaço pelo país. Entre uma música e outra, Gaby contou da infância pobre num bairro da periferia, e de como isso a ensinara a respeitar os outros e suas diferenças. A sua frente, batendo os cotovelos nos presentes, a menina da plateia mostrava o contrário. Vinda sabe Deus de onde, ela podia saber qualquer coisa, menos o que significa respeito. Talvez tenha lhe faltado a periferia, a dificuldade, a educação... ou somente uma boa surra.
Em sua primeira apresentação em BH, a cantora paraense encheu o Palácio das Artes na abertura do Conexão Vivo. Com figurinos exagerados, performance empolgante e uma voz realmente linda, Gaby apresentou um verdadeiro show de diversidade. A Vivo trouxe, para o maior e mais tradicional teatro da cidade, uma excelente oportunidade de vivermos uma experiência diferente e inesquecível. E nós, o público belo-horizontino, não tivemos o mínimo de educação necessário para não fazer daquilo um fuzuê. A música da laje ganhou os palcos e nós fingimos não perceber, comportando-nos como torcedores num estádio. A fuleiragem que Gaby tanto prometeu ficou, hoje, por conta da plateia...

3 comentários:

  1. ô Caio. Isso é questão de educação.
    Das últimas três vezes que estive no Palácio das Artes perguntei em duas ocasiões se haveria seguranças retirando as pessoas que vão para a frente do palco ficar de pé e atrapalhar quem comprou lugares melhores.

    Assisti o Pouca Vogal na segunda fila e tudo correu bem. Com O Teatro Mágico a mesma coisa.

    Já com o Alceu Valença a educação/civilidade durou durante o show, mas no bis a coisa desandou.

    É a merda do espertão, Caio.

    Hoje, no estádio do Independência eu estava pensando: o estádio é novíssimo; eu estava no setor especial, o setor é confortável- aliás, todos os setores do estádio são, mas o filha da mãe insiste em assistir o jogo subindo na cadeira.
    A visão do local onde estava é perfeita com todos em pé no chão. Se sobe na cadeira avacalha.

    Outra coisa curiosa foi uma mulher fazendo um escândalo porque o lugar dela estava ocupado - no ingresso do futebol também tem o assento.

    Eu não sei se vão respeitar um dia o lugar nas cadeiras. O Mineirão já tinha lugares marcados, mas nunca funcionou. E fiscalizar isso é muito difícil. Se o Palácio das Artes tem, sei lá, 2 mil pessoas? No estádio tem 18 mil.

    O negócio é chegarmos num nível de educação que não se trata de sentar num lugar certo ou não atrapalhar a visão dos outros. Em um nível de educação que caiba pelo menos um pouco de respeito.

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  2. Eu já vi barraco no cinema do Pátio também.
    Uma mulher louca gritava com a outra O QUE É QUE CUSTA VOCÊ SENTAR EM OUTRO LUGAR?
    O que leva uma pessoa a sentar no lugar de outra e exigir que essa outra ENTENDA isso e não se importe?
    O povo perdeu a educação, o senso, tudo...

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  3. http://www.youtube.com/watch?v=mF0lVKqxUTU&feature=relmfu

    Corram pra 1:50.

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