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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Silas


A manhã começou com um tiro.
Um tiro! De repente. Não muito longe dali. Rosa logo se assustou. Onde já se viu tiro em rua de gente de bem? Ainda mais de manhã assim...
Rosa é casada há vinte e quatro anos, tem quatro filhos já criados e trabalha como cuidadora de idosos. Já foi faxineira, empregada doméstica e conta cheia de orgulho que já trabalhou num hospital grande da cidade. Hospital de gente importante. De família pobre, não pode estudar, mas talvez tivesse sido enfermeira. É nítida a vocação que tem para cuidar dos outros. A paciência hercúlea e inenarrável. Uma satisfação inexplicável. É feita de gato e sapato por Dona Maria e não parece sequer cansada ao fim do dia.
Rotina longa: doze horas, cinco vezes por semana. Mas Dona Maria é sua comadre. Quando nova e saudável, ajudou muito a família de Rosa. Dava mantimentos e roupas que ajudaram muito na sua criação. E, anos depois, foi madrinha do seu casamento com Rubens. Cuidar de Dona Maria, hoje, era como retribuir toda aquela caridade. E não era sacrifício nenhum. Era como cuidar de uma tia amada. Não se pode dizer “mãe”, porque, apesar de generosa, Dona Maria nunca foi das mais carinhosas, mas tia, com certeza.
O trabalho não é tão puxado. Basta ouvir e concordar. São doze longas e intermináveis horas de confusão mental, lembranças desconexas e acusações. Muito apegada, Dona Maria lembra-se, diariamente, de tudo o que já teve um dia, e acusa um a um dos seus filhos e netos pelos roubos. Os óculos escuros, o relógio de parede, a camisa do Galo. “Eu sou muito vítima. Confio demais nas pessoas e elas só me roubam”, ela repete a cada cinco itens e acusações. Quando ela dorme, Rosa lava as louças e passa as camisas da família. Não que seja sua obrigação, mas para ajudar a dona da casa, filha de Dona Maria, criada junto com Rosa, a quem reserva algo como o carinho de uma prima.
Mas o tiro não incomodou Rosa a toa. Desde a prisão de Silas, qualquer barulho assim lhe traz as piores lembranças e sensações. Silas é seu filho mais novo, que acabou de completar dezoito anos. Menos bonito que os irmãos, segundo a mãe, é um menino ótimo. Bom filho, bom amigo... Só está um pouco perdido desde que começou a andar com uma turma aí. As más companhias...
Foi preso uma vez, mas era inocente. Estava passeando com amigos no bairro e um deles atirou em um rapaz. Do nada. Sem que Silas sequer soubesse o que estava acontecendo. A polícia chegou e levou todo mundo. Coitada. Rosa ficou fora de si. Evangélica, boa mãe, não tinha criado filho para ser preso. Não tinha criado filho para tirar a vida de ninguém. Mas não foi ele. Ele nem sabia. Coitado do Silas! Estava andando com os amigos e não sabia que um deles tinha uma arma. Tão novo, tão sem juízo, preso... Solto.
O rapaz que levou o tiro é “Ouriço”, um traficante em começo de carreira, já bastante conhecido nas redondezas. Passeava pela praça do bairro quando foi atingido pelo garupa de uma moto. Moto essa, pilotada por ninguém menos que Silas, comparsa na tentativa de homicídio. Foi internado e liberado. Voltou ao bairro com um propósito único e simples, vingar-se dos responsáveis pelo susto.
Rosa não sabe de nada disso. Não sabe qual foi, de fato, a participação de Silas no crime. Só porque ele tava dirigindo a moto do amigo... Não sabe os motivos do filho. Não sabe quem é Ouriço e, muito menos, por que ele quer matar Silas. E também não sabe de onde veio aquele barulho de tiro. Não sabe que Silas desobedeceu seu pedido e voltou a circular pelas ruas do bairro. Não sabe que Ouriço está recuperado e solto. Não sabe que o acerto de contas acabou de acontecer. Da varanda, com Dona Maria, Rosa não tem como saber que aquele tiro foi em seu filho, Silas, que se contorce no chão ensanguentado da esquina movimentada enquanto pedestres discutem se é caso de ambulância ou de polícia.
Vai ficar desesperada quando souber. Mesmo porque também não sabe que foi só de raspão...

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