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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Natimorto


Hoje, eu encontrei aquele coração de nota fiscal. Aquilo foi em 2008, não foi? Comecinho de 2009, no máximo. Estávamos em uma pizzaria com os seus amigos. Eles não sabiam que nós éramos um casal – você e seus problemas! – e, de alguma forma, o assunto na mesa caminhou para algo perto das “vantagens” de ser solteiro. Tema que você parecia dominar perfeitamente, haja vista a elaboração do seu discurso.
Não disfarcei o incômodo, todo mundo fingiu não me ver e, de repente, você me chamou por baixo da mesa. Jogou algo no meu colo e, já bastante bravo, eu ignorei. Passados alguns instantes, a curiosidade falou mais alto e vi o coração. Enquanto seus amigos riam e engrossavam a sua argumentação (imbecil, registre-se), você fez um origami com o cupom fiscal da conta. Um coração. Você dobrou um coração embaixo da mesa e jogou no meu colo. Não sei se essa parte eu inventei, mas tenho, na memória, uma sombra de você dizendo ser aquele o seu coração.
Derreti. É claro. Por algum motivo inexplicável (que eu decidi, à época, chamar de “amor”), eu achava graça até na sua vida dupla. Via, em gestos como aquele, uma coragem imensa – e me cegava pra covardia de todas as outras horas. Não passou muito tempo, infelizmente, e toda a felicidade chegou ao fim. De uma hora para outra, você levou de volta o seu coração e estraçalhou o meu. Foi difícil. Ah, como foi. Era como se o tempo tivesse parado. Dois anos se passaram sem que nada me tirasse da cabeça o quão feliz eu poderia ser e não era. Dois anos pensando que minha felicidade tinha ido embora com você.
Como todo mundo avisou, isso tudo passou um dia. Demorou muito, bem mais que o normal, eu sei. Mas passou. Chorei, escrevi e enterrei. De alguma forma, minha cabeça pôs uma pedra nessa história de uma vez por todas. Até hoje. Agora há pouco, para ser mais exato, quando abri aquele caixa e avistei o coração.
Não pode ser o que eu tô pensando! Era. Ai, meu Deus! Eu guardei isso? Guardei. Vai tocar Adele. Não tocou. Só falta voltar tudo isso agora, depois de tanto tempo! Não voltou!
Foi meio como pegar um coração morto mesmo. Não bateu, não sangrou, não trouxe vida... A cena voltou toda, como não poderia deixar de ser. Mas a sensação foi quase boa, mais diversão que nostalgia, eu acho. E ficamos ali por um tempo, congelados. Até que amassei o coração e joguei fora. Achei que faria barulho, pesava como uma bigorna. Talvez até gritasse como um animal. Mas não. Nem isso.
Pensei em escrever. Mais um texto dedicado à vida que levaríamos juntos. Mais um tanto de lamentações e sonhos transcritos, na esperança vã de você ler um dia. E não consegui também. Queria que o seu coração encontrasse algum tantinho de amor esquecido dentro do meu e transformasse em palavras. Natimorto, pensei. Uma palavra bem pouco usual, eu sei, que eu talvez só tenha pensado por ter ouvido dias antes. Natimorto. A definição perfeita para esse momento e toda a nossa história. São natimortos esse texto, essas lembranças, natimorta a saudade... e natimorto todo aquele amor...

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